Arquivo da categoria: Laboratório de Comunicação Crítica: Técnica de Linguagem Jornalistica Aplicada

Comunicadora defende a tecnologia como enfrentamento da desigualdade social

Imagem1.jpgA comunicadora e jornalista Silvana Bahia fechou o semestre de 2017 no Laboratório de Comunicação Crítica com uma coletiva sobre a importância da conquista de espaços de poder. Também ativista política, a convidada dirige o Olabi, projeto de laboratório de tecnologia, numa perspectiva de inclusão digital. A proposta é contemplar a população negra, a fim de reduzir o analfabetismo na área. Silvana explicou aos alunos que na contemporaneidade, a tecnologia representa um instrumento de transformação social e, de acordo com o uso, de redução das desigualdades sociais e raciais.

 

Representatividade subverte espaços de opressão

 

Eliandra Bussinger*

A jornalista e pesquisadora Silvana Bahia foi a segunda convidada para simulação de coletiva de imprensa do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ. Durante entrevista, ocorrida dia 8 de dezembro, Silvana contou sua trajetória no meio da comunicação e do ativismo. Destacou projetos como KBELA e PretaLab, iniciativas que marcam sua carreira e demonstram circulação em diferentes meios da comunicação, tecnologia e ativismo.

De origem baiana e paraense, Silvana disse ser a primeira graduada da família. Destacou a vivência nos setores da comunicação como um predominantemente branco, elitista e heteronormativo. Segundo a entrevistada, foi nesse contexto que percebeu a necessidade de subverter a lógica opressora. Contou que o KBELA, curta metragem sobre transição capilar e aceitação, foi uma das primeiras atuações no ativismo negro. A jornalista destacou esse trabalho como um dos melhores exemplos de seu papel comocomunicadora. Disse que a estreia do filme, no Cine Odeon, Rio de Janeiro, em 2015, marcou a primeira vez em que ingressos foram esgotados para a exibição de um curta metragem.

 

Com a repercussão do KBELA, Silvana contou que teve a oportunidade de alcançar outros meios e grupos, frequentar novos espaços e ocupar lugares que antes eram restritos a uma pequena classe. Ao participar do meio audiovisual brasileiro, a jornalista disse ter percebido a importância de tornar mais representativo outros segmentos, dando início ao PretaLab. A organização, segundo ela, busca coletar dados sobre mulheres negras e indígenas no meio tecnológico, e destacar a pluralidade na tecnologia, que muitas vezes é apagada ou desestimulada.

O projeto, como afirma Silvana, se articula em dois braços. O primeiro ponto de articulação são as pesquisas colaborativas para geração de dados. A jornalista contou que é preciso levantar esses dados para apontar um problema: o apagamento da ação feminina negra e indígena no meio tecnológico. Disse que o segundo ponto são as questões referenciais. “Nesse tópico busca-se entender quem são essas mulheres e a razão de poucas se inserirem nesse meio.” A proposta, segundo ela, é trazer referências de lideranças femininas que ocupam esse espaço, para que mais mulheres se sintam estimuladas a participarem. O PretaLab, mencionou Silvana, possibilitou as mulheres a se posicionarem, e finalizou: “A tecnologia tem que servir como instrumento para transformação social.”

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

Projeto de desenvolvimento tecnológico luta por inserção digital

 

Joana Dupre*

“O digital está no centro do poder.” A afirmação foi dada pela ativista e jornalista Silvana Bahia, durante simulação de entrevista coletiva, realizada na Central de Produção Multimídia (CPM). Convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Silvana falou sobre a importância da produção de tecnologia por mulheres, principalmente por mulheres negras, tradicionalmente excluídas. O evento ocorreu na sexta-feira, 8 de dezembro.

Silvana contou que foi a primeira pessoa da família a cursar o ensino superior. Trabalhou durante cinco anos no Observatório das favelas, organização responsável pelo reconhecimento de seu papel na luta pelos direitos humanos. Hoje é diretora do Olabi, um projeto de laboratórios de produção de tecnologia, e coordenadora do PretaLab, um desses laboratórios, voltado para as mulheres negras. Além disso, é facilitadora do RodadaHacker, que promove oficinas de empoderamento tecnológico feminino e foi co-coordenadora do plano de comunicação do curta KBela, sobre transição capilar.

