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Má formação de repórteres alia-se a estereótipo, diz jornalista

Da periferia à zona sul do Rio, Flávia Oliveira circula com desenvoltura e afirma que a vivência amplia o olhar do jornalista no dia a dia da profissão. Essa realidade foi apresentada aos estudantes do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da UFRJ, durante entrevista coletiva. A jornalista criticou a formação de alguns repórteres, ao dizer que estes usam de estereótipos e aprofundam o racismo na sociedade, muitas vezes por ignorância. Da macroeconomia à desigualdade social e racial, Flávia Oliveira despertou o interesse dos alunos durante a coletiva. O laboratório de Comunicação Crítica é uma atividade do LECC – Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária e trabalha com a interação entre teoria e prática.

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Da margem ao centro: os muros impostos à periferia

Bruna Vilar*

A jornalista e comentarista do “Estúdio i”, da Globo News, Flávia Oliveira foi a primeira convidada do Laboratório de Comunicação Crítica da ECO/UFRJ para a simulação de entrevista coletiva. O encontro se deu no dia 5 de maio de 2017 na Central de Produção Multimídia (CPM/UFRJ), localizada no campus da Praia Vermelha. Dentre os assuntos abordados na coletiva, a entrevistada destacou o impacto das desigualdades sociais e raciais no crescimento profissional de populações periféricas a partir de experiências pessoais.

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Flávia se especializou em economia e indicadores sociais. Em 1992, estreou na imprensa como repórter do “Jornal do Commércio” e, dois anos depois, começou a trabalhar no jornal “O Globo”. Atualmente, a entrevistada é titular de uma coluna sobre temas sociais na editoria “Sociedade”, comentarista de economia do “Estúdio i” e apresentadora do programa “TED Compartilhando Ideais”, do Canal Futura.

Ao narrar a trajetória pessoal, Flávia apontou a precariedade dos serviços públicos oferecidos nas zonas mais carentes da cidade, com ênfase na segregação do ensino público. De Irajá, um bairro situado no subúrbio do Rio de Janeiro, a entrevistada contou que viu de perto os obstáculos resultantes da ausência governamental na periferia. Para a jornalista, enquanto alunos de áreas nobres têm acesso às melhores instituições, moradores de favelas e subúrbios são submetidos a uma educação de qualidade inferior, carente de investimentos.

Flavia afirmou, ainda, que a falta de oportunidades profissionais para as populações carentes é um sério problema no Brasil, um país extremamente desigual e desinteressado. Segundo a jornalista, esse fator compromete o desenvolvimento das potencialidades de crianças e de adolescentes pobres, privando-os do conhecimento de suas reais capacidades e leques de escolha. “O horizonte que te oferecem é muito estreito. Não é miragem, é muro”, concluiu a entrevistada.

* Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Flávia Oliveira: a exceção da juventude carioca

Beatriz Carneiro*

A turma do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), teve a oportunidade de fazer uma entrevista coletiva com a jornalista Flávia Oliveira. O encontro aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 5 de maio. Conhecida pela trajetória acadêmica e profissional, Flávia formou-se em jornalismo no Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (IACS/UFF) e é técnica em estatística pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence). Ingressou no jornalismo como repórter do Jornal do Commercio, é colunista do jornal O Globo e comentarista do Estúdio i, na GloboNews.

Apesar da notoriedade da carreira, Flávia preferiu enfatizar sua vivência durante a entrevista, dando aos alunos uma aula de comunicação crítica. Através do relato pessoal é possível enxergar, segundo ela, a realidade da maioria dos jovens cariocas ou mesmo brasileiros. Flávia – mulher negra nascida em Irajá – relatou a criação humilde, marcada pela ausência do pai e figura forte da mãe, uma realidade da juventude carente de oportunidades e perspectivas.

Em dado momento da entrevista, alegou nunca ter cogitado ser jornalista até entrar na Ence e se relacionar com pessoas de classes sociais mais altas, ampliando a perspectiva de futuro. Segundo Flávia, muitos jovens do subúrbio nascem com horizontes estreitos, afunilados pelas dificuldades financeiras e familiares. De acordo com a convidada, isso pode resultar no abandono dos estudos para ajudar na economia e vida domésticas. Ainda assim, fez questão de citar a solidariedade e sororidade existentes no subúrbio, expondo a formação de verdadeiras redes de afeto entre mulheres que se ajudam e fortalecem umas as outras – desmistificando o senso comum de um cenário hostil.

Ao longo da entrevista, Flávia levantou questões que, segundo ela, são o câncer da sociedade brasileira – como assédio e racismo. Além de fazer parte das estatísticas no quesito assédio de mulheres, “a ideia de uma negra morar no bairro da Lagoa (zona sul do Rio de Janeiro – RJ) soa incompatível para a nossa sociedade”. A jornalista encerrou falando sobre a dedicação ao ativismo, principalmente nas pautas de feminismo e enfrentamento da discriminação racial. Ressaltou ainda a importância da representatividade negra e feminina na conscientização social dessas questões – enfatizando a necessidade da formação crítica dos comunicadores.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

“O povo negro precisa estar vivo”, manifesta jornalista

Catarina Lencioni*

A jornalista e colunista especializada em Economia e Indicadores Sociais, Flávia Oliveira, concedeu entrevista aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO). Espontânea e desinibida, a entrevistada explicou como a vida pessoal e profissional a transformaram em referência no jornalismo econômico. Flávia também falou sobre a reforma da previdência e os impactos no IDH no Brasil. A coletiva aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, dia 5 de maio.

Flávia contou que a jornada era longa e intensa. Nascida em Irajá, subúrbio do Rio, disse que desde cedo era comprometida com os estudos. Orgulho da mãe, ingressou na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) aos 15 anos. E foi lá que se deu conta de que deveria ser jornalista, apesar da falta de oportunidades comuns na periferia. “O horizonte que te apresentam é estreito. Não é miragem, é muro.”

