Arquivo da categoria: Laboratório de Comunicação Crítica: Técnica de Linguagem Jornalistica Aplicada

Má formação de repórteres alia-se a estereótipo, diz jornalista

Da periferia à zona sul do Rio, Flávia Oliveira circula com desenvoltura e afirma que a vivência amplia o olhar do jornalista no dia a dia da profissão. Essa realidade foi apresentada aos estudantes do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da UFRJ, durante entrevista coletiva. A jornalista criticou a formação de alguns repórteres, ao dizer que estes usam de estereótipos e aprofundam o racismo na sociedade, muitas vezes por ignorância. Da macroeconomia à desigualdade social e racial, Flávia Oliveira despertou o interesse dos alunos durante a coletiva. O laboratório de Comunicação Crítica é uma atividade do LECC – Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária e trabalha com a interação entre teoria e prática.

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Da margem ao centro: os muros impostos à periferia

Bruna Vilar*

A jornalista e comentarista do “Estúdio i”, da Globo News, Flávia Oliveira foi a primeira convidada do Laboratório de Comunicação Crítica da ECO/UFRJ para a simulação de entrevista coletiva. O encontro se deu no dia 5 de maio de 2017 na Central de Produção Multimídia (CPM/UFRJ), localizada no campus da Praia Vermelha. Dentre os assuntos abordados na coletiva, a entrevistada destacou o impacto das desigualdades sociais e raciais no crescimento profissional de populações periféricas a partir de experiências pessoais.

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Flávia se especializou em economia e indicadores sociais. Em 1992, estreou na imprensa como repórter do “Jornal do Commércio” e, dois anos depois, começou a trabalhar no jornal “O Globo”. Atualmente, a entrevistada é titular de uma coluna sobre temas sociais na editoria “Sociedade”, comentarista de economia do “Estúdio i” e apresentadora do programa “TED Compartilhando Ideais”, do Canal Futura.

Ao narrar a trajetória pessoal, Flávia apontou a precariedade dos serviços públicos oferecidos nas zonas mais carentes da cidade, com ênfase na segregação do ensino público. De Irajá, um bairro situado no subúrbio do Rio de Janeiro, a entrevistada contou que viu de perto os obstáculos resultantes da ausência governamental na periferia. Para a jornalista, enquanto alunos de áreas nobres têm acesso às melhores instituições, moradores de favelas e subúrbios são submetidos a uma educação de qualidade inferior, carente de investimentos.

Flavia afirmou, ainda, que a falta de oportunidades profissionais para as populações carentes é um sério problema no Brasil, um país extremamente desigual e desinteressado. Segundo a jornalista, esse fator compromete o desenvolvimento das potencialidades de crianças e de adolescentes pobres, privando-os do conhecimento de suas reais capacidades e leques de escolha. “O horizonte que te oferecem é muito estreito. Não é miragem, é muro”, concluiu a entrevistada.

* Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Flávia Oliveira: a exceção da juventude carioca

Beatriz Carneiro*

A turma do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), teve a oportunidade de fazer uma entrevista coletiva com a jornalista Flávia Oliveira. O encontro aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 5 de maio. Conhecida pela trajetória acadêmica e profissional, Flávia formou-se em jornalismo no Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (IACS/UFF) e é técnica em estatística pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence). Ingressou no jornalismo como repórter do Jornal do Commercio, é colunista do jornal O Globo e comentarista do Estúdio i, na GloboNews.

Apesar da notoriedade da carreira, Flávia preferiu enfatizar sua vivência durante a entrevista, dando aos alunos uma aula de comunicação crítica. Através do relato pessoal é possível enxergar, segundo ela, a realidade da maioria dos jovens cariocas ou mesmo brasileiros. Flávia – mulher negra nascida em Irajá – relatou a criação humilde, marcada pela ausência do pai e figura forte da mãe, uma realidade da juventude carente de oportunidades e perspectivas.

Em dado momento da entrevista, alegou nunca ter cogitado ser jornalista até entrar na Ence e se relacionar com pessoas de classes sociais mais altas, ampliando a perspectiva de futuro. Segundo Flávia, muitos jovens do subúrbio nascem com horizontes estreitos, afunilados pelas dificuldades financeiras e familiares. De acordo com a convidada, isso pode resultar no abandono dos estudos para ajudar na economia e vida domésticas. Ainda assim, fez questão de citar a solidariedade e sororidade existentes no subúrbio, expondo a formação de verdadeiras redes de afeto entre mulheres que se ajudam e fortalecem umas as outras – desmistificando o senso comum de um cenário hostil.

Ao longo da entrevista, Flávia levantou questões que, segundo ela, são o câncer da sociedade brasileira – como assédio e racismo. Além de fazer parte das estatísticas no quesito assédio de mulheres, “a ideia de uma negra morar no bairro da Lagoa (zona sul do Rio de Janeiro – RJ) soa incompatível para a nossa sociedade”. A jornalista encerrou falando sobre a dedicação ao ativismo, principalmente nas pautas de feminismo e enfrentamento da discriminação racial. Ressaltou ainda a importância da representatividade negra e feminina na conscientização social dessas questões – enfatizando a necessidade da formação crítica dos comunicadores.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

“O povo negro precisa estar vivo”, manifesta jornalista

Catarina Lencioni*

A jornalista e colunista especializada em Economia e Indicadores Sociais, Flávia Oliveira, concedeu entrevista aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO). Espontânea e desinibida, a entrevistada explicou como a vida pessoal e profissional a transformaram em referência no jornalismo econômico. Flávia também falou sobre a reforma da previdência e os impactos no IDH no Brasil. A coletiva aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, dia 5 de maio.

Flávia contou que a jornada era longa e intensa. Nascida em Irajá, subúrbio do Rio, disse que desde cedo era comprometida com os estudos. Orgulho da mãe, ingressou na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) aos 15 anos. E foi lá que se deu conta de que deveria ser jornalista, apesar da falta de oportunidades comuns na periferia. “O horizonte que te apresentam é estreito. Não é miragem, é muro.”

Formada pela Universidade Federal Fluminense, a jornalista começou a trabalhar com economia devido à formação matemática. Logo depois foi para o Jornal do Comércio. Flávia relembra que entrou no Globo em 1994 para correlacionar números frios do IBGE com a realidade sociológica e viu o primeiro computador chegar dois anos depois (1996) no setor econômico da rede. Em 2008, estreou na TV como comentarista e permaneceu até 2015. No ano passado, apresentou cinco programas de Espelho, de Lázaro Ramos, no Canal Brasil e participou como comentarista de economia e comportamento no TV Mulher, com Marília Gabriela, no Canal Viva.

Quando questionada sobre a demissão da Rede Globo e as ocupações atuais na rede, se havia divergências ideológicas, Flávia se orgulha: “É meu quilombo, ninguém ocupa, eu só falo o que quero.” Hoje, é comentarista na Globonews, na rádio CBN e escreve em coluna semanal no Globo. “Tudo que eu escrevo eu penso, mas nem tudo que eu penso eu falo”, confessou. A jornalista também é conselheira do “Instituto Coca-cola”, voluntária na ONG “Uma gota no oceano” e membro da anistia do Brasil.

Flávia se identifica com o forte ativismo nas agendas de pobreza e diversidade e acredita que chegou ao ápice da carreira como profissional e mulher negra, denunciando a estrutura racista, patriarcal e machista da sociedade em geral e da comunicação e particular. “Onde eu cheguei, foi sem trair um milímetro as minhas crenças, convicções, meu caráter, minha identidade de gênero, minha cor. Eu sempre fui uma mulher negra do subúrbio em nome de ascensão profissional e cobrando respeito”. A entrevistada declarou que representatividade importa, sim, e que o povo negro precisa estar vivo para garantir direitos, conquistar novos patamares e não ser sub-representado e estereotipado por repórteres mal preparados. “Ninguém me pergunta qual minha banda preferida”, lamentou. Diz também que, diversidade é rentável e potencializa a riqueza social.

Sobre a reforma da previdência, o atual IDH e a desigualdade no Brasil, Flávia resumiu que o conjunto de medidas fazem sentido para quem está no planalto e olha o país do alto. Segundo a jonrnalista, flexibilizar na aguda recessão econômica é precarizar as condições de trabalho, penalizando as classes desfavorecidas. Mesmo com um PIB de 1,4 bi, o país ocupa o 79º lugar no ranking de desenvolvimento humano, com 0,777, caindo a primeira vez desde 2004, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A especialista afirmou que pretos e pardos somam 54% da população, mas são 75% mais pobres e não chegam a um quinto dos mais ricos, segundo cálculos do IBGE. A explicação dada pela jornalista é que, apesar da estrutura sofisticada do Brasil em produzir riqueza, o país é governado por uma elite interessada em explorar mão de obra e recursos naturais. “É inaceitável tanta desigualdade”, finalizou.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Não cabe no dicionário

Flávia Oliveira e a dificuldade de defini-la apenas como uma excelente jornalista

Bárbara Martins*

Cada palavra da jornalista Flávia Oliveira sobre sua vida pessoal torna quem a escuta um pouco mais consciente do que é ser humano. Convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica da ECO-UFRJ para uma simulação de entrevista coletiva, dia 5 de maio, a comentarista do telejornal Estúdio i, colunista do jornal O Globo e do programa CBN Rio da Rádio CBN, Flávia contou aos estudantes da Escola de Comunicação da UFRJ um pouco da trajetória pessoal até se tornar o símbolo de resistência que é hoje.