 

A proposta, segundo Silvana, é reduzir o analfabetismo digital, qualificando o acesso às tecnologias. Na opinião da jornalista, é necessária a entrada de vozes das minorias nesse domínio, considerando ser a tecnologia o maior instrumento de transformação social na atualidade. Para ratificar esta necessidade, explicou que o PretaLab está fazendo um estudo de coleta de dados acerca das mulheres negras no mundo digital, a fim de perceber as carências. “Sem os dados, o problema não existe”.

Silvana disse ainda que os laboratórios são responsáveis por redesenhar a ideia de gambiarra, e inseri-la no ideal de cultura maker (faça você mesmo), notando como inovações, sendo mais uma face da tecnologia, desta vez fornecida pelas periferias. Segundo ela, essa cultura funciona como um meio de gerar reconhecimento do poder das minorias, inserindo-as em um ambiente dominado pela maioria.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

Jornalista fala de crise de identidade profissional a alunos de Comunicação

 

João Carlos Martins*

“É sempre bom estar numa universidade”, disse a jornalista Silvana Bahia como forma de boa tarde aos alunos que assistiam a coletiva de imprensa do Laboratório de Comunicação Crítica, disciplina da Escola de Comunicação da UFRJ. A entrevista aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 8 de dezembro. Dentre os assuntos abordados, a entrevistada falou sobre a crise de identidade profissional.

Silvana é formada em Comunicação Social/Jornalismo e fez mestrado na UFF, em Niterói, com pesquisa sobre a ocupação do espaço público por arte urbana. De família baiana e paraense, a entrevistada disse ter se inspirado na mãe e na avó para continuar os estudos.Afirmou que o próximo objetivo é fazer Doutorado em Comunicação na UFRJ.

 

“Comunicação para mim é fazer um texto onde a minha avó vai entender e o diretor da Ford vai entender”, afirmou a entrevistada que, apesar da paixão pela área, enfrentou e ainda enfrenta dificuldades em se encontrar profissionalmente: “Hoje em dia, eu vivo uma crise de identidade profissional porque eu não me sinto jornalista.”

Silvana contou que às vezes se pergunta qual a sua profissão, para responder, em seguida, que não sabe. “Eu entrei em jornalismo muito pelo romantismo. Não sabia o que eu queria fazer, mas, dentre os cursos da faculdade, o que eu mais gostava era comunicação. Amava as matérias teóricas (de jornalismo), mas preferia as práticas de rádio”, lembrou.

 

A entrevistada contou que muitas vezes foi reprovada em seleções de estágio devido à cor da pele, o estilo de cabelo e as roupas coloridas. Segundo Silvana, a reprovação acontecia na entrevista, depois de ter passado em todas as etapas, o que a deixou frustrada com o jornalismo. “Hoje eu não me vejo muito como jornalista, porque eu publico muito pouco. Nessa minha crise, eu me vejo mais como articuladora das coisas e sujeito político”, concluiu.

*Aluno do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

“Uma vida da Lagoa tem valor diferente da vida da Maré”

 

Kathlen Barbosa*

A jornalista, ativista e comunicadora popular Silvana Bahia esteve presente na Escola de Comunicação da UFRJ para simulação de coletiva junto aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, dia 8 de dezembro. Durante a entrevista, Silvana contou sobre o trabalho como coordenadora do projeto Pretalab e diretora do Olabi, que tratam de temas acerca da desigualdade social, direitos humanos e, principalmente, empoderamento negro e feminino, a partir de uma perspectiva tecnológica.

A entrevistada explicou o Olabi como um projeto que visa à democratização da produção de tecnologia, buscando incluir mulheres negras e indígenas nesse processo de inovação. Quanto ao Pretalab, Silvana esclareceu que o projeto atua em duas vertentes principais. A primeira é uma pesquisa colaborativa de abrangência nacional, ainda em curso, que tem por objetivo gerar dados sobre o acesso e a presença ativa de mulheres negras e indígenas na tecnologia. Já a segunda, esclareceu a convidada, é voltada para a “questão das referências”, uma das principais causas de contenção desse processo de democratização, aliada à “questão do acesso”.

 

Silvana contou que nos anos 1970/80, as mulheres dominavam a programação. “Nessa época, os homens falavam que a programação era a cozinha da computação, porque era lugar de mulher. Quando isso ganha outro status econômico, as mulheres são arrancadas desse processo”. A entrevistada esclareceu ainda que a geração de dados da qual se encarrega o Pretalab é muito importante porque não existe estatística no setor. Justifica, dizendo ser necessário quantificar a exclusão feminina, negra e indígena do processo de inovação tecnológica. Para Silvana, uma consequência importante desse processo de quantificação é que, a partir do momento em que os dados passam a existir, o problema da falta de democratização se materializa e “torna-se existente”.