Formada pela Universidade Federal Fluminense, a jornalista começou a trabalhar com economia devido à formação matemática. Logo depois foi para o Jornal do Comércio. Flávia relembra que entrou no Globo em 1994 para correlacionar números frios do IBGE com a realidade sociológica e viu o primeiro computador chegar dois anos depois (1996) no setor econômico da rede. Em 2008, estreou na TV como comentarista e permaneceu até 2015. No ano passado, apresentou cinco programas de Espelho, de Lázaro Ramos, no Canal Brasil e participou como comentarista de economia e comportamento no TV Mulher, com Marília Gabriela, no Canal Viva.

Quando questionada sobre a demissão da Rede Globo e as ocupações atuais na rede, se havia divergências ideológicas, Flávia se orgulha: “É meu quilombo, ninguém ocupa, eu só falo o que quero.” Hoje, é comentarista na Globonews, na rádio CBN e escreve em coluna semanal no Globo. “Tudo que eu escrevo eu penso, mas nem tudo que eu penso eu falo”, confessou. A jornalista também é conselheira do “Instituto Coca-cola”, voluntária na ONG “Uma gota no oceano” e membro da anistia do Brasil.

Flávia se identifica com o forte ativismo nas agendas de pobreza e diversidade e acredita que chegou ao ápice da carreira como profissional e mulher negra, denunciando a estrutura racista, patriarcal e machista da sociedade em geral e da comunicação e particular. “Onde eu cheguei, foi sem trair um milímetro as minhas crenças, convicções, meu caráter, minha identidade de gênero, minha cor. Eu sempre fui uma mulher negra do subúrbio em nome de ascensão profissional e cobrando respeito”. A entrevistada declarou que representatividade importa, sim, e que o povo negro precisa estar vivo para garantir direitos, conquistar novos patamares e não ser sub-representado e estereotipado por repórteres mal preparados. “Ninguém me pergunta qual minha banda preferida”, lamentou. Diz também que, diversidade é rentável e potencializa a riqueza social.

Sobre a reforma da previdência, o atual IDH e a desigualdade no Brasil, Flávia resumiu que o conjunto de medidas fazem sentido para quem está no planalto e olha o país do alto. Segundo a jonrnalista, flexibilizar na aguda recessão econômica é precarizar as condições de trabalho, penalizando as classes desfavorecidas. Mesmo com um PIB de 1,4 bi, o país ocupa o 79º lugar no ranking de desenvolvimento humano, com 0,777, caindo a primeira vez desde 2004, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A especialista afirmou que pretos e pardos somam 54% da população, mas são 75% mais pobres e não chegam a um quinto dos mais ricos, segundo cálculos do IBGE. A explicação dada pela jornalista é que, apesar da estrutura sofisticada do Brasil em produzir riqueza, o país é governado por uma elite interessada em explorar mão de obra e recursos naturais. “É inaceitável tanta desigualdade”, finalizou.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Não cabe no dicionário

Flávia Oliveira e a dificuldade de defini-la apenas como uma excelente jornalista

Bárbara Martins*

Cada palavra da jornalista Flávia Oliveira sobre sua vida pessoal torna quem a escuta um pouco mais consciente do que é ser humano. Convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica da ECO-UFRJ para uma simulação de entrevista coletiva, dia 5 de maio, a comentarista do telejornal Estúdio i, colunista do jornal O Globo e do programa CBN Rio da Rádio CBN, Flávia contou aos estudantes da Escola de Comunicação da UFRJ um pouco da trajetória pessoal até se tornar o símbolo de resistência que é hoje.

Criada no subúrbio do Rio de Janeiro, ex-aluna de escola estadual e filha única de sua mãe datilógrafa, Flávia se tornou o retrato daquilo que inspira e apoia: o empoderamento da mulher negra e periférica. Para a colunista, a posição que ocupa no ativismo e na carreira jornalística a afirmam como uma das mulheres fortes de sua “linhagem”, citou com muito orgulho durante a entrevista.

De acordo com Flávia, a mãe, maior incentivadora de sua educação, ouviu de uma professora do ensino fundamental de Flávia que a menina era muito inteligente para estudar numa escola com condições precárias. Contou que naquele momento sua história de vida tomou um novo rumo. Foi matriculada em escola estadual melhor conceituada e teve acesso a um ensino que a capacitou para estudar na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), onde se formou como técnica em Estatística. A entrevistada acrescentou que na Ence teve contato com pessoas encorajadas a serem o que quisessem ser e não o que estereótipos de classe e de gênero as limitavam.

Flávia alertou que longe de ser um exemplo meritocrático, chegar onde chegou infelizmente foi uma exceção à regra, considerando sua realidade. Disse que as redes de solidariedade dos subúrbios foram importantes na formação pessoal, mas são indícios da falta de assistência do Estado em prol dessas populações. Sendo negra a grande parte dessa população, a jornalista chamou atenção para o notável “compromisso [das pessoas negras] em se manterem vivas” mesmo com todos os percalços para viver dignamente.