Criada no subúrbio do Rio de Janeiro, ex-aluna de escola estadual e filha única de sua mãe datilógrafa, Flávia se tornou o retrato daquilo que inspira e apoia: o empoderamento da mulher negra e periférica. Para a colunista, a posição que ocupa no ativismo e na carreira jornalística a afirmam como uma das mulheres fortes de sua “linhagem”, citou com muito orgulho durante a entrevista.

De acordo com Flávia, a mãe, maior incentivadora de sua educação, ouviu de uma professora do ensino fundamental de Flávia que a menina era muito inteligente para estudar numa escola com condições precárias. Contou que naquele momento sua história de vida tomou um novo rumo. Foi matriculada em escola estadual melhor conceituada e teve acesso a um ensino que a capacitou para estudar na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), onde se formou como técnica em Estatística. A entrevistada acrescentou que na Ence teve contato com pessoas encorajadas a serem o que quisessem ser e não o que estereótipos de classe e de gênero as limitavam.

Flávia alertou que longe de ser um exemplo meritocrático, chegar onde chegou infelizmente foi uma exceção à regra, considerando sua realidade. Disse que as redes de solidariedade dos subúrbios foram importantes na formação pessoal, mas são indícios da falta de assistência do Estado em prol dessas populações. Sendo negra a grande parte dessa população, a jornalista chamou atenção para o notável “compromisso [das pessoas negras] em se manterem vivas” mesmo com todos os percalços para viver dignamente.

Flávia Oliveira também é mãe, adora cantar, ama viajar e tem no candomblé sua fé estabelecida. “Visibilidade me traz axé”, disse ao explicar a importância de ocupar o lugar no qual está hoje em sua carreira. O quarto só dela que sempre foi um sonho, mas o qual acabou dividindo com mais alguém durante a vida inteira, foi transposto por suas colunas no jornal e no rádio – as quais, em suas palavras, são seus próprios quilombos; sua resistência. Ela encerra a simulação dizendo que o jornalismo não-convencional é a saída e que a interseccionalização é a chave para a união da esquerda. E, depois de tudo, o possível a se fazer quando se encontra uma pessoa como Flávia, é simplesmente escutar e aprender.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

“A nação é ancorada em privilégios”, afirma jornalista

Raiane Cardoso*

Jornalista pela Universidade Federal Fluminense (UFF), especializada em economia e indicadores sociais, nascida e criada no bairro de Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, Flávia Oliveira de Fraga, ou apenas Flávia Oliveira, participou de entrevista coletiva na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 5 de maio. Convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ), a jornalista falou sobre sua vida, trajetória e desafios, sobretudo sendo uma mulher negra vinda do subúrbio e um produto do ensino público brasileiro.

Fruto de um relacionamento ruim de um pai controverso, que a abandonou aos oito anos, e de uma mãe rígida e provedora da casa, Flávia disse que faz parte de uma “linhagem de mulheres muito fortes”. “Minha mãe era uma mulher forte e eu fui criada para ser uma mulher forte e independente, minha trajetória nunca foi moldada para ser a mulher de alguém, a esposa e mãe.” Contou que a mãe era rígida e obcecada por educação, o que fez toda a diferença em sua trajetória. “Ela era a mãe de miss da escolaridade, a grande frustração dela foi não ter podido estudar, então projetou isso em mim de uma forma até cruel”.

Flávia fez o ensino médio na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), onde se formou técnica em estatística. Com o estudo no Ence e o convívio com pessoas de classes sociais mais favorecidas, o desejo de fazer o ensino superior foi despertado, contou a jornalista. Explicou que foi a partir de um estágio no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que o Jornalismo virou uma opção.

Reconhece a dificuldade da maioria das pessoas sem condição de oferecer aos filhos uma boa educação. “Falta de oportunidade é uma coisa muito séria, porque quando não se tem, nem se sabe do que é capaz, possíveis escolhas não aparecem no leque de possibilidades”, argumentou. A jornalista começou a carreira como estagiária em assessoria de imprensa, seguindo depois para o Jornal do Comércio e para o Jornal O Globo. Flávia é comentarista no programa “Estúdio i” da Globo News, desde 2008, e colunista da Rádio CBN, no programa “CBN Rio”.

A entrevistada disse saber que chegou além do esperado em sua carreira. Afirmou que alcançou esse lugar sem negar ou trair seus princípios e sua história. “Em nenhum momento da minha trajetória eu neguei a minha origem, a minha raça, a condição feminina, a exigência por dignidade na profissão em nome de ascensão profissional. Onde quer que eu tenha chegado, cheguei sendo mulher negra de Irajá e cobrando respeito por isso. (…) Eu não cedi um milímetro em ser quem eu sou.” Questionada sobre o Rio de Janeiro apresentar, ao mesmo tempo, índice de IDH alto e grande falta de igualdade, qual seria a razão para isso, a jornalista respondeu que é inaceitável ainda tanta desigualdade nos dias de hoje. Explicou ser compreensível devido ao processo histórico do país, que foi forjado desde o inicio com a elite interessada em explorar mão e obra e os recursos naturais. “Nunca foi interesse do Brasil criar um ambiente de igualdade e de oportunidades, é uma nação ancorada em privilégios”.

Com relação ao futuro, Flávia disse que já fez bastante coisa, mas que deseja ser ouvida, ouvir e acompanhar a nova geração, na qual tem muita esperança. “Do ponto de vista pessoal, eu sou feliz. Quero ter neta, quero viajar mais, quero conhecer mais gente, fazer aula de canto. (…) Posso me dar ao luxo de dizer que sou, do ponto de vista profissional, realizada. Não reclamo muito da vida.”

Flávia fez ressalvas. “Minha vida não é só mar de rosas, me sinto muito sozinha, fazer esse caminho de mobilidade social tem um dado de sofrimento que é muito grande. Você deixa de alguma forma de pertencer a sua origem e jamais pertence totalmente ao destino. Eu sou uma jornalista rica da Lagoa em Irajá e uma mulher negra suburbana na Lagoa. Você não é nunca mais o que você foi e nunca será totalmente o que você se tornou”, concluiu.

*Aluna do 3º período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Flávia Oliveira e a manifestação do Realismo Fantástico

Giulia Alves Ribeiro*

A trajetória de mobilidade social da premiada jornalista Flávia Oliveira revela uma realidade alcançada por poucos. Colunista do jornal O Globo, comentarista do programa Estúdio i (GloboNews), da Rádio CBN e apresentadora do programa “TED – Compartilhando Ideias” do Canal Futura, Flávia contou como o passado de uma mulher negra do bairro Irajá moldou a vida de uma jornalista de sucesso. A conversa aconteceu durante coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, na Central de Produção Multimídia (CPM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sexta-feira 5 de maio.

Flávia graduou-se pelo Instituto de Artes e Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense (IACS/UFF), em 1993, e ingressou na carreira jornalística como repórter do Jornal do Commercio. Segundo a entrevistada, o apoio incondicional da mãe, que prezava pela educação, e o colégio onde teve a oportunidade de formar-se técnica em estatística, a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), foram fundamentais na sua caminhada.

Atual integrante dos conselhos consultivos na Anistia Internacional Brasil e na ONG Uma Gota no Oceano, a especialista em economia e indicadores sociais traçou duras críticas aos projetos de austeridade do presidente Michel Temer. Para a jornalista, propor a flexibilização das leis trabalhistas, em momento de aguda recessão econômica, significa condenar quem vende mão-de- obra a ter muito menos capacidade de barganha. Já a respeito da reforma da previdência, afirmou: “É desumano. Despreza desigualdades estruturais que são absolutamente relevantes”.

Flávia, que é ativista das agendas de pobreza, desigualdade, racismo e machismo, afirmou nunca ter abandonado os ideais durante a carreira: “Eu não cedi um milímetro”. Apesar do panorama de precarizações, a jornalista disse ainda ter esperança em reverter um projeto de Brasil que nunca buscou criar um ambiente de igualdade. “Quando você não tem oportunidade, você nem sabe do que é capaz. O horizonte que te oferecem é muito restrito: não é miragem, é muro”.

Em um país onde o ensino superior é composto em grande parte por mulheres brancas, com forte defasagem para as mulheres negras, Flávia revela um conto que está longe de ser a regra. Construir um futuro em que as trajetórias de luta “absolutamente banais”, de tantas mulheres periféricas brasileiras possam deixar de ser a exceção, significa transformar histórias de realismo fantástico em realidade.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Como o IDH diz pouco sobre a desigualdade social

Isaque Ferreira*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu entrevista aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ. A uma simulação de coletiva ocorreu na Central de Produção Multimídia (CPM/UFRJ), dia 5 de maio de 2017. Flávia é colunista do jornal O Globo e do programa “CBN Rio”, da Rádio CBN, além de comentarista do Estúdio i, da GloboNews. Durante a atividade, além de abordar questões sobre educação, diversidade e experiência de vida, a jornalista falou sobre a situação socioeconômica da cidade do Rio de Janeiro, a contradição do IDH, e de como as medidas de austeridade podem afetar a vida do cidadão carioca.

Flávia relatou a história de vida, passando desde as dificuldades na infância, até os momentos de superação na vida profissional. Enfatizando que foi formada por uma educação pública, a jornalista que atua em setores da economia, política e representatividade, tem como característica o forte posicionamento acerca da desigualdade social, considerado por ela como o grande mal da sociedade brasileira.