Ao ser questionada sobre o papel da comunicação no processo de invisibilização da população negra, tanto no cenário de inclusão tecnológica, quanto no cenário social brasileiro como um todo, Silvana Bahia destacou a desigualdade racial no Brasil. “Uma vida da Lagoa tem valor diferente da vida da Maré”. A convidada abordou dados alarmantes sobre a violência contra jovens negros no país e afirmou que quando se reconheceu dentro de sua profissão, como jornalista negra e competente, percebeu que o jornalismo é uma ferramenta de transformação social. Silvana Bahia finalizou a coletiva falando sobre a importância das iniciativas que coordena. Na sua opinião, a tecnologia tem que servir para a transformação social, tentando provocar mudanças no cenário de desigualdade e privilégios no qual vivemos.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

“Quem são as mulheres high-tech?”

 

Laís Jannuzzi*

Mulher, negra, ativista e a primeira da família a ter um diploma do ensino superior, a jornalista Silvana Bahia conversou com alunos de comunicação da UFRJ. A coletiva foi realizada na Central de Produção e Multimídia (CPM), dia 8 de dezembro. Na ocasião, a entrevistada falou sobre machismo, racismo e analfabetismo digital, temas abordados por projetos sob sua liderança. Também diretora do Olabi, organização de luta pela democratização tecnológica, Silvana justifica o engajamento: “Eu acho que muito do que eu faço tem a ver com o fato de ter nascido na era das mídias digitais”.

A entrevistada contou que ao coordenar a assessoria de imprensa do curta metragem “KBELA”, esbarrou com a programação de computadores. Segundo ela, o desejo de fazer um site para o filme independente fez com que participasse do evento “RodAda Hacker”, focado no ensino da linguagem de computação para mulheres. Segundo Silvana, esse primeiro contato foi decisivo para o direcionamento da carreira profissional. “Aquilo ali me empoderou de um jeito que… É aquilo, você nunca acha que pode fazer, e de repente fica pronto e isso é muito bom”.

 

A entrevistada disse que foi tendo cada vez mais intimidade com o universo das ciências da computação e que logo percebeu a ausência de mulheres negras e indígenas. Para Silvana, esse vazio não traduzia um desinteresse dessa parcela da população. Disse que muita gente como ela, que vive em favelas e áreas periféricas, tem interesse nas novas plataformas digitais e on-line.

 

De acordo com a entrevistada, dessa percepção surgiu o PretaLab, iniciativa que busca coletar informações para realizar o primeiro levantamento sobre a quantidade de mulheres negras e indígenas protagonistas no mundo tecnológico. Silvana disse que essa informação, depois de pronta, será o primeiro passo para a ressignificação e referência das mulheres negras e indígenas. “Se você não vê alguém parecido com você em um lugar, pode logo pensar que aquilo não é pra você”.

Ao ser questionada por um dos alunos sobre os próximos passos do PretaLab, a coordenadora respondeu: “Experimentação é tudo numa batalha das minorias. Eu não tenho como falar sobre isso agora, mas o relatório é o primeiro passo para acentuar essa disputa”.

*Aluna do 8º período do curso de Comunicação Social da Eco/UFRJ

 

Lugar de mulheres negras é no centro das decisões de poder

 

Larissa Esposito*

Comunicadora e ativista, Silvana Bahia participou de simulação de coletiva com os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ, no Centro de Produção Multimídia (CPM), dia 8 de dezembro. Durante o evento, a convidada falou sobre as organizações que coordena como pontes para a inclusão digital de minorias, tradicionalmente excluídas das atividades tecnológicas, como as mulheres negras.

Silvana é diretora do Olabi e coordenadora do PretaLab, laboratórios que oferecem alfabetização digital a mulheres negras e indígenas. A entrevistada ressaltou que, a despeito dos avanços no setor de tecnologia, os aparatos digitais não contribuíram para diminuir a desigualdade. “Esse universo tecnológico é muito branco, masculino, heteronormativo e classista”, disse, alegando ser este o motivo que a faz articular o trabalho às militâncias negra e feminista.