Flávia Oliveira também é mãe, adora cantar, ama viajar e tem no candomblé sua fé estabelecida. “Visibilidade me traz axé”, disse ao explicar a importância de ocupar o lugar no qual está hoje em sua carreira. O quarto só dela que sempre foi um sonho, mas o qual acabou dividindo com mais alguém durante a vida inteira, foi transposto por suas colunas no jornal e no rádio – as quais, em suas palavras, são seus próprios quilombos; sua resistência. Ela encerra a simulação dizendo que o jornalismo não-convencional é a saída e que a interseccionalização é a chave para a união da esquerda. E, depois de tudo, o possível a se fazer quando se encontra uma pessoa como Flávia, é simplesmente escutar e aprender.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

“A nação é ancorada em privilégios”, afirma jornalista

Raiane Cardoso*

Jornalista pela Universidade Federal Fluminense (UFF), especializada em economia e indicadores sociais, nascida e criada no bairro de Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, Flávia Oliveira de Fraga, ou apenas Flávia Oliveira, participou de entrevista coletiva na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 5 de maio. Convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ), a jornalista falou sobre sua vida, trajetória e desafios, sobretudo sendo uma mulher negra vinda do subúrbio e um produto do ensino público brasileiro.

Fruto de um relacionamento ruim de um pai controverso, que a abandonou aos oito anos, e de uma mãe rígida e provedora da casa, Flávia disse que faz parte de uma “linhagem de mulheres muito fortes”. “Minha mãe era uma mulher forte e eu fui criada para ser uma mulher forte e independente, minha trajetória nunca foi moldada para ser a mulher de alguém, a esposa e mãe.” Contou que a mãe era rígida e obcecada por educação, o que fez toda a diferença em sua trajetória. “Ela era a mãe de miss da escolaridade, a grande frustração dela foi não ter podido estudar, então projetou isso em mim de uma forma até cruel”.

Flávia fez o ensino médio na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), onde se formou técnica em estatística. Com o estudo no Ence e o convívio com pessoas de classes sociais mais favorecidas, o desejo de fazer o ensino superior foi despertado, contou a jornalista. Explicou que foi a partir de um estágio no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que o Jornalismo virou uma opção.

Reconhece a dificuldade da maioria das pessoas sem condição de oferecer aos filhos uma boa educação. “Falta de oportunidade é uma coisa muito séria, porque quando não se tem, nem se sabe do que é capaz, possíveis escolhas não aparecem no leque de possibilidades”, argumentou. A jornalista começou a carreira como estagiária em assessoria de imprensa, seguindo depois para o Jornal do Comércio e para o Jornal O Globo. Flávia é comentarista no programa “Estúdio i” da Globo News, desde 2008, e colunista da Rádio CBN, no programa “CBN Rio”.

A entrevistada disse saber que chegou além do esperado em sua carreira. Afirmou que alcançou esse lugar sem negar ou trair seus princípios e sua história. “Em nenhum momento da minha trajetória eu neguei a minha origem, a minha raça, a condição feminina, a exigência por dignidade na profissão em nome de ascensão profissional. Onde quer que eu tenha chegado, cheguei sendo mulher negra de Irajá e cobrando respeito por isso. (…) Eu não cedi um milímetro em ser quem eu sou.” Questionada sobre o Rio de Janeiro apresentar, ao mesmo tempo, índice de IDH alto e grande falta de igualdade, qual seria a razão para isso, a jornalista respondeu que é inaceitável ainda tanta desigualdade nos dias de hoje. Explicou ser compreensível devido ao processo histórico do país, que foi forjado desde o inicio com a elite interessada em explorar mão e obra e os recursos naturais. “Nunca foi interesse do Brasil criar um ambiente de igualdade e de oportunidades, é uma nação ancorada em privilégios”.

Com relação ao futuro, Flávia disse que já fez bastante coisa, mas que deseja ser ouvida, ouvir e acompanhar a nova geração, na qual tem muita esperança. “Do ponto de vista pessoal, eu sou feliz. Quero ter neta, quero viajar mais, quero conhecer mais gente, fazer aula de canto. (…) Posso me dar ao luxo de dizer que sou, do ponto de vista profissional, realizada. Não reclamo muito da vida.”

Flávia fez ressalvas. “Minha vida não é só mar de rosas, me sinto muito sozinha, fazer esse caminho de mobilidade social tem um dado de sofrimento que é muito grande. Você deixa de alguma forma de pertencer a sua origem e jamais pertence totalmente ao destino. Eu sou uma jornalista rica da Lagoa em Irajá e uma mulher negra suburbana na Lagoa. Você não é nunca mais o que você foi e nunca será totalmente o que você se tornou”, concluiu.

*Aluna do 3º período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Flávia Oliveira e a manifestação do Realismo Fantástico

Giulia Alves Ribeiro*

A trajetória de mobilidade social da premiada jornalista Flávia Oliveira revela uma realidade alcançada por poucos. Colunista do jornal O Globo, comentarista do programa Estúdio i (GloboNews), da Rádio CBN e apresentadora do programa “TED – Compartilhando Ideias” do Canal Futura, Flávia contou como o passado de uma mulher negra do bairro Irajá moldou a vida de uma jornalista de sucesso. A conversa aconteceu durante coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, na Central de Produção Multimídia (CPM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sexta-feira 5 de maio.

Flávia graduou-se pelo Instituto de Artes e Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense (IACS/UFF), em 1993, e ingressou na carreira jornalística como repórter do Jornal do Commercio. Segundo a entrevistada, o apoio incondicional da mãe, que prezava pela educação, e o colégio onde teve a oportunidade de formar-se técnica em estatística, a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), foram fundamentais na sua caminhada.

Atual integrante dos conselhos consultivos na Anistia Internacional Brasil e na ONG Uma Gota no Oceano, a especialista em economia e indicadores sociais traçou duras críticas aos projetos de austeridade do presidente Michel Temer. Para a jornalista, propor a flexibilização das leis trabalhistas, em momento de aguda recessão econômica, significa condenar quem vende mão-de- obra a ter muito menos capacidade de barganha. Já a respeito da reforma da previdência, afirmou: “É desumano. Despreza desigualdades estruturais que são absolutamente relevantes”.