A entrevistada integrou de 2011 a 2016 o Conselho da Cidade do Rio de Janeiro, momento em que o município passou a figurar entre os maiores IDH do Brasil. Segundo o site Atlas do Desenvolvimento Humano, o Rio ficou em 45º lugar, entre os mais de 5000 municípios brasileiros. Mesmo com todo o desenvolvimento econômico durante esse período, a cidade apresenta uma visível desigualdade social. Quando questionada sobre essa aparente contradição, Flávia Oliveira explicou: “A nossa sociedade não tem nenhum problema em produzir riqueza, mas ao mesmo tempo é capaz de conviver com metade da população sem esgoto.”

Para a jornalista, a profunda diferença de produção e distribuição de riqueza é inaceitável, mas justifica. “É absolutamente compreensível se você pensar no processo histórico. Falamos de um país que foi forjado com uma elite interessada em explorar mão de obra e recursos naturais, ancorada em privilégios, que vive muito bem ao lado de uma população condenada à carência de todo tipo de ofertas de serviços públicos. Nunca existiu o interesse em criar um ambiente de igualdade e oportunidade para todos”.

Se o contexto histórico já reforça a desigualdade social no presente, os ajustes fiscais promovidos pelo governo federal e estadual podem agravar ainda mais esse problema no futuro. Para a jornalista, o congelamento no orçamento público que essas medidas propõem aumenta o risco de precarização em diversos setores que a população mais pobre depende. “Existe uma grande demanda da população para a melhoria dos serviços públicos, o que implicaria maior investimento, enquanto a proposta do governo é justamente limitar os gastos nesses setores. Esses ajustes, ao desprezar desigualdades estruturais na sociedade brasileira, assume um caráter desumano, prejudicando os menos favorecidos”.

*Aluno do 2° período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

De Irajá à projeção nacional

Juliana Pereira Salles*

Jornalista, apresentadora, comentarista, palestrante e mulher negra, como se identifica, Flávia Oliveira foi convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica para simular uma coletiva aos alunos da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). A entrevista aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 05 de maio de 2017, momento em que Flávia compartilhou um pouco de sua infância, além da trajetória pessoal e profissional.

Apesar de fazer parte de uma história quase padrão da mulher negra brasileira – abandono do pai, poucas oportunidades e dificuldade de inserção em determinados ambientes -, a jornalista relatou uma experiência de mobilidade social, mas reconheceu que isso representa uma parcela, ainda pequena, da população pobre.

De acordo com a entrevistada, que disse ter vindo de uma “linhagem de mulheres fortes”, o pulso firme e o apoio incondicional da mãe foram importantes para que aprendesse a valorizar a educação e começasse a trilhar seu caminho. Inicialmente, Flávia formou-se técnica em estatística na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), e depois em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Hoje é colunista do jornal O Globo, comentarista dos programas “CBN Rio” (Rádio CBN) e do “Estúdio i” (GloboNews). Recentemente estreou como apresentadora do programa “TED – Compartilhando Ideias”, que vai ao ar todas as quintas, às 23h, no Canal Futura.

Além disso, a jornalista é ativista social em questões que tangem os direitos da mulher, o racismo e os direitos humanos. É membro dos conselhos consultivos na Anistia Internacional Brasil e da ONG Uma Gota no Oceano e já ganhou prêmios como o “Jornalismo para Tolerância” (2013), da Federação Internacional de Jornalistas, pela coedição do suplemento A Cor do Brasil, sobre desigualdade racial.

A convidada narrou que durante sua jornada, apesar de ter sofrido com racismo e assédio, nunca abandonou as convicções e a identidade para se integrar ao status-quo. “Eu não cedi um milímetro”, disse. “E se eu fosse um homem branco será que minha trajetória seria diferente? Talvez. Só sei que para uma mulher negra do subúrbio de Irajá eu cheguei muito longe e não neguei quem eu sou em nome de ascensão profissional”, completou.

*Aluna do 2° período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Jornalista critica a não diversidade na mídia

Júlio Cesar Chiarelli*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu entrevista coletiva aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O encontro foi realizado na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 5 de maio. Flávia é comentarista do programa “Estúdio i” na Globo News, colunista do jornal “O Globo” e apresentadora do programa “Ted”, no Canal Futura. Durante a entrevista, Flávia exemplificou com a própria história determinadas características ainda persistentes não somente na profissão, mas na sociedade brasileira como um todo.

Nascida em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, a jornalista contou que vivia num apartamento de quarta e sala com a família. Foi abandonada pelo pai ainda criança, mas teve o suporte da mãe que, a fim de garantir os estudos e um futuro melhor para a filha, trabalhava o dia inteiro. Flávia lembrou quando um membro da família recomendou a ela prestar concurso para o posto de trocadora no metrô. Disse que se sentiu frustrada, não porque tivesse algum desrespeito pela profissão, mas sim por ter o sonho de cursar uma faculdade, e não se contentar com as barreiras sociais impostas.

Sempre estudou em instituições públicas perto de casa, mas quando passou para a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), o local era longe e passou a depender ainda mais de si mesma para realizar os sonhos. Flávia contou que nessa escola conviveu com pessoas de classes sociais mais elevadas, momento em que percebeu a fundo a desigualdade social brasileira, experiência que carrega até hoje no trabalho. Segundo a jornalista, o conhecimento estatístico adquirido na Ence foi fundamental para que tivesse destaque no âmbito do jornalismo econômico, porque tinha facilidade em trabalhar com números e analisar estatísticas.

Flávia disse que na primeira tentativa de ingresso numa universidade de jornalismo, passou para a Gama Filho, mas como não podia bancá-la, tentou mais um ano. Nesse período, relembra que teve novamente o apoio da mãe, que ao contrário do que acontece normalmente mandar os jovens arranjarem emprego para auxiliar nas despesas da casa, deu a ela mais uma chance. A confiança na filha deu certo e, na segunda tentativa, Flávia passou para a Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo a jornalista, essa foi uma experiência única, pois pela primeira vez sentiu-se valorizada pelas qualidades que apresentava, e não pela cor de pele ou camada social.

Sobre o trabalho, Flávia criticou a falta de diversidade no jornalismo e se disse incomodada com a pequena quantidade de pessoas negras escaladas para tratarem de assuntos como moda, política ou economia. Falou de racismo e relatou uma experiência pessoal de quando lhe pediram para alisar o cabelo quando fosse aparecer na televisão. Disse que rejeitou o pedido, num ato de defesa à identidade. Encerrou a entrevista com a convicção não só profissional, mas também da vida, de sempre defender os ideais e não aceitar imposições unilaterais, principalmente, preconceituosas.

*Aluno do 2º período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Desigualdade no Acesso à Educação

A jornalista Flávia Oliveira conta como o acesso à educação no Brasil
ainda é assimétrico e privilégio para poucos

Larissa Infante*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu entrevista coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO), na Central de Produção de Multimídia (CPM). O encontro ocorreu dia 5 de maio e, dentre os temas abordados, a desigualdade no acesso à educação, especialmente nos bairros mais afastados e carentes do Rio de Janeiro, foi assunto recorrente. A jornalista disse ter, ela própria, enfrentado essa realidade e conhecer bem os desafios impostos aos jovens economicamente desfavorecidos para obter uma formação de qualidade.

Flávia formou-se em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e ingressou no setor de economia a partir do Jornal do Commércio. Atualmente é colunista do jornal O Globo, comentarista econômica da rádio CBN Rio, comentarista do telejornal Estúdio I, da Globo News e apresentadora do programa Ted: Compartilhando Ideias, do Canal Futura. A jornalista também é conselheira do Instituto Coca Cola, membro dos conselhos consultivos da Anistia Internacional Brasil e da ONG Uma Gota no Oceano, além de ativista negra e feminista.

Flávia nasceu em Irajá, subúrbio carioca, e contou que a mãe saía muito cedo para trabalhar, situação comum enfrentada por moradores de bairros onde há escassez de recursos. Mas disse que isso não é tudo. Ressaltou ser justamente nesses lugares onde se formam redes de solidariedade, nas quais pessoas se ajudam mutuamente. “Ainda que o subúrbio seja visto como um território de ausência, há muitas coisas lá, como a sororidade, a solidariedade e a ajuda mútua. Mas quem olha de cima, só vê carência”. Segundo a jornalista, outra situação corriqueira é o abandono dos jovens por parte dos pais. Sem opção, os adolescentes são obrigados a deixar os estudos para cuidar dos irmãos ou para trabalhar e ajudar em casa.

Flávia relatou que, apesar de ter passado pela situação de abandono por parte do pai, teve mais sorte. A diferença, disse, foi o fato de ser filha única e de sempre ter sido muito estimulada pela mãe a continuar estudando. Com isso, conseguiu fazer o ensino médio na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), onde passou a conviver com pessoas de classe média. Contou que teve a oportunidade de conhecer outras perspectivas do mundo acadêmico e de experimentar um ensino de qualidade. Para Flávia, a falta de oportunidade é um sério problema. “Não há como conhecer um futuro diferente sem saber das oportunidades existentes e dos limites onde se pode chegar.”

De acordo com a entrevistada, o Brasil está entre os 10 maiores PIB’s do mundo, mas mesmo assim encontra-se em uma das últimas posições em desenvolvimento humano. Isso demonstra uma brutal desigualdade de acesso, especialmente entre bairros ricos e subúrbios das grandes cidades. Flávia concluiu a entrevista dizendo que muito ainda precisa ser feito para que haja igualdade no acesso à educação. Para ela, as redes sociais podem ser um dos modos de fazer ouvir a voz de pessoas socialmente excluídas. E demonstrou esperança nas novas gerações, em uma juventude para a qual o país será entregue nos próximos anos.

* Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Jornalista relata vivência com o racismo

Marcos Vinícius Lisboa da Silva*

A jornalista Flávia Oliveira foi convidada pelo Laboratório de Comunicação Critica da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO) para falar aos alunos do ciclo básico. O encontro aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 5 de maio, momento em que a jornalista contou um pouco da história pessoal, da trajetória de 25 anos de profissão e da experiência enquanto mulher negra.

Jornalista, mãe, esposa, filha de Yemanjá, ativista, mulher e negra, Flávia nasceu em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro. Contou que foi criada pela mãe divorciada, com poucos recursos, e estudou em instituições públicas, como a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), onde formou-se em jornalismo. Começou a trabalhar como repórter no Jornal do Commercio em 1992 e ingressou no jornal O Globo em 1994. Atualmente, Flávia escreve uma coluna em O Globo e comenta sobre economia no Estúdio i da Globo News.

Ainda na época do vestibular, Flávia afirmou que esbarrou com o racismo. “Jornalismo é carreira para moças ricas e bonitas”, ouviu do vizinho ao contar que gostaria de fazer faculdade. Não era a primeira nem seria a última vez que a jornalista enfrentaria o racismo e discriminações raciais em sua atividade profissional. “Não sou convidada para as festas da empresa”, disse. Questionada se em algum momento havia sido censurada por questões de diferenças ideológicas, declarou: “Nunca, diretamente. Mas agora na minha coluna tenho muito mais liberdade. Posso falar o que eu quiser. Minha coluna é o meu quilombo.”

A especialista em economia também falou sobre os estereótipos impostos às pessoas negras pela mídia. Segundo ela, os negros são sempre tratados da mesma forma, como sujeitos-problema ou à margem da sociedade: “Nunca entrevistam um doutor em direito penal negro, por exemplo. Isso é resultado de uma má formação dos repórteres”, criticou. Flávia declarou que também sofre com a estereotipização. “Nunca perguntam qual minha loja de sapatos favorita”, comentou sobre as entrevistas que concede. A jornalista ressaltou também a importância da representatividade para as minorias: “O espaço que eu ocupo é relevante para as pessoas que eu represento”, concluiu.

Com mais tempo livre atualmente, Flávia se dedica a novos projetos: é membro dos conselhos consultivos na Anistia Internacional Brasil e da ONG Uma Gota no Oceano e apresentadora da segunda temporada do TED Compartilhando Ideias no canal Futura.

* Aluno do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Quando o cotidiano ganha voz

Marília Garcia*

Em coletiva de imprensa, simulada na Central de Produção Multimídia (CPM) para os alunos da Escola de Comunicação (ECO/ UFRJ), sexta-feira, 5 de maio, a jornalista Flávia Oliveira contou um pouco sobre a trajetória de vida pessoal e profissional. Como uma mulher negra, de 47 anos, criada na Zona Norte do Rio de Janeiro, Flávia disse fazer parte de uma “linhagem” feminina comprometida, desde o início, com a sobrevivência em sociedade. Criada até os oito anos pelos pais em um conjunto habitacional no Irajá, participou de um ambiente familiar que por muito tempo mostrou-se conturbado.

Contou que a mãe, uma mulher negra, nascida no recôncavo baiano, era a principal provedora da casa e sempre pareceu emocionalmente distante. As responsabilidades e a dupla jornada da mãe viriam a reforçar a cobrança e as dificuldades que fariam parte da vida de ambas. A entrevistada contou também que a mãe era obcecada por educação e muito exigente em relação aos estudos.

Disse que estudou durante toda a vida em escolas públicas e, posteriormente no ensino médio, fez o curso técnico em estatísticas na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), instituição federal. Afirmou que a convivência com os amigos de classe média foi essencial para abrir horizontes de possibilidades. "A falta de oportunidade é uma coisa muito séria (…) você não sabe do que é capaz”.

Hoje, ativista ligada a diversas questões sociais, Flávia acredita que simboliza uma vitória para muitos grupos. Enxerga sua trajetória como a de muitas outras mulheres negras pelo Brasil, que tiveram mães igualmente abandonadas e obrigadas a criarem os filhos de maneira rígida, devido às dificuldades. Apesar de cotidianas, Flávia relembra que essas histórias raramente ganham voz e diante disso, enxerga-se como exceção.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/ UFRJ.

“O horizonte que te oferecem é muito estreito. Não é miragem. É muro”

Roanna Azevedo*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu a primeira entrevista coletiva para os estudantes do Laboratório de Comunicação Crítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Colunista de temas sociais no jornal O Globo e comentarista de economia do programa “Estúdio i”, da Globo News, Flávia explicou aos alunos como a realidade social e econômica em que está inserida impactaram sua trajetória profissional. O encontro aconteceu na sala de editoração da Central de Produção Multimídia (CPM) da Escola de Comunicação da UFRJ, dia 5 de maio de 2017.

Cria de instituições públicas de ensino, a jornalista relembrou a defasagem educacional a que estão submetidos alunos periféricos. Disse ter sido somente na Escola Nacional e Ciências Estatísticas (Ence), onde concluiu o ensino médio, que adquiriu o gosto pela economia e teve contato com pessoas de outras classes sociais. Segundo a entrevistada, esse convívio impulsionou seu desejo por fazer um curso superior, o que a fez ingressar na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Flávia contou que sua história se assemelha a de outras mulheres negras brasileiras, também criadas sem referência masculina, tendo na figura da mãe a principal fonte de segurança, nutrição, investimento e “quando sobra tempo, afeto”. Mas, como destacou a jornalista, o que diferenciou sua história dos arranjos familiares das demais foi a conquista da mobilidade social, estimulada pelo fato de ser filha única e pela obsessão da mãe por educação.

“Quando você está na periferia, num país que é extremamente desigual e desinteressado no potencial das pessoas, você não sabe [do que é capaz]”, comentou Flávia, natural de Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, sobre a escassez de oportunidades dos estudantes de classes mais pobres. “Várias amigas da minha mãe me mandavam folhetos de concursos para ser bilheteira do metrô. O horizonte que te oferecem é muito estreito. Não é miragem. É muro”. Questionada sobre as relações raciais no país, a jornalista constatou que o extermínio de jovens negros é a mais grave crise nacional. Para ela, a sociedade brasileira é profundamente racista e desigual, o que provoca um estreitamento das perspectivas de melhoria de vida da população negra.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Flávia Oliveira passa do subúrbio carioca ao jornalismo econômico

*Vitor Grama Oswaldino

A jornalista e comentarista Flávia Oliveira concedeu entrevista coletiva aos alunos da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ) na  sexta-feira, 5 de maio. Flávia começou a entrevista falando sobre vida pessoal e a trajetória como jornalista, contando desde o relacionamento com o pai até as dificuldades enquanto jornalista negra. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e técnica em Estatística pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), Flávia compartilhou vivências com os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica.

A convidada afirmou que considera a própria história banal e corriqueira. Explicou que foi criada pela mãe, sem referências masculinas, algo que para ela, representa a realidade brasileira. Segundo a jornalista, a diferença da sua história com relação às demais famílias brasileiras da periferia foi o arranjo familiar. Disse ser filha única e por isso não precisou criar nenhum irmão, possibilitando a continuação dos estudos.

O ingresso na Ence, escola federal vinculada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de acordo com a jornalista, possibilitou interações sociais com pessoas de maior poder aquisitivo, o que a incentivou a cursar uma universidade pública federal. Conhecida por ser comentarista de economia, Flávia atribui a estatística o conhecimento econômico.

Contou que a decisão de tornar-se jornalista aconteceu por acidente. Certa vez uma amiga ficou impressionada com seu conhecimento e a aconselhou a ser jornalista. Decidiu prestar vestibular e na segunda tentativa ingressou na Universidade Federal Fluminense (UFF). Depois de passar por assessoria de imprensa, foi trabalhar no Jornal do Commércio, onde ficou por dois anos.

Flávia começou no Jornal O Globo em 1994 como repórter, e contou que a primeira matéria foi sobre a entrega do imposto de renda, o que a fez se apaixonar por macroeconomia. Na televisão desde 2008, trabalhou no Estúdio i, da Globo News, programa no qual está até hoje. Entrou na CBN e escreve uma vez por semana no Jornal O Globo. A entrevistada se considera uma ativista em questões sobre femininos, racismo e pobreza, tendo a militância sustentada através do jornalismo.

Flávia declarou que ministra palestras no setor privado sobre tendências macroeconômicas e sobre questões raciais, sobretudo em maio e novembro, devido à abolição da escravidão e o Dia da Consciência Negra. A jornalista afirmou que é aprisionada nos debates em questões raciais em certos calendários, porém, para ela, qualquer espaço de fala vale a pena. Ao responder perguntas dos estudantes, a jornalista comentou sobre a questão da desigualdade no Rio de Janeiro e como a população negra é dizimada. Ao ser indagada sobre as barreiras de trabalhar no Jornal O Globo, a jornalista foi clara: “Minha coluna é o meu quilombo, eu que decido o que vou falar”.

*Aluno do 2º período do Curso de Comunicação Social (ECO/UFRJ)

Representatividade na mídia e justiça social

Sarah Ferragoni*

A importância e o contexto atual da representatividade de grupos minoritários na mídia foi o principal assunto tratado pela jornalista Flávia Oliveira, durante entrevista coletiva na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). A comentarista de economia do programa “Estúdio i” do GloboNews se reuniu com os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica no dia 5 de maio de 2017 na Central de Produção Multimídia (CPM).