A ativista afirmou que se identificar como uma pessoa negra requer reflexão sobre essa identidade, consciência racial. Silvana chamou a atenção para os dados que revelam que jovens negros são assassinados a cada 23 minutos no Brasil. A causa disso, segundo a convidada, é a insensibilidade da sociedade diante da realidade dos negros. “A polícia mata, mas a sociedade enterra”, declarou.

 

A comunicadora incentiva a conquista de espaços em que negros são minorias, como a universidade e o ambiente tecnológico. Coordenadora do filme KBELA, que lida com a aceitação da beleza natural e da transição capilar, Silvana Bahia disse que também se mobiliza para que mulheres negras tenham mais destaque na carreira audiovisual. Ela colaborou para a criação da plataforma Afroflix, que disponibiliza filmes com pelo menos uma negra como realizadora.

Quando perguntada sobre a militância feminista no Facebook, a convidada disse ser a favor, e que tal manifestação é importante. “As redes sociais é a sociedade”. Por esse motivo, de acordo com Silvana, a comunicação do ativismo deve ser feita de maneira acessível para que tanto avós quanto patrões possam entender o movimento e, assim, ser

mais difundido.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

A (des)invisibilização da negritude pelo audiovisual

 

Laura dos Santos Suprani*

A jornalista Silvana Bahia participou de simulação de coletiva como atividade do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ, e falou sobre sua trajetória e projetos na militância negra. A entrevista foi realizada na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 8 de novembro. Silvana é formada em Comunicação Social e trabalha com iniciativas de tecnologia e inovação, e inserção digital para mulheres negras.

Silvana foi responsável pela comunicação do filme KBela, que trata do fenômeno da transição capilar e da conscientização da negritude. Feito por e para mulheres negras, o curta teve a direção de Yasmin Thainá e, na definição da entrevistada, aconteceu graças às “redes sociais e ao afeto”. A entrevistada disse ainda que o filme pode ser rodado e exibido no Cine Odeon, no Rio de Janeiro, a partir da ajuda de voluntários e contribuintes.

Segundo Silvana, KBela entrou para a história como o primeiro curta que esgotou os ingressos para exibição. Contou que o filme foi divulgado principalmente pela internet e fez grande sucesso entre o público. Apesar disso, não recebeu indicações para festivais nacionais e nem foi reconhecido pelos círculos tradicionais de cinema. O reconhecimento veio posteriormente, por parte de organizações internacionais como a AMAA (Africa Movie Academy Awards), que premiou KBela com o título de “Melhor Curta Metragem da Diáspora Africana”.

 

Quando questionada sobre o tema, Silvana declarou que o campo do audiovisual é muito elitizado, e que a produção foi marginalizada, sendo considerado fruto de movimento social e não vista como cinema. A jornalista afirmou também que um reflexo dessa realidade pode ser vista na pouca participação de negros no cinema nacional de grande bilheteria; apenas 4% de mulheres negras, por exemplo, (dado de pesquisa realizada pela UERJ).

A Afroflix é outro projeto que conta com a participação de Silvana e é uma possibilidade de reverter esse quadro. Ela explica tratar-se de uma Plataforma de streaming semelhante à Netflix, reunindo títulos que contenham, pelo menos, um realizador negro. Disse que no momento o projeto está parado, mas a proposta nasceu como uma ponte entre essas produções e sua distribuição, grande obstáculo encontrado pelos cineastas.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

Comunicadora debate representatividade e inclusão

 

Lorena Alves da Costa*

Jornalista e mestre pela UFF, Silvana Bahia é diretora do Olabi – espaço de apropriação de novas tecnologias – e coordenadora do PretaLab, projeto que busca estimular mulheres negras e indígenas no campo tecnológico. Em entrevista coletiva realizada no Centro de Produção Multimídia (CPM), em dezembro de 2017, falou à turma do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO) sobre sua carreira, projetos e vida pessoal.

Silvana é filha de nordestinos, mora na cidade do Rio de Janeiro, e disse ser a primeira da família a obter um título de graduação. A comunicadora contou que sua carreira teve inicio em um estágio de cinco anos no Observatório de Favelas da Maré. A instituição, localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro, desenvolve pesquisas e se dedica à proposição de políticas públicas voltadas para superação de desigualdade social nas favelas.