Flávia, que é ativista das agendas de pobreza, desigualdade, racismo e machismo, afirmou nunca ter abandonado os ideais durante a carreira: “Eu não cedi um milímetro”. Apesar do panorama de precarizações, a jornalista disse ainda ter esperança em reverter um projeto de Brasil que nunca buscou criar um ambiente de igualdade. “Quando você não tem oportunidade, você nem sabe do que é capaz. O horizonte que te oferecem é muito restrito: não é miragem, é muro”.

Em um país onde o ensino superior é composto em grande parte por mulheres brancas, com forte defasagem para as mulheres negras, Flávia revela um conto que está longe de ser a regra. Construir um futuro em que as trajetórias de luta “absolutamente banais”, de tantas mulheres periféricas brasileiras possam deixar de ser a exceção, significa transformar histórias de realismo fantástico em realidade.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Como o IDH diz pouco sobre a desigualdade social

Isaque Ferreira*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu entrevista aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ. A uma simulação de coletiva ocorreu na Central de Produção Multimídia (CPM/UFRJ), dia 5 de maio de 2017. Flávia é colunista do jornal O Globo e do programa “CBN Rio”, da Rádio CBN, além de comentarista do Estúdio i, da GloboNews. Durante a atividade, além de abordar questões sobre educação, diversidade e experiência de vida, a jornalista falou sobre a situação socioeconômica da cidade do Rio de Janeiro, a contradição do IDH, e de como as medidas de austeridade podem afetar a vida do cidadão carioca.

Flávia relatou a história de vida, passando desde as dificuldades na infância, até os momentos de superação na vida profissional. Enfatizando que foi formada por uma educação pública, a jornalista que atua em setores da economia, política e representatividade, tem como característica o forte posicionamento acerca da desigualdade social, considerado por ela como o grande mal da sociedade brasileira.

A entrevistada integrou de 2011 a 2016 o Conselho da Cidade do Rio de Janeiro, momento em que o município passou a figurar entre os maiores IDH do Brasil. Segundo o site Atlas do Desenvolvimento Humano, o Rio ficou em 45º lugar, entre os mais de 5000 municípios brasileiros. Mesmo com todo o desenvolvimento econômico durante esse período, a cidade apresenta uma visível desigualdade social. Quando questionada sobre essa aparente contradição, Flávia Oliveira explicou: “A nossa sociedade não tem nenhum problema em produzir riqueza, mas ao mesmo tempo é capaz de conviver com metade da população sem esgoto.”

Para a jornalista, a profunda diferença de produção e distribuição de riqueza é inaceitável, mas justifica. “É absolutamente compreensível se você pensar no processo histórico. Falamos de um país que foi forjado com uma elite interessada em explorar mão de obra e recursos naturais, ancorada em privilégios, que vive muito bem ao lado de uma população condenada à carência de todo tipo de ofertas de serviços públicos. Nunca existiu o interesse em criar um ambiente de igualdade e oportunidade para todos”.

Se o contexto histórico já reforça a desigualdade social no presente, os ajustes fiscais promovidos pelo governo federal e estadual podem agravar ainda mais esse problema no futuro. Para a jornalista, o congelamento no orçamento público que essas medidas propõem aumenta o risco de precarização em diversos setores que a população mais pobre depende. “Existe uma grande demanda da população para a melhoria dos serviços públicos, o que implicaria maior investimento, enquanto a proposta do governo é justamente limitar os gastos nesses setores. Esses ajustes, ao desprezar desigualdades estruturais na sociedade brasileira, assume um caráter desumano, prejudicando os menos favorecidos”.

*Aluno do 2° período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

De Irajá à projeção nacional

Juliana Pereira Salles*

Jornalista, apresentadora, comentarista, palestrante e mulher negra, como se identifica, Flávia Oliveira foi convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica para simular uma coletiva aos alunos da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). A entrevista aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 05 de maio de 2017, momento em que Flávia compartilhou um pouco de sua infância, além da trajetória pessoal e profissional.

Apesar de fazer parte de uma história quase padrão da mulher negra brasileira – abandono do pai, poucas oportunidades e dificuldade de inserção em determinados ambientes -, a jornalista relatou uma experiência de mobilidade social, mas reconheceu que isso representa uma parcela, ainda pequena, da população pobre.

De acordo com a entrevistada, que disse ter vindo de uma “linhagem de mulheres fortes”, o pulso firme e o apoio incondicional da mãe foram importantes para que aprendesse a valorizar a educação e começasse a trilhar seu caminho. Inicialmente, Flávia formou-se técnica em estatística na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), e depois em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Hoje é colunista do jornal O Globo, comentarista dos programas “CBN Rio” (Rádio CBN) e do “Estúdio i” (GloboNews). Recentemente estreou como apresentadora do programa “TED – Compartilhando Ideias”, que vai ao ar todas as quintas, às 23h, no Canal Futura.

Além disso, a jornalista é ativista social em questões que tangem os direitos da mulher, o racismo e os direitos humanos. É membro dos conselhos consultivos na Anistia Internacional Brasil e da ONG Uma Gota no Oceano e já ganhou prêmios como o “Jornalismo para Tolerância” (2013), da Federação Internacional de Jornalistas, pela coedição do suplemento A Cor do Brasil, sobre desigualdade racial.

A convidada narrou que durante sua jornada, apesar de ter sofrido com racismo e assédio, nunca abandonou as convicções e a identidade para se integrar ao status-quo. “Eu não cedi um milímetro”, disse. “E se eu fosse um homem branco será que minha trajetória seria diferente? Talvez. Só sei que para uma mulher negra do subúrbio de Irajá eu cheguei muito longe e não neguei quem eu sou em nome de ascensão profissional”, completou.