Flávia, graduada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e colunista do jornal O Globo, apontou o problema de invisibilidade da população negra na mídia.”Nós somos sub-representados e, pior, estereotipados no noticiário”, disse a jornalista, sobre a maneira como os negros são retratados na imprensa.”As representações não dão conta do patamar que um número significativo de negros atingiu na sociedade brasileira”.

A comentarista mencionou o quão problemático é o fato de a representatividade não ser buscada pelos próprios jornalistas. “A gente não tem formação que valorize a diversidade”, disse, ao fazer referência ao preparo dos profissionais de comunicação. Flávia destacou que a visão estereotipada é reforçada em noticiários quando negros são chamados, por exemplo, apenas para discutir sobre questões raciais.

A jornalista ressaltou, também, uma questão que classificou como sendo “a mais grave crise brasileira”, o extermínio de jovens negros nas comunidades. Essa pauta relaciona-se com a sub-representatividade na medida em que, segundo a entrevistada, as perspectivas de vida desses menores marginalizados são estreitadas pela falta de empatia e pelo racismo institucional, reforçados pelos próprios meios de comunicação.

“Para romper com isso a gente precisava de um pacto de redução de homicídios”, disse a comentarista sobre a situação desses meninos nas favelas. A entrevistada acrescentou a necessidade da construção de uma cultura de empatia na sociedade brasileira que, hoje, caminha em sentido contrário, invisibilizando os jovens negros.

Por fim, como mulher negra e inserida na grande mídia, Flávia relatou seus sentimentos ao se perceber como representante de muitas outras mulheres. “Eu não tenho o direito de abrir mão de nada que eu tenha conquistado. O espaço que ocupo hoje é relevante para alguém que virá depois” finalizou.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

“O extermínio da população negra é a maior crise brasileira”

Ericka Lourenço*

“Eu não sou eu, na verdade, sou a história das diversas mulheres negras que foram trazidas à força, escravizadas e sobreviveram. Eu não tenho o direito de abrir mão de nada que eu tenha conquistado, o espaço que ocupo hoje terá importância para a geração que vem a seguir”. A afirmação é da jornalista Flávia Oliveira, sobre a questão da representatividade negra na mídia brasileira. O tema foi abordado durante entrevista coletiva, concedida aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da ECO/UFRJ, na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 5 de Maio.

Flávia é colunista do jornal “O Globo” e comentarista do telejornal “Estúdio i” da GloboNews. Criada na periferia do Rio (RJ), bairro de Irajá, disse fazer parte de uma “linhagem de mulheres fortes” e independentes. Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense, a jornalista afirmou nunca ter negado a sua raça e crença em nome de ascensão profissional. Apontou falta de diversidade nas redações a respeito das questões de gênero e, principalmente, das questões raciais.

Para Flávia, não é novidade que a representação das pessoas negras na mídia se dá de forma estigmatizada. Disse que pautas envolvendo esse grupo social na maioria das vezes é associada à situações de pobreza, carência, violência ou racismo. Segundo a jornalista, essa invisibilidade midiática não dá conta do patamar que a população negra já atingiu na sociedade brasileira. Acrescentou que muito dessa falta de representatividade tem a ver com a má formação educacional dos jornalistas nos ambientes universitários. De acordo com Flávia, o extermínio da população negra é a maior crise brasileira e a canção”A carne”, de Elza Soares, ainda é tristemente verdadeira.

A jornalista, que se define como ativista da construção de igualdade tem o desejo de acompanhar ainda mais a juventude brasileira e refletir na formação da nova geração. Também acredita que a solução para a ausente cultura de empatia social esteja na possibilidade de interseções das agendas dos movimentos sociais brasileiros, setor ainda muito segmentado hoje.

* Aluna do 3ª período do Curso de Comunicação Social da ECO UFRJ

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Raça e direitos humanos foram temas abordados em coletiva

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Trabalhar com direitos humanos sempre foi um desafio para a jornalista e mestre, Raika Julie Moises, assim como o tema raça que perpassa toda a trajetória da pesquisadora. Esse foi o enfoque da primeira simulação de entrevista coletiva para alunos do 3º período do curso de Comunicação Social da UFRJ (ECO). Com experiência em instituições como Observatório de Favelas, Anistia Internacional, ambas no Rio, e OEA (Organização dos Estados Americanos), em Montevidéu, Raika chamou a atenção dos alunos, curiosos sobre os diversos caminhos abertos para o campo da comunicação.

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Monopólio impõe linha editorial única como verdade

Segunda simulação de entrevista coletiva do Laboratório de Comunicação Crítica traz o jornalista e radialista Jota Carlos com sua larga experiência de cerca de 40 anos de profissão. Uma das falas mais contundentes do convidado foi a crítica ao monopólio dos meios de comunicação, que reduz a linha editorial dos jornais ao pensamento único, voltado para o mercado. O Laboratório de Comunicação Crítica é uma atividade do LECC, ministrado pela professora Zilda Martins, e tem por objetivo aproximar os alunos da realidade da profissão de jornalista, nas vertentes comunicação comunitária, mercado e pesquisa.

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Jota Carlos – Coletiva de imprensa

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Jornalista denuncia manipulação de notícias sobre favela e desperta interesse de alunos.

A primeira simulação de entrevista coletiva promovida pelo Laboratório de Comunicação Crítica da ECO/UFRJ trouxe a jornalista Renata Souza. Também doutoranda da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), Renata chamou atenção dos alunos pelas críticas à mídia hegemônica e pela experiência como líder comunitária nas favelas do Complexo da Maré, onde mora. Até o final do semestre, os alunos vão participar de mais duas coletivas a convite da professora do laboratório, Zilda Martins.

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Jornalista fala sobre trajetória pessoal na favela e na política

Isabela Izidro*

Em coletiva de imprensa concedida aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), a jornalista Renata Souza falou sobre sua vida profissional e pessoal. Nos relatos, destacou as experiências na área de Jornalismo e a atual atividade de Assessora de Comunicação do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). A entrevistada também é publicitária, graduada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), mestre e doutoranda em Comunicação e Cultura da ECO.

Renata é moradora do Complexo da Maré, conjunto de favelas, onde nasceu, cresceu e se profissionalizou. Iniciou a carreira como jornalista escrevendo para o jornal O Cidadão da Maré, um projeto desenvolvido no próprio Complexo e que tem como objetivo retratar os principais acontecimentos da vida dos moradores.

Sem abrir mão de seus próprios princípios e convicções, Renata viu na profissão de jornalista a chance de informar pessoas e contar a verdade. “Antes de ler mais a respeito, via como uma profissão de mentirosos. Hoje enxergo por uma óptica bem diferente. O que as pessoas fazem do Jornalismo não é necessariamente o que o Jornalismo é em sua essência. Um dos motivos que me trouxeram a essa profissão é justamente combater esse Jornalismo às avessas que engana e manipula ao invés de informar”, contou.

Segundo a jornalista, foi com esse raciocínio que acabou entrando para a política. “Conheci Marcelo Freixo em um debate e acabamos nos tornando colegas de trabalho e também amigos”. Renata, que no início se opôs à candidatura de Freixo a deputado estadual, acabou percebendo que a política configurava-se como o Jornalismo. “Em uma de minhas conversas com Freixo, acabei notando que aquele cenário, por mais corrompido e sujo que estivesse, era a melhor maneira que eu encontraria de buscar mudanças significativas em meu país”, afirmou a jornalista.

Renata, que ainda tem inúmeros projetos em mente, cursou parte de seu doutorado em Barcelona e pretende focar na carreira de educadora. “Não tenho intenções de entrar de cabeça na política, mas acho importante apoiar pessoas cujos projetos eu acredito. Meu maior objetivo de vida agora é trabalhar como educadora, ensinar pessoas, quero investir nisso.”

Mulher, negra e de origem humilde, Renata contou ter sofrido todo tipo de preconceito e discriminação no decorrer de sua vida, tanto na Universidade em que se graduou quanto em outros espaços sociais, mas “isso nunca me parou, era mais uma motivação”, garantiu.

Ao abordar as dificuldades que enfrentou até então, Renata falou das barreiras que a mulher ainda enfrenta ao chegar ao mercado de trabalho e frisou a importância do sexo feminino para a sociedade. “A mulher tem capacidade. Precisa apenas de espaço, porque quando o tem, sabe melhor do que ninguém como usá-lo para fazer a diferença”.

A jornalista, que se mostrou extremamente cortês e atenciosa, marcou presença durante entrevista ao desenvolver respostas longas e detalhadas. “Acho que eu falo muito”, afirmou, Renata, entre risos.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Partidos de esquerda são incoerentes quanto ao protagonismo feminino

Sarah Andrade*

Em entrevista à turma do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ), a jornalista Renata Souza falou sobre as dificuldades de concessão de cargos políticos a mulheres. Apontou principalmente aquelas incluídas na categoria de minoria negra, com origem periférica (ou “da favela”, como a própria orgulhosamente afirma). Renata também é doutoranda em Comunicação e Cultura pela ECO e atual assessora de comunicação do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL).