 

De acordo com Silvana, foi ainda no período de estágio no Observatório que iniciou a produção do filme KBela, em 2013, que trata da relação da mulher negra com o cabelo crespo. Contou que o curta-metragem estreou em 2015 e teve lotação máxima no cinema Odeon. Por trabalhar na área de comunicação do filme, Bahia relatou a experiência com a tecnologia ao se propor desenvolver o site de divulgação do curta.

Segundo Silvana, a participação no Olabi, a partir de 2016, permitiu que ela circulasse em espaços de inovação e tecnologias e percebesse a ausência de mulheres negras na área. A comunicadora relatou que esse cenário a motivou a desenvolver o PretaLab, projeto que integra as mulheres negras e indígenas ao campo tecnológico. Disse que a organização faz levantamentos sobre essas mulheres que trabalham com inovação no Brasil e seus relatos tornam-se uma referência para as outras.

A entrevistada explicou que para despertar o interesse por tecnologia nessas mulheres é importante mostrar que essa realidade não está distante delas, como muitas acreditam. Contou também que as empresas de tecnologia precisam ser mais inclusivas e investir em diversidade. Para a comunicadora, as tecnologias carregam as ideologias de seus desenvolvedores e por isso, é preciso que haja diversidade e que este seja um espaço democrático.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

 

Luta pela democratização do acesso à tecnologia

 

Lucas Mathias*

“Comunicação, para mim, é fazer um texto que minha avó entenda, e o diretor da Ford também”, disse a jornalista Silvana Bahia, em simulação de entrevista coletiva na Escola de Comunicação da UFRJ (ECO). Silvana, que também é ativista e diretora do Olabi, organização de democratização da produção de tecnologia, esteve no Laboratório de Comunicação Crítica da ECO, dia 8 de dezembro, e falou sobre seus projetos de inclusão tecnológica e a atuação das mulheres negras na sociedade.

Da família baiana e paraense, Silvana contou que foi a primeira a entrar numa graduação e mestrado. De acordo com ela, ajudada por bolsa concedida pela empresa em que trabalhava, iniciou muito bem a faculdade de jornalismo, mas logo viu sua vida tomar caminhos inesperados, quando começou a trabalhar com tecnologia. Para a entrevistada, trabalhar com esse tema é essencial, já que parte considerável da sociedade não tem acesso à tecnologia a fundo. “Isso causa uma grande bola de neve, que acaba afastando uma parcela marginalizada da população do meio tecnológico, até por falta de referências”, ressaltou.

 

A entrevistada disse que o Olabi foi criado com o objetivo de aproximar a população negra da tecnologia, principalmente as mulheres, mais afetadas por essa falta de referências. “Muita gente acha que a internet é só o Facebook. O que a gente pensa no Olabi é como aproximar as pessoas de conteúdos high tech. Você pode subverter a lógica, mas primeiro tem que entender a lógica. O que é tecnologia para a gente?” De acordo com Silvana, a organização estimula a chamada cultura maker (faça você mesmo), algo já inerente ao brasileiro: “A cultura maker já acontece no Brasil há muito tempo. O baleiro do trem, o meu avô que constrói casas, já são makers”.

Outro tema da entrevista foi o crescimento dos movimentos sociais, principalmente do movimento negro. Silvana ressaltou as conquistas, como o avanço trazido pelas cotas  as universidades, ainda batendo nessa tecla das referências: “A geração da minha mãe cresceu sem nenhuma referência. Mas a minha geração, e as que virão, a partir do ingresso na universidade, se movimentam mais.” De acordo com Silvana, até mesmo a imersão dos jovens negros na universidade traz maior embasamento teórico ao movimento e maior autoridade. “Todas as teorias que a gente aprende e estuda, são coisas do mundo”, disse.

 

Silvana ressaltou ainda a aproximação da tecnologia junto aos movimentos e questões sociais: “O que é inovação afinal? A tecnologia não tem que ser só pela tecnologia, tem que ser de transformação social. Tem que resolver problemas. Comunicação, para mim, é fazer um texto que minha avó entenda, assim como o diretor da Ford.” A ativista ressaltou a importância de sua luta, e valorizou o uso da internet nesse processo: “A cada 23 minutos é assassinado um jovem negro no Brasil. A polícia mata, mas quem sustenta é a sociedade. Eu acho que a militância do Facebook é fundamental. Não exclui a militância fora da internet”, concluiu.