*Aluna do 2° período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Jornalista critica a não diversidade na mídia

Júlio Cesar Chiarelli*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu entrevista coletiva aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O encontro foi realizado na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 5 de maio. Flávia é comentarista do programa “Estúdio i” na Globo News, colunista do jornal “O Globo” e apresentadora do programa “Ted”, no Canal Futura. Durante a entrevista, Flávia exemplificou com a própria história determinadas características ainda persistentes não somente na profissão, mas na sociedade brasileira como um todo.

Nascida em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, a jornalista contou que vivia num apartamento de quarta e sala com a família. Foi abandonada pelo pai ainda criança, mas teve o suporte da mãe que, a fim de garantir os estudos e um futuro melhor para a filha, trabalhava o dia inteiro. Flávia lembrou quando um membro da família recomendou a ela prestar concurso para o posto de trocadora no metrô. Disse que se sentiu frustrada, não porque tivesse algum desrespeito pela profissão, mas sim por ter o sonho de cursar uma faculdade, e não se contentar com as barreiras sociais impostas.

Sempre estudou em instituições públicas perto de casa, mas quando passou para a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), o local era longe e passou a depender ainda mais de si mesma para realizar os sonhos. Flávia contou que nessa escola conviveu com pessoas de classes sociais mais elevadas, momento em que percebeu a fundo a desigualdade social brasileira, experiência que carrega até hoje no trabalho. Segundo a jornalista, o conhecimento estatístico adquirido na Ence foi fundamental para que tivesse destaque no âmbito do jornalismo econômico, porque tinha facilidade em trabalhar com números e analisar estatísticas.

Flávia disse que na primeira tentativa de ingresso numa universidade de jornalismo, passou para a Gama Filho, mas como não podia bancá-la, tentou mais um ano. Nesse período, relembra que teve novamente o apoio da mãe, que ao contrário do que acontece normalmente mandar os jovens arranjarem emprego para auxiliar nas despesas da casa, deu a ela mais uma chance. A confiança na filha deu certo e, na segunda tentativa, Flávia passou para a Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo a jornalista, essa foi uma experiência única, pois pela primeira vez sentiu-se valorizada pelas qualidades que apresentava, e não pela cor de pele ou camada social.

Sobre o trabalho, Flávia criticou a falta de diversidade no jornalismo e se disse incomodada com a pequena quantidade de pessoas negras escaladas para tratarem de assuntos como moda, política ou economia. Falou de racismo e relatou uma experiência pessoal de quando lhe pediram para alisar o cabelo quando fosse aparecer na televisão. Disse que rejeitou o pedido, num ato de defesa à identidade. Encerrou a entrevista com a convicção não só profissional, mas também da vida, de sempre defender os ideais e não aceitar imposições unilaterais, principalmente, preconceituosas.

*Aluno do 2º período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Desigualdade no Acesso à Educação

A jornalista Flávia Oliveira conta como o acesso à educação no Brasil
ainda é assimétrico e privilégio para poucos

Larissa Infante*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu entrevista coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO), na Central de Produção de Multimídia (CPM). O encontro ocorreu dia 5 de maio e, dentre os temas abordados, a desigualdade no acesso à educação, especialmente nos bairros mais afastados e carentes do Rio de Janeiro, foi assunto recorrente. A jornalista disse ter, ela própria, enfrentado essa realidade e conhecer bem os desafios impostos aos jovens economicamente desfavorecidos para obter uma formação de qualidade.

Flávia formou-se em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e ingressou no setor de economia a partir do Jornal do Commércio. Atualmente é colunista do jornal O Globo, comentarista econômica da rádio CBN Rio, comentarista do telejornal Estúdio I, da Globo News e apresentadora do programa Ted: Compartilhando Ideias, do Canal Futura. A jornalista também é conselheira do Instituto Coca Cola, membro dos conselhos consultivos da Anistia Internacional Brasil e da ONG Uma Gota no Oceano, além de ativista negra e feminista.

Flávia nasceu em Irajá, subúrbio carioca, e contou que a mãe saía muito cedo para trabalhar, situação comum enfrentada por moradores de bairros onde há escassez de recursos. Mas disse que isso não é tudo. Ressaltou ser justamente nesses lugares onde se formam redes de solidariedade, nas quais pessoas se ajudam mutuamente. “Ainda que o subúrbio seja visto como um território de ausência, há muitas coisas lá, como a sororidade, a solidariedade e a ajuda mútua. Mas quem olha de cima, só vê carência”. Segundo a jornalista, outra situação corriqueira é o abandono dos jovens por parte dos pais. Sem opção, os adolescentes são obrigados a deixar os estudos para cuidar dos irmãos ou para trabalhar e ajudar em casa.

Flávia relatou que, apesar de ter passado pela situação de abandono por parte do pai, teve mais sorte. A diferença, disse, foi o fato de ser filha única e de sempre ter sido muito estimulada pela mãe a continuar estudando. Com isso, conseguiu fazer o ensino médio na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), onde passou a conviver com pessoas de classe média. Contou que teve a oportunidade de conhecer outras perspectivas do mundo acadêmico e de experimentar um ensino de qualidade. Para Flávia, a falta de oportunidade é um sério problema. “Não há como conhecer um futuro diferente sem saber das oportunidades existentes e dos limites onde se pode chegar.”

De acordo com a entrevistada, o Brasil está entre os 10 maiores PIB’s do mundo, mas mesmo assim encontra-se em uma das últimas posições em desenvolvimento humano. Isso demonstra uma brutal desigualdade de acesso, especialmente entre bairros ricos e subúrbios das grandes cidades. Flávia concluiu a entrevista dizendo que muito ainda precisa ser feito para que haja igualdade no acesso à educação. Para ela, as redes sociais podem ser um dos modos de fazer ouvir a voz de pessoas socialmente excluídas. E demonstrou esperança nas novas gerações, em uma juventude para a qual o país será entregue nos próximos anos.

* Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Jornalista relata vivência com o racismo

Marcos Vinícius Lisboa da Silva*

A jornalista Flávia Oliveira foi convidada pelo Laboratório de Comunicação Critica da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO) para falar aos alunos do ciclo básico. O encontro aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 5 de maio, momento em que a jornalista contou um pouco da história pessoal, da trajetória de 25 anos de profissão e da experiência enquanto mulher negra.

Jornalista, mãe, esposa, filha de Yemanjá, ativista, mulher e negra, Flávia nasceu em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro. Contou que foi criada pela mãe divorciada, com poucos recursos, e estudou em instituições públicas, como a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), onde formou-se em jornalismo. Começou a trabalhar como repórter no Jornal do Commercio em 1992 e ingressou no jornal O Globo em 1994. Atualmente, Flávia escreve uma coluna em O Globo e comenta sobre economia no Estúdio i da Globo News.

Ainda na época do vestibular, Flávia afirmou que esbarrou com o racismo. “Jornalismo é carreira para moças ricas e bonitas”, ouviu do vizinho ao contar que gostaria de fazer faculdade. Não era a primeira nem seria a última vez que a jornalista enfrentaria o racismo e discriminações raciais em sua atividade profissional. “Não sou convidada para as festas da empresa”, disse. Questionada se em algum momento havia sido censurada por questões de diferenças ideológicas, declarou: “Nunca, diretamente. Mas agora na minha coluna tenho muito mais liberdade. Posso falar o que eu quiser. Minha coluna é o meu quilombo.”

A especialista em economia também falou sobre os estereótipos impostos às pessoas negras pela mídia. Segundo ela, os negros são sempre tratados da mesma forma, como sujeitos-problema ou à margem da sociedade: “Nunca entrevistam um doutor em direito penal negro, por exemplo. Isso é resultado de uma má formação dos repórteres”, criticou. Flávia declarou que também sofre com a estereotipização. “Nunca perguntam qual minha loja de sapatos favorita”, comentou sobre as entrevistas que concede. A jornalista ressaltou também a importância da representatividade para as minorias: “O espaço que eu ocupo é relevante para as pessoas que eu represento”, concluiu.

Com mais tempo livre atualmente, Flávia se dedica a novos projetos: é membro dos conselhos consultivos na Anistia Internacional Brasil e da ONG Uma Gota no Oceano e apresentadora da segunda temporada do TED Compartilhando Ideias no canal Futura.

* Aluno do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Quando o cotidiano ganha voz

Marília Garcia*

Em coletiva de imprensa, simulada na Central de Produção Multimídia (CPM) para os alunos da Escola de Comunicação (ECO/ UFRJ), sexta-feira, 5 de maio, a jornalista Flávia Oliveira contou um pouco sobre a trajetória de vida pessoal e profissional. Como uma mulher negra, de 47 anos, criada na Zona Norte do Rio de Janeiro, Flávia disse fazer parte de uma “linhagem” feminina comprometida, desde o início, com a sobrevivência em sociedade. Criada até os oito anos pelos pais em um conjunto habitacional no Irajá, participou de um ambiente familiar que por muito tempo mostrou-se conturbado.

Contou que a mãe, uma mulher negra, nascida no recôncavo baiano, era a principal provedora da casa e sempre pareceu emocionalmente distante. As responsabilidades e a dupla jornada da mãe viriam a reforçar a cobrança e as dificuldades que fariam parte da vida de ambas. A entrevistada contou também que a mãe era obcecada por educação e muito exigente em relação aos estudos.

Disse que estudou durante toda a vida em escolas públicas e, posteriormente no ensino médio, fez o curso técnico em estatísticas na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), instituição federal. Afirmou que a convivência com os amigos de classe média foi essencial para abrir horizontes de possibilidades. "A falta de oportunidade é uma coisa muito séria (…) você não sabe do que é capaz”.

Hoje, ativista ligada a diversas questões sociais, Flávia acredita que simboliza uma vitória para muitos grupos. Enxerga sua trajetória como a de muitas outras mulheres negras pelo Brasil, que tiveram mães igualmente abandonadas e obrigadas a criarem os filhos de maneira rígida, devido às dificuldades. Apesar de cotidianas, Flávia relembra que essas histórias raramente ganham voz e diante disso, enxerga-se como exceção.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/ UFRJ.

“O horizonte que te oferecem é muito estreito. Não é miragem. É muro”

Roanna Azevedo*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu a primeira entrevista coletiva para os estudantes do Laboratório de Comunicação Crítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Colunista de temas sociais no jornal O Globo e comentarista de economia do programa “Estúdio i”, da Globo News, Flávia explicou aos alunos como a realidade social e econômica em que está inserida impactaram sua trajetória profissional. O encontro aconteceu na sala de editoração da Central de Produção Multimídia (CPM) da Escola de Comunicação da UFRJ, dia 5 de maio de 2017.

Cria de instituições públicas de ensino, a jornalista relembrou a defasagem educacional a que estão submetidos alunos periféricos. Disse ter sido somente na Escola Nacional e Ciências Estatísticas (Ence), onde concluiu o ensino médio, que adquiriu o gosto pela economia e teve contato com pessoas de outras classes sociais. Segundo a entrevistada, esse convívio impulsionou seu desejo por fazer um curso superior, o que a fez ingressar na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Flávia contou que sua história se assemelha a de outras mulheres negras brasileiras, também criadas sem referência masculina, tendo na figura da mãe a principal fonte de segurança, nutrição, investimento e “quando sobra tempo, afeto”. Mas, como destacou a jornalista, o que diferenciou sua história dos arranjos familiares das demais foi a conquista da mobilidade social, estimulada pelo fato de ser filha única e pela obsessão da mãe por educação.