Ao ser questionada a respeito do protagonismo feminino na política, considerado ainda escasso na sociedade brasileira “machista e patriarcal”, Renata afirmou que há dificuldades em estabelecer voz também nos partidos de esquerda. Observou que mulheres são usadas como mediadoras em discussões, na maioria das vezes, anulando seu poder de opinar ou interferir nas decisões do grupo que tem na totalidade homens. De acordo com a jornalista, à mulher ainda é oferecido papel coadjuvante, mesmo que as academias ou movimentos sociais sejam ‘comandados’ por elas; mesmo sendo elas as responsáveis pelas revoluções. Renata acrescentou que as mulheres seguem persistindo nessa caminhada, sem oficialmente terem o reconhecimento da atuação no papel principal.

A jornalista explicou que uma das maiores lutas enfrentadas pelo público feminino é o simbólico. Esclareceu que símbolos foram previamente construídos na mentalidade social, estabelecendo as condições em que a mulher precisa viver para ser “mulher”. Disse que o foco da política pública não está nos direitos das mulheres e por isso é preciso haver ações mais radicais para desconstruir esse conceito de relação de poder. A ideia é mudar o foco, trocando os papéis entre homens e mulheres, para que eles façam o trabalho doméstico, cuidem dos filhos e do lar, trabalhem e mantenham-se “apresentáveis à sociedade”. Acrescentou que essa experiência resultaria em maior consciência à realidade de muitas mulheres, que são obrigadas a realizarem tais tarefas, sozinhas, todos os dias. O principal alvo disso tudo, para Renata, é a valorização da mulher paralelamente ao homem, com funções igualmente compartilhadas e distribuídas.

Na visão de Renata, ainda que os indivíduos sejam seres difíceis, com ideias e ideais divergentes entre si, e a luta igualitária seja grande – não só do público feminino, como de toda a sociedade, principalmente das minorias -, é necessário transpor essas barreiras, reinventar-se sempre, a fim de batalhar por uma sociedade mais justa e homogênea. Concluiu que, embora a resistência seja grande e o combate modesto, o que importa é a luta incessante, focada na disseminação do pensamento de direito e igualdade que protagonize a todos, independentemente dos seus partidos ou grupos.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

“É preciso reinventar o jornalismo”, afirma pesquisadora

Ix Chel de Carvalho*

Doutoranda e mestre em Comunicação e Cultura, a jornalista Renata Souza participou de simulação de coletiva na Central de Produção Multimídia (CPM/UFRJ). A entrevista foi concedida a alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), na sexta-feira 10 de junho. Renata, que também é publicitária e assessora de comunicação do estadual Marcelo Freixo (PSOL), enfatizou o papel do jornalismo nas relações sociais e a necessidade de uma revolução no fazer jornalístico.

A entrevistada, logo no início da coletiva, revelou: “quando eu era adolescente, odiava os jornalistas. Não acreditava neles, eles mentiam, distorciam a realidade”. Ao longo do relato, disse que uma psicóloga pediu-lhe que pesquisasse melhor sobre a profissão, dada a sua revolta com o tema. “Quando me vi obrigada a pesquisar sobre algo que odiava tanto, pensei que só reforçaria minha opinião. Mas me surpreendi: me apaixonei pela profissão e decidi que seria jornalista”, revelou.

Ao abordar a necessidade de um jornalismo ético e honesto, Renata se dirigiu aos estudantes de comunicação, e desmistificou a ideia de que o jornalismo tem de ser “neutro”. “Não existe neutralidade no jornalismo. Neutralidade é uma mentira inventada para vender jornal. O que devemos procurar enquanto jornalistas é o equilíbrio, para que possamos possibilitar ao nosso leitor a produção da opinião dele por si através das informações que oferecemos”, esclareceu.

No bate papo descontraído com os estudantes, a jornalista abordou outros temas como o a importância das redes sociais para campanhas políticas atualmente, a visão das favelas pela grande mídia, e a crescente necessidade do local de fala das mulheres na sociedade. Renata trabalhou por 12 anos no jornal comunitário O Cidadão, situado no Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, e revelou as dificuldades enfrentadas pelo jornalismo comunitário. Disse que o trabalho no jornal cria uma relação com o lugar e com as pessoas de forma desafiadora. “Fazer notícia num lugar que é notícia é desafiador. Mas você vai criando uma relação de confiança com os moradores – e eu também sou moradora da Maré”, contou.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Renata Souza: jornalismo comunitário é sentido na pele

“Neutralidade é uma mentira que se vendeu para se vender jornal.”

Carolina Ana*

A doutoranda da Escola de Comunicação (ECO-UFRJ), Renata Souza, especialista em Comunicação Comunitária, concedeu entrevista aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da ECO, na sexta-feira, 10 de junho. Na coletiva, abordou temas como jornalismo, cultura, política, desmilitarização da polícia e solidariedade na favela. Moradora da Maré, Renata dedicou-se ao jornalismo social, atuando por 12 anos no jornal O Cidadão de sua comunidade, além de trabalhar com o deputado estadual, Marcelo Freixo (PSOL), amigo de longa data.

Exerce, atualmente, a função de coordenadora geral de comunicação de Freixo e busca conciliar as atividades com as pesquisas do doutorado que faz na ECO/UFRJ. A entrevistada fez críticas contundentes aos monopólios comunicacionais, a distorção dos acontecimentos na favela da Maré pela mídia hegemônica e ao espaço, ou sua ausência, destinado à mulher negra no mercado e na academia.

Ao ser questionada sobre o jornalismo atual, a doutoranda afirmou que o mesmo está em crise e que os estudantes de comunicação devem reinventá-lo, buscando a renovação na confiança da ética jornalística. Reconheceu que é necessária a democratização da comunicação, para furar os monopólios e alcançar uma comunicação diversificada, inclusiva. Renata reconhece a importância das redes sociais, mas questionou a relação do jornalista com os novos meios de comunicação. Disse que o profissional deve utilizar as redes como ferramentas que auxiliem no seu trabalho. “É importante que o jornalista esteja sempre atualizado e atento às novas tecnologias”. O repensar do jornalista e do jornalismo deve agregar as modernizações.

De acordo com a jornalista, o processo histórico mostra que sempre após uma crise vem algum tipo de transformação, seja nas pessoas ou no próprio sistema. A doutoranda defende o diálogo e o planejamento de uma comunicação honesta, não sensacionalista, que respeite os leitores e todos os tipos de cidadãos. Acrescentou que esse ideal de atuação deve ser repensado pelos estudantes de comunicação.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Jornalista comunitária quebra imagem distorcida da favela

Fabiano da Silveira*

Em simulação de coletiva, a doutoranda Renata Souza explicou a diferença entre jornalismo comercial e comunitário. A entrevista foi concedida a alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), sexta-feira, 10 de junho. Jornalista e publicitaria pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), Renata esclareceu a posição do jornal comunitário e suas ideologias, diferentes do tradicional, visto que oferece mais espaço ao morador da favela, figura esquecida e distorcida pela grande mídia.

A jornalista trabalhou por 12 anos no Jornal Comunitário O Cidadão do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Na coletiva, acusou a mídia comercial de não se preocupar com os moradores da favela. Explicou que, ao contrário, o jornal comunitário sempre foi voltado para o público da Maré e comprometido com o pensamento dos habitantes do complexo. Segundo Renata, enquanto muitas matérias alteravam os acontecimentos e a própria imagem da favela, O Cidadão mostrava-se fiel à realidade local.

Acrescentou que a preocupação do jornal era transmitir os assuntos que importavam à população do complexo, de maneira ética e equilibrada. Para Renata, o discurso propagado pela mídia descreve a favela como um espaço inferior a todos os outros, submetido ao tráfico de drogas, à violência e as péssimas condições de vida. Segundo a jornalista, esse discurso moldou o preconceito na cabeça dos leitores com relação à comunidade, sendo que muitos nunca esteviveram em uma favela. Isso contribuiu para criar uma imagem completamente diferente da realidade, acrescentou a publicitária, que atualmente trabalha como assessora de comunicação do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL).

 Outro ponto citado por Renata foi a criminalização da vítima por parte do jornalismo comercial, maneira de construir os supostos inimigos, contribuindo para criar uma imagem negativa dos moradores do complexo. Acrescentou que a distorção da história recai sobre pessoas inocentes, que acabam levando a culpa pela violência a que são submetidas.

A jornalista também discutiu sobre a questão monetária. Disse que enquanto o jornalismo comercial buscava o lucro, o comunitário não se preocupava com isso. Explicou que no caso do jornal O Cidadão, a distribuição era feita gratuitamente para pessoas e grupos específicos, de modo a atingir o máximo de pessoas possíveis.

Questionada sobre como faziam para se manter, Renata esclareceu que os profissionais geravam capital por meio de um patrocínio da Petrobras e dos anúncios no periódico. Disse que os anúncios eram diferentes da mídia comercial, porque nem todos os produtos poderiam estar atrelados ao jornal da Maré. Eles deveriam estar vinculados ao conteúdo da revista e não romper com seus princípios, concluiu Renata, reforçando o caráter político social desse tipo de jornalismo.

* Aluno do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Doutoranda diz que jornalismo comunitário liberta

Gabriela Morgado*

“A neutralidade é uma mentira que se criou para vender jornal.” A frase é da jornalista Renata Souza, também publicitária e assessora de comunicação do deputado estadual e pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo. Ela participou da primeira simulação de entrevista coletiva para alunos da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), realizada na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 10 de junho. Renata, que também é doutoranda em Comunicação pela ECO, falou sobre a mídia no Brasil e as novas formas de se fazer jornalismo.