*Aluno do 2º período do curso de Comunicação Social de ECO/UFRJ

 

Era das redes digitais conta com a inovação tecnológica de estrelas além de seu tempo

 

Manuella Caputo Barreto*

Inovação tecnológica, inclusão social e representatividade negra foram os temas debatidos com a comunicadora e pesquisadora Silvana Bahia, durante simulação de coletiva com os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO). Silvana é diretora do makerspace Olabi e coordena o “PretaLab” – iniciativa que busca examinar a presença de meninas e mulheres negras e indígenas no campo tecnológico. A entrevista aconteceu no Centro de Produção Multimídia (CPM), dia 08 de dezembro 2017.

A convidada disse que começou como coordenadora de comunicação do Olabi. Hoje é diretora da organização que tem por objetivo democratizar o acesso aos meios, utilizando ferramentas cruciais para o avanço tecnológico na era das redes digitais. Com sede em Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro, Silvana contou que a empresa é regida por quatro frentes de atuação: problemas urbanos, educação para o século 21, empoderamento feminino e inovação para a sustentabilidade. De acordo com a entrevistada, o Olabi, idealizado no contexto da “cultura maker”, é um espaço não só de criação, mas também de troca e aprendizagem, ocupado tanto por profissionais quanto por amadores da área digital.

 

Durante a coletiva, Silvana falou também sobre outro projeto que busca o empoderamento feminino no espaço tecnológico, dessa vez, focado na atuação de mulheres negras e indígenas: o PretaLab. Sobre seu surgimento, a comunicadora contou que foi em decorrência da sua experiência pessoal de circular nos espaços de criação tecnológica e perceber que eles são majoritariamente ocupados por homens brancos, contando com uma baixa representatividade tanto de homens quanto de mulheres negras, mas também de mulheres no geral.

Tal como o filme “Estrelas Além do Tempo” (2017) trouxe para o cinema histórias de brilhantes cientistas negras, que apesar dos desafios da desigualdade social, tornaram-se pioneiras em diferentes áreas da tecnologia, o PretaLab procura registrar a ação de mulheres negras e indígenas que são referências na inovação tecnológica hoje. Para 2018, a entrevistada compartilhou que o PretaLab irá divulgar os dados das pesquisas realizadas em 2017, e a partir daí, promover iniciativas para que a presença feminina, negra e indígena seja ainda mais forte no campo tecnológico.

* Aluna do 2º período de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

 

Jornalista hackeia e transforma tecnologias

 

Thales Mariz*

O Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO) recebeu a jornalista Silvana Bahia para simulação de coletiva. A entrevista foi realizada na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 8 de dezembro. Na ocasião, a convidada contou sua história, trajetória profissional e luta pelo acesso à democratização da tecnologia. Silvana é diretora do Olabi, coordena a PretaLab e colabora com a plataforma Afroflix. A entrevistada disse que foi facilitadora da RodAda Hacker, trabalhou com a parte de comunicação do filme KBELA.

Além de líder de projetos sociais, Silvana é integrante do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia da Informação e da Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ. A entrevista contou que vem de uma família baiana e paraense, mas foi nascida e criada no Rio de Janeiro. Para ela, as maiores referências de sua vida são a mãe e a avó, mulheres fortes que a inspiram. Disse ter sido a primeira mulher da família a entrar para a universidade, fazendo graduação em jornalismo e mestrado no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da UFF.

 

Silvana falou que suas atividades como um todo sempre se relacionaram com direitoshumanos. Contou que começou como ativista no Observatório de Favelas da Maré, para posteriormente desenvolver outros projetos. Para ela, a saída do Observatório não representou uma mudança brusca, mas foi uma saída natural para as atividades e o ativismo que desenvolve hoje, como a PretaLab.

Segundo Silvana, a luta é pela democratização do acesso à tecnologia. “É extremamente importante que as pessoas tenham uma noção básica de tecnologia”. A entrevistada contou que foi partindo deste ponto que surgiu o Olabi, para oferecer o conhecimento de tecnologias, dos mais variados tipos. “Tecnologias, segundo a abordagem do Olabi, não se restringem apenas em computadores e softwares, como talvez a maioria das pessoas pensaria em um primeiro momento”. A entrevistada esclareceu que no Olabi, o estímulo de aprendizado e uso de tecnologias é usado como instrumento de transformação social para as pessoas.