“Quando você está na periferia, num país que é extremamente desigual e desinteressado no potencial das pessoas, você não sabe [do que é capaz]”, comentou Flávia, natural de Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, sobre a escassez de oportunidades dos estudantes de classes mais pobres. “Várias amigas da minha mãe me mandavam folhetos de concursos para ser bilheteira do metrô. O horizonte que te oferecem é muito estreito. Não é miragem. É muro”. Questionada sobre as relações raciais no país, a jornalista constatou que o extermínio de jovens negros é a mais grave crise nacional. Para ela, a sociedade brasileira é profundamente racista e desigual, o que provoca um estreitamento das perspectivas de melhoria de vida da população negra.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Flávia Oliveira passa do subúrbio carioca ao jornalismo econômico

*Vitor Grama Oswaldino

A jornalista e comentarista Flávia Oliveira concedeu entrevista coletiva aos alunos da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ) na  sexta-feira, 5 de maio. Flávia começou a entrevista falando sobre vida pessoal e a trajetória como jornalista, contando desde o relacionamento com o pai até as dificuldades enquanto jornalista negra. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e técnica em Estatística pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), Flávia compartilhou vivências com os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica.

A convidada afirmou que considera a própria história banal e corriqueira. Explicou que foi criada pela mãe, sem referências masculinas, algo que para ela, representa a realidade brasileira. Segundo a jornalista, a diferença da sua história com relação às demais famílias brasileiras da periferia foi o arranjo familiar. Disse ser filha única e por isso não precisou criar nenhum irmão, possibilitando a continuação dos estudos.

O ingresso na Ence, escola federal vinculada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de acordo com a jornalista, possibilitou interações sociais com pessoas de maior poder aquisitivo, o que a incentivou a cursar uma universidade pública federal. Conhecida por ser comentarista de economia, Flávia atribui a estatística o conhecimento econômico.

Contou que a decisão de tornar-se jornalista aconteceu por acidente. Certa vez uma amiga ficou impressionada com seu conhecimento e a aconselhou a ser jornalista. Decidiu prestar vestibular e na segunda tentativa ingressou na Universidade Federal Fluminense (UFF). Depois de passar por assessoria de imprensa, foi trabalhar no Jornal do Commércio, onde ficou por dois anos.

Flávia começou no Jornal O Globo em 1994 como repórter, e contou que a primeira matéria foi sobre a entrega do imposto de renda, o que a fez se apaixonar por macroeconomia. Na televisão desde 2008, trabalhou no Estúdio i, da Globo News, programa no qual está até hoje. Entrou na CBN e escreve uma vez por semana no Jornal O Globo. A entrevistada se considera uma ativista em questões sobre femininos, racismo e pobreza, tendo a militância sustentada através do jornalismo.

Flávia declarou que ministra palestras no setor privado sobre tendências macroeconômicas e sobre questões raciais, sobretudo em maio e novembro, devido à abolição da escravidão e o Dia da Consciência Negra. A jornalista afirmou que é aprisionada nos debates em questões raciais em certos calendários, porém, para ela, qualquer espaço de fala vale a pena. Ao responder perguntas dos estudantes, a jornalista comentou sobre a questão da desigualdade no Rio de Janeiro e como a população negra é dizimada. Ao ser indagada sobre as barreiras de trabalhar no Jornal O Globo, a jornalista foi clara: “Minha coluna é o meu quilombo, eu que decido o que vou falar”.

*Aluno do 2º período do Curso de Comunicação Social (ECO/UFRJ)

Representatividade na mídia e justiça social

Sarah Ferragoni*

A importância e o contexto atual da representatividade de grupos minoritários na mídia foi o principal assunto tratado pela jornalista Flávia Oliveira, durante entrevista coletiva na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). A comentarista de economia do programa “Estúdio i” do GloboNews se reuniu com os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica no dia 5 de maio de 2017 na Central de Produção Multimídia (CPM).

Flávia, graduada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e colunista do jornal O Globo, apontou o problema de invisibilidade da população negra na mídia.”Nós somos sub-representados e, pior, estereotipados no noticiário”, disse a jornalista, sobre a maneira como os negros são retratados na imprensa.”As representações não dão conta do patamar que um número significativo de negros atingiu na sociedade brasileira”.

A comentarista mencionou o quão problemático é o fato de a representatividade não ser buscada pelos próprios jornalistas. “A gente não tem formação que valorize a diversidade”, disse, ao fazer referência ao preparo dos profissionais de comunicação. Flávia destacou que a visão estereotipada é reforçada em noticiários quando negros são chamados, por exemplo, apenas para discutir sobre questões raciais.

A jornalista ressaltou, também, uma questão que classificou como sendo “a mais grave crise brasileira”, o extermínio de jovens negros nas comunidades. Essa pauta relaciona-se com a sub-representatividade na medida em que, segundo a entrevistada, as perspectivas de vida desses menores marginalizados são estreitadas pela falta de empatia e pelo racismo institucional, reforçados pelos próprios meios de comunicação.

“Para romper com isso a gente precisava de um pacto de redução de homicídios”, disse a comentarista sobre a situação desses meninos nas favelas. A entrevistada acrescentou a necessidade da construção de uma cultura de empatia na sociedade brasileira que, hoje, caminha em sentido contrário, invisibilizando os jovens negros.

Por fim, como mulher negra e inserida na grande mídia, Flávia relatou seus sentimentos ao se perceber como representante de muitas outras mulheres. “Eu não tenho o direito de abrir mão de nada que eu tenha conquistado. O espaço que ocupo hoje é relevante para alguém que virá depois” finalizou.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

“O extermínio da população negra é a maior crise brasileira”

Ericka Lourenço*

“Eu não sou eu, na verdade, sou a história das diversas mulheres negras que foram trazidas à força, escravizadas e sobreviveram. Eu não tenho o direito de abrir mão de nada que eu tenha conquistado, o espaço que ocupo hoje terá importância para a geração que vem a seguir”. A afirmação é da jornalista Flávia Oliveira, sobre a questão da representatividade negra na mídia brasileira. O tema foi abordado durante entrevista coletiva, concedida aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da ECO/UFRJ, na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 5 de Maio.