Na opinião da jornalista, não há neutralidade quando se trata de mídia. Afirmou que a neutralidade é uma desculpa dos meios de comunicação para que possam se vender como verdadeiros. “Não existe isso, o que pode e deve existir é o equilíbrio entre a posição da mídia e a elaboração da notícia.” No entanto, disse, não é o que acontece, por exemplo, quando a pauta são as favelas. Para Renata, que nasceu na favela da Maré, no Rio, a grande mídia retrata as comunidades de forma distorcida, somente como lugares de tráfico, violência e pobreza.

A entrevistada explicou que as operações policiais nesses locais são constantemente representadas sob uma lógica de guerra, mais especificamente de guerra às drogas, o que legitima as contínuas mortes de moradores: “O massacre na favela é visto como competência. O policial que mata ganha mais para isso”, acrescentou. Disse ainda que a consequência é uma visão dicotômica de culpa sobre quem vende ou quem consome as drogas. Na verdade, ponderou, a culpa é da nossa estrutura social criminalizante e de um sistema econômico que precisa fazer guerra, não importa de que tipo, para se manter.

Durante 12 anos, Renata trabalhou no jornal comunitário da Maré O Cidadão, e o considerava o “assessor de imprensa” da comunidade. Segundo a entrevistada, os pensamentos e as ideias dos moradores, que não são mostrados pela mídia predominante, percorrem um caminho duplo, que vai até o jornal e, ao mesmo tempo, passa dos redatores até eles, e deles para fora da favela. A jornalista considera ser por isso que a comunicação comunitária é tão importante, por expressar a voz de quem, geralmente, não tem espaço em outros meios. No entanto, Renata ressaltou as dificuldades em se manter esse tipo de meio.

“Tínhamos um patrocínio pequeno da Petrobras. As pessoas lá de dentro [do jornal] nunca ganharam nada. Se manter sempre foi muito difícil.” A jornalista explicou que o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), criador do jornal, rachou em duas outras ONGs. “Pra se manter, a gente tinha anúncio. O número de páginas destinadas à publicidade não mudava. Os anunciantes eram escolhidos pensando em todos e na responsabilidade que a gente tinha sobre eles.”

A entrevistada falou ainda da importância alternativa das redes sociais. Segundo Renata, com a internet, não há mais como justificar um jornalismo mal feito, culpando as fontes, o editor etc. Tudo que é duvidoso ou vai contra os pensamentos de alguém é posto em xeque pelos próprios leitores. Dessa forma, é preciso reinventar o jornalismo. “Temos que começar a mudar o discurso em casa, tentar fazer a leitura crítica. Procurar outros meios de se informar, a informação liberta”, concluiu.

*Aluna do 2º período do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ

“É preciso reinventar o jornalismo”, afirma pesquisadora

Julio Cesar Lyra*

A jornalista Renata Souza concedeu entrevista coletiva a alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ). Mestre e doutoranda em Comunicação da ECO, a entrevistada exerce atualmente a atividade de assessora de comunicação do deputado estadual Marcelo Freixo. Renata frequentou entre 2003 e 2009 a Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), onde fez também o curso de publicidade. O encontro foi realizado na sexta-feira, 10 de junho, na Central de Produção Multimídia (CPM).

Renata é moradora do Complexo da Maré, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro. Contou que durante o tempo de graduação notava olhares de desprezo pelos colegas de sala. Disse que ela era a única negra e moradora de favela da turma e que via esse comportamento como uma marca elitista da instituição. Segundo a entrevistada, ao chegar naquele ambiente já tinha sua identidade muito definida. Além de raízes fincadas no seu local de origem, que faz questão de chamar de favela e não de comunidade, Renata já trabalhava com Comunicação Comunitária na Maré, atuando no Jornal O Cidadão, onde exercia as atividades durante 12 anos.

Na opinião da jornalista, a questão do espaço majoritariamente branco e de classe média não se limita ao meio universitário. Ressaltou que existe uma elitização também nas redações, basicamente uma extensão da academia, marcada pela falta de representatividade, que resulta na imagem estereotipada do negro e periférico nos noticiários dos jornais de grande veiculação. Afirmou que a “grande mídia” caminha de acordo com os interesses e ideologias de quem a produz.

A mestre disse esperar que os novos profissionais e graduandos da área de comunicação, principalmente os negros, façam do jornalismo um instrumento de inclusão do povo para o povo. De acordo com a entrevistada, é evidente a necessidade de uma reinvenção do jornalismo, uma inovação urgente, para quebrar a elitização das redações. Renata denuncia a inversão de valores, presentes na grande mídia, alegando que esta transformou o que deveria estar a serviço do povo em um mecanismo de transmissão da ideologia dominante.

* Aluno do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Jornalista ressalta importância das redes sociais para campanha política

Kariny Leal*

Jornalista e publicitária, Renata Souza concedeu entrevista coletiva aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), na última sexta-feira, 10 de junho. Também doutoranda da ECO, Renata falou de sua trajetória pessoal, da experiência no jornal comunitário O Cidadão, do complexo de favelas da Maré, e do cargo atual de assessora de comunicação do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL).

Renata, que foi responsável pela campanha de candidatura de Freixo a deputado estadual do Rio de Janeiro em 2014, depositou às redes sociais o mérito de sua última eleição. “Nas redes, nós temos a possibilidade de diálogo e, por isso, podemos esclarecer nosso posicionamento, que muitas vezes é deturpado pela grande mídia de massa”, disse a assessora, acrescentando que naquele ano, Freixo foi o deputado estadual mais votado do Brasil.

Segundo a jornalista, para a campanha à prefeitura do Rio de Janeiro em 2016, a estratégia não será diferente. Renata observou que eles terão pouco menos de 50 segundos de propaganda eleitoral na televisão e o foco da campanha se dará pelo Facebook e Twitter do candidato. Disse que Freixo não pretende fazer coligações este ano, logo vai depender ainda mais dessas formas alternativas de divulgação.

Com toda essa busca por transparência e diálogo com o público, Renata relembrou seu caminho até aqui. Para ela, o jornal O Cidadão, periódico comunitário da favela da Maré no Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar, marca sua carreira até os dias atuais. De acordo com a entrevistada, foi nesse veículo que aprendeu sobre a importância de uma comunicação simples e capaz de atingir a todos.

A jornalista acrescentou que nos 12 anos de atividades no jornal comunitário, defendeu os direitos humanos e sempre esteve à busca de assuntos que os moradores da favela da Maré se sentissem identificados. Renata concluiu dizendo não acreditar em jornalismo imparcial e que sua posição contra a mídia hegemônica foi o principal motivo de permanência no jornal O Cidadão por tantos anos.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Protagonismo do povo é um novo jeito de fazer política

Marcella Falcão*

O tráfico de drogas é tão opressor quanto a polícia”. Essa foi a primeira das inúmeras declarações que deu a jornalista Renata Souza, numa conversa com os estudantes de jornalismo da UFRJ, inscritos na disciplina de Comunicação Crítica. “Moradora da favela sim”, fez questão de ressaltar, como também a posição de ativista pelos direitos e contra a opressão dos moradores das favelas, mas nunca se vitimizando. Renata é formada em Jornalismo, Publicidade e Propaganda pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), Mestre em Comunicação pela Escola de Comunicação Social (ECO-UFRJ) e doutoranda em Comunicação e Cultura da mesma instituição.

A jornalista começou a conversa a partir da própria trajetória de vida. Falou dos 12 anos de trabalho no Jornal O Cidadão, do Complexo de Favelas da Maré, das lutas envolvendo a segurança pública na comunidade e dos “perrengues” que já viveu por conta disso. Citou duas experiências de matérias sobre a abordagem dos problemas de segurança da Maré, o tráfico de armas e a violência policial no periódico. A primeira, de título “Linhas que ligam a Maré ao Iraque”, depois de publicada trouxe problemas para a jornalista, que foi chamada para dar satisfações aos traficantes. A segunda, que bateu na mesma tecla da segurança, abordou o simbolismo do “Caveirão”, veículo usado pela polícia na favela. De título “Quem vai levar a sua alma?”, a matéria fez com que o jornal distribuísse todos os seus 20.000 exemplares.

Segundo Renata, o jornalismo comunitário não vende a falácia da neutralidade, já nasce parcial, está indiscutivelmente ao lado dos moradores daquele lugar. “Não existe neutralidade, o que existe é uma mentira que se criou para vender jornal. O que pode existir é o jornalismo ético e equilibrado, que pondera as fontes e leva ao leitor elementos para que ele possa tirar suas próprias conclusões”, afirmou. De acordo com a jornalista, quanto mais o conteúdo do jornal aborda a realidade de quem lê, mais as pessoas vão querer se apoderar da informação.

Se já era envolvida com política e ativismo social, depois que conheceu Marcelo Freixo, e que ele cogitou se candidatar a cargo político, Renata mergulhou de cabeça nesse ramo, depois de superar a resistência inicial. Partindo do preceito de que é dentro do Estado que se reivindicam os direitos, se filiou ao PSOL por achar que a luta da favela e da democratização da comunicação deveria entrar na pauta do partido.

Quando assumiu a assessoria da campanha do candidato a deputado estadual Marcelo Freixo, começou a desenvolver um novo jeito de fazer política. Negando a compra de votos por meio da promoção de churrascos, doação de blusas e bonés, cenário típico das campanhas políticas em comunidades, a equipe de Freixo promoveu discussões dentro das favelas focando no protagonismo do povo. “Não dá pra pensar em comunicação sem agregar”, era o preceito da campanha.