Flávia é colunista do jornal “O Globo” e comentarista do telejornal “Estúdio i” da GloboNews. Criada na periferia do Rio (RJ), bairro de Irajá, disse fazer parte de uma “linhagem de mulheres fortes” e independentes. Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense, a jornalista afirmou nunca ter negado a sua raça e crença em nome de ascensão profissional. Apontou falta de diversidade nas redações a respeito das questões de gênero e, principalmente, das questões raciais.

Para Flávia, não é novidade que a representação das pessoas negras na mídia se dá de forma estigmatizada. Disse que pautas envolvendo esse grupo social na maioria das vezes é associada à situações de pobreza, carência, violência ou racismo. Segundo a jornalista, essa invisibilidade midiática não dá conta do patamar que a população negra já atingiu na sociedade brasileira. Acrescentou que muito dessa falta de representatividade tem a ver com a má formação educacional dos jornalistas nos ambientes universitários. De acordo com Flávia, o extermínio da população negra é a maior crise brasileira e a canção”A carne”, de Elza Soares, ainda é tristemente verdadeira.

A jornalista, que se define como ativista da construção de igualdade tem o desejo de acompanhar ainda mais a juventude brasileira e refletir na formação da nova geração. Também acredita que a solução para a ausente cultura de empatia social esteja na possibilidade de interseções das agendas dos movimentos sociais brasileiros, setor ainda muito segmentado hoje.

* Aluna do 3ª período do Curso de Comunicação Social da ECO UFRJ

O DESAFIO DE REFUNDAR A COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA

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Confira no link a entrevista onde Raquel Paiva indica as potencialidades e faz um balanço do campo de estudos que consolidou no Brasil

http://www.ppgmidiaecotidiano.uff.br/ojs/index.php/Midecot/article/view/368/256

Conferência da Seção de Comunicação Internacional (INC) da IAMCR

Captura de Tela 2017-03-15 às 17.01.58Convite à apresentação de trabalhos Conferência da Seção de Comunicação Internacional (INC) da IAMCR:
“Serviços Digitais no Mundo Audiovisual – Mercados, Limites e Políticas”
Uma Visão Geral do Mercado Digital Audiovisual

Data: quarta-feira, 12 de julho de 2017
Localização: Escola de Comunicação Universidade Federal do Rio de Janeiro, Campus Praia Vermelha

Organizadores:

Karen Arriaza Ibarra, Universidade Complutense de Madrid
(arriazaibarra@ccinf.ucm.es)

Raquel Paiva, Universidade Federal do Rio de Janeiro
(raquelpaiva.soares@eco.ufrj.br)

Resumo / Convite à apresentação de trabalhos:

No mundo digitalizado de hoje os mercados audiovisuais estão crescendo rumo à implementação de novos serviços. Os usuários aumentam o consumo de dispositivos, ao mesmo tempo em que as empresas de manufaturas não parecem parar de produzir bens novos ou atualizados. Parece uma corrida sem fim …. Para onde afinal?

Quais são os avanços nesse sentido, nas diferentes regiões do mundo? A dispersão digital está-se ampliando do mesmo modo que as outras dispersões significativas nas sociedades humanas, ou ao contrário estamos todos nos aproximando do conceito de “Aldeia Global”, de MacLuhan? Em que medida os serviços digitalizados contribuem para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das sociedades e em que aspectos? E quando se trata de limites e fronteiras, os governos de todo o mundo estão levando em conta os benefícios para os receptores das novas tecnologias 2 digitalizadas, o seu impacto sobre as gerações futuras ou apenas agem no interesse dos agentes econômicos?

Esta Conferência da Seção de Comunicação Internacional (INC), está aberta a trabalhos que discorram sobre os serviços digitais na Europa, América do Sul e em diferentes regiões do mundo, com o objetivo de proporcionar um panorama global desses serviços e de seu impacto social.

Serão aceitos resumos em inglês, espanhol e português.

Prazo para envio de resumos: 31 de maio de 2017.

Envie seus resumos para o seguinte endereço de e-mail: arriazaibarra@ccinf.ucm.es

Tanto a língua da conferência como os resumos podem ser apresentados em qualquer um dos três idiomas: Inglês, Português e Espanhol.

Disponível, em livro, as apresentações do Seminário sobre Educação Midiática, do CCS-Brasília

O Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional acaba de disponibilizar a transcrição do seminário sobre Educação Midiática e Informacional no Brasil – Um Olhar a Partir da Perspectiva da Unesco, ocorrido em Brasília, no dia 7 de novembro de 2016.

Na introdução do livreto, o Presidente do CCS, Dr. Miguel Cançado, explica que o evento havia sido proposto pelo Prof. Ismar de Oliveira Soares, membro do CCS e Presidente da ABPEducom, que coordenou o evento.

O seminário contou como expositores, com a presença daProfª Raquel Paiva, da UFRJ; da aluna Clarice Villari (14 anos), do Colégio Dante Alighieri; da aluna Maria Eduarda Silva de Oliveira(13 anos), da EMEF Casa Blanca de São Paulo; da Profª Sandra Zita Silva Tiné, do MEC, e do Senhor Alton Grizzle, articulador do Programa GAPMIL da UNESCO.

 Conteúdo na integra em: http://www.abpeducom.org.br/2016/12/disponivel-em-livro-as-apresentacoes-do.html#more

 

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