Renata observou que depois de uma campanha diferente do comum, Freixo foi eleito e as pautas da democratização da comunicação, do protagonismo da mulher na favela e da segurança pública entraram no Estado. Agora, a jornalista se prepara para uma nova empreitada. Freixo é candidato à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, e sua campanha deve continuar fugindo aos padrões.

Aluna 3° período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Jornalista nega a existência de neutralidade no jornalismo

Mariana Martins*

A jornalista Renata Souza concedeu entrevista coletiva a alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação Social (ECO/UFRJ), sexta, 10 de junho. Também publicitária e doutoranda, Renata criticou a abordagem da grande mídia sobre as favelas e os Direitos Humanos. “Neutralidade é a mentira que se criou para vender jornal”.

Moradora da Favela da Maré desde a infância, a jornalista começou a carreira no Jornal Comunitário O Cidadão, em 1999. Comentou que lá aprendeu não apenas diversas funções na área do jornalismo, mas também a verdade por trás de cada notícia. “O jornalismo comunitário não vende a falácia da neutralidade”. Renata afirmou que o objetivo do jornal O Cidadão sempre foi contar o que a mídia tradicional omitia ou informava de maneira distorcida da realidade, com base em falsa postura neutra.

Após apresentar exemplos de diversos casos que foram contados de forma inverídica nos jornais, Renata observou que assumir uma postura equilibrada é fundamental para passar a notícia. De acordo com a entrevistada, o jornal comunitário tem um ponto de vista definido, a responsabilidade é contar ao leitor o que realmente acontece no local.

Assessora de comunicação do deputado estadual Marcelo Freixo desde sua primeira candidatura, em 2006, a profissional relembrou o episódio emblemático da chegada do “Caveirão” nas comunidades. Renata disse que o veículo foi apresentado pela mídia como grande medida de segurança, quando na verdade diversos modelos do carro foram usados para invadir os locais a qualquer custo, causando pânico e mortes entre os moradores.

Renata relatou que várias ações da Polícia Militar foram contadas em versões voltadas para justificar o ataque contra o tráfico de drogas, mas nunca noticiando quando um morador da periferia perdia a vida por causa dessa operação. Tal fato levou a jornalista a reconhecer, junto ao partido PSOL, a necessidade do fim da polícia como existe hoje e defende uma reformulação ideológica, de forma que os Direitos Humanos se tornem um ponto fundamental a ser pensado.

A entrevistada chamou atenção também para a necessidade de se discutir o racismo e o lugar da mulher na sociedade, partindo de sua experiência como única aluna negra na turma da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), onde ingressou no ano de 2003, como a primeira da família a cursar o ensino superior. Sempre pensando nos direitos de cada cidadão, Renata afirmou que nunca se colocará no lugar de vítima, mas sim na posição de militante que luta por espaço e reconhecimento nesse Brasil com tantas questões para amadurecer.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Favela é tema principal de entrevista

Yasmin Santos*

A jornalista e publicitária Renata Souza foi recebida em entrevista coletiva, no Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), sexta-feira, 10 de junho. O encontro, previsto para terminar por volta das 14h, estendeu-se até às 16h devido às perguntas que não paravam de surgir. Em pauta, estavam a trajetória política da convidada e assuntos que, segundo ela, ainda custam a ganhar espaço no meio acadêmico como a segurança pública na favela.

Militante dos direitos humanos, Renata contou que ela e os demais profissionais de O Cidadão foram chamados pelo tráfico para prestar esclarecimentos, porque o jornal, onde trabalhava, havia feito uma matéria sobre segurança pública. A jornalista falou sobre a falta de interesse da grande mídia com temas da favela, como um todo complexo, e não como um problema meramente decorrente do tráfico de drogas: “A gente tem um ciclo nefasto: é pobre matando pobre.” A entrevistada disse que a maior parte dos jovens que fazem prova para a Polícia Militar são homens, negros e pobres. “Favela é tráfico no varejo, favela não refina. Não se discute a legalização das drogas porque matar pobre dá muito dinheiro. Enquanto a gente não discutir isso seriamente eles [o Estado] vão entrar para matar”.

Com trajetória marcada pela comunicação comunitária, Renata fez diversas comparações entre a mídia hegemônica, vista como “neutra” e “imparcial”, e sua área de atuação, que já nasce parcial desde o primeiro suspiro. Ressaltou que na comunidade, as notícias dos moradores que não são relatadas pelos demais jornais, são veiculadas pelo jornal local. “A neutralidade é uma mentira que se criou para vender jornal. Nós, jornalistas, devemos procurar fazer um jornalismo de fato ético, equilibrado, e não neutro”, afirmou.

De acordo com Renata, na comunicação comunitária não há essa preocupação em vender jornal, mas em fazer com que o leitor da favela possa se enxergar naquelas páginas e tirar suas próprias conclusões a partir da informação disponibilizada. “Informação é formação e ela [o acesso à informação] liberta mesmo”. Acrescentou que a comunicadora popular escreve de favelada para favelada, assume seu lugar de fala. Escreve não apenas pelo que ouviu ou pesquisou, mas também pelo que viveu, pela realidade que compartilha com seus leitores.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Da Maré a ALERJ: Renata Souza torna-se braço direito de Marcelo Freixo

Mathias Felipe*

Uma moradora da Maré pega o ônibus e vai parar na universidade particular considerada a mais conceituada do país, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Acostumados a lidar com moradores abastados da Zona Sul, os universitários da PUC tiveram que conhecer as diferentes realidades presentes na cidade maravilhosa. Essa universitária bolsista, “negra e favelada” como costuma se identificar, era Renata Souza, atualmente doutoranda da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e responsável pela assessoria de comunicação do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), futuro candidato à prefeitura do Rio em 2016. A assessora de Freixo relatou essa história em coletiva a alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação Social (ECO/UFRJ), dia 10 de junho, e explicou como foi construída essa parceria.

Renata é moradora até hoje do complexo da Maré, conjunto de favelas que beiram a Avenida Brasil. Jornalista e publicitária pela PUC, contou que sempre participava de todas as oportunidades que a Maré lhe oferecia. Dentre essas, participou de um programa idealizado pela ex-primeira dama Ruth Cardoso, o Comunidade Solidária, que proporcionou a ela conhecer a UFRJ, vizinha à comunidade. Foi nesse lugar “cheio de gente jovem e inteligente” que começou um programa de orientação vocacional com psicólogas da universidade.

A jornalista lembrou que das profissões que mais odiava, as três fazem hoje parte da sua vida – jornalismo, publicidade e política. Em consulta à psicóloga disse que odiava os jornalistas, porque eles só mentem, e foi aconselhada a estudar mais sobre a profissão. Acabou concluindo que poderia ser jornalista para “fazer diferente”. Com isso, iniciou a carreira, escrevendo para o jornal O Cidadão da Maré, antes mesmo de entrar na PUC, afirmou a assessora.

Segundo Renata, durante a graduação escreveu para o jornal da comunidade. Lembrou que no último ano de jornalismo, recebeu uma bolsa para o trabalho de conclusão do curso e isso lhe rendeu um convite para participar de uma mesa de debate sobre mídia e comunidades. Acrescentou que ao terminar a graduação, resolveu cursar Publicidade e Propaganda para entender a mente dessas pessoas que tanto abominava.

Com o tempo, virou editora do jornal O Cidadão e durante participações em eventos, acabou conhecendo Marcelo Freixo, um professor que estava entrando na política. Inicialmente, Renata acreditava que seria mais um corrompido pelo sistema político, mas acabou percebendo que ele era diferente e se tornaram grandes amigos e parceiros.

A jornalista contou que no dia da eleição para deputado estadual, uma criança foi morta na Maré e os moradores, revoltados, foram até o batalhão da polícia, que fica na comunidade, com pedras e paus nas mãos, alegando ter sido um policial que atirou na criança. Com receio da reação da polícia, Renata que participava da campanha de Freixo telefonou para ele e pediu ajuda. Segundo a jornalista, com grande lábia, o futuro deputado conseguiu negociar com o chefe da polícia e os moradores da comunidade, apaziguando a situação. Essa cena pode ser vista no filme Tropa de Elite 2, de José Padilha, mencionou a assessora.

Após esse fato, Freixo convidou Renata para assumir sua assessoria de imprensa. Ela disse que mesmo receosa com o mundo político aceitou, na expectativa de poder ajudá-lo a tentar mudar a política do país. Contou que a primeira audiência do deputado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) foi sobre crianças assassinadas nas favelas, levando temas reais, como o que presenciou, para a Assembleia Legislativa. Nesse meio tempo, Renata acabou se filiando também ao partido de Freixo, o PSOL.

A jornalista garantiu que não quer entrar de cabeça na política, apenas apoiar pessoas que acredita no projeto. Renata está cursando o doutorado em Comunicação na UFRJ e se projeta lecionando e pesquisando. Disse que seu objetivo é claro e, para isso, vem investindo. Conseguiu uma bolsa para cursar parte do doutorado em Barcelona no último ano. Na Espanha, pesquisou sobre o partido de esquerda local, o “Podemos”.

Com essa bagagem, Renata prometeu investir na campanha de Freixo para que seja eleito prefeito no próximo semestre. Reconheceu o grande desafio pela frente, considerando que a eleição promete candidatos fortes. Isso a levará a fazer uma pequena pausa no doutorado no próximo semestre para apoiar as eleições, mas afirmou que voltará para o curso em breve.

*Aluno do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

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