 

Silvana Bahia falou sobre a ausência de mulheres nas áreas de tecnologias, e mais ainda de mulheres negras e indígenas. Disse que dessa ausência, surgiu a PretaLab, iniciativa do Olabi, com o objetivo de desenvolver e estimular o protagonismo de mulheres negras e indígenas nos setores de tecnologia, como forma de transformação social. Silvana concluiu afirmando que nunca se imaginou no ramo da tecnologia, que não gostava, mas que atualmente se assume como produtora de tecnologia, preparada para expandir os projetos.

*aluno do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

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Comunicador popular interfere na realidade da favela

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O líder do Coletivo Papo Reto utiliza ferramentas de comunicação, como celular, para o trabalho de vídeo-denúncia contra a violência policial no Complexo da Maré. Raull Santiago fez a primeira simulação de coletiva do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ, levantando o interesse dos alunos. Em parceria com moradores locais, o Coletivo questiona a narrativa da mídia hegemônica, o discurso oficial da política e mostra o cotidiano de pessoas comuns na luta pelo direito à existência. O Laboratório de Comunicação Crítica: técnica de linguagem jornalística é uma atividade do LECC.

 

“Nós por nós”: a favela pelo olhar dos moradores

 

Por Eliandra Bussinger Rodrigues*

O ativista social Raull Santiago foi o convidado da simulação de entrevista coletiva, realizada na Central de Produção e Multimídia (CPM), dia 10 de novembro. O encontro, com os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ, abordou diversos temas referentes às narrativas das favelas do Complexo do Alemão. Raull destacou o papel do coletivo Papo Reto para a democratização da comunicação e a necessidade de um espaço de expressão para os moradores.

Formado por diferentes meios do ativismo e por moradores do Complexo do Alemão, o Papo Reto surgiu no início de 2014. De acordo com o entrevistado, o coletivo é um espaço de denúncia, educação e recurso local de comunicação, que contrapõe a mídia  hegemônica. Raull Santiago ressaltou a importância dos moradores terem espaço para falar sobre sua própria história, independentes das lentes da mídia tradicional que, segundo ele, sempre enfatiza a violência quando fala sobre favelas, desconsiderando toda a expressão cultural presente.

O comunicador popular enfatizou esse ideal com a frase “nós por nós”, esclarecendo que representa a publicidade afirmativa do coletivo: comunicação feita da favela para a favela. Citou como exemplos de atividades oficinas de conhecimentos diversos para o público juvenil e infanto-juvenil, explicação de conceitos e debates de políticas públicas. Para Santiago, o coletivo vê a educação como a principal forma de cidadania, e um modo de capacitar os participantes a se expressarem. Disse que o trabalho realizado pelo coletivo vem sendo internacionalmente reconhecido. O Papo Reto possui parceria com o jornal americano The New York Times e com o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Segundo o entrevistado, o coletivo se mantinha, inicialmente, com recursos pessoais dos próprios integrantes, que intercalavam o emprego com as atividades do Papo Reto. Atualmente, após a nacionalização do coletivo, explicou que alguns grupos de patrocinadores apoiaram o projeto, como o Brazil Foundation e o Open Society Foundation. Para Raull Santiago, a partir da captação de recursos é possível continuar o trabalho de comunicação do coletivo e oferecer as oficinas para os moradores.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

“Papo Reto” constrói voz periférica e coletiva

 

Joana Dupre*

“O estado dialoga com a gente através da mira do fuzil de um policial.” A afirmação foi feita pelo ativista e comunicador, Raull Santiago, durante simulação de entrevista coletiva, a convite do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ. O evento ocorreu na sexta, 10 de novembro, na Central de Produção Multimídia (CPM), momento em que Santiago discorreu sobre a violência policial nas favelas do Rio de Janeiro e o papel da comunicação neste cenário.

A trajetória de Raull Santiago como comunicador teve início na produção de eventos para o morro do Alemão, onde mora, como um baile para manter aberta a Lan House que havia no local. O entrevistado contou que após ganhar influência entre os moradores, criou um blog para atender a demanda local e, com isso, percebeu que o maior problema era a violência policial. Assim nasceu, em 2014, o coletivo Papo Reto, com frentes de trabalho de comunicação de resistência e publicidade afirmativa, buscando trazer visibilidade à favela, o Rio de Janeiro para além da Copa do Mundo.

Santiago chamou a atenção para a importância da discussão sobre guerra às drogas e sua base racista, em que negros e pobres morrem nas favelas como traficantes, enquanto moradores de bairros nobres são tratados como usuários. Contou que sofre ameaças de diversos policiais, e já teve que passar uma semana fora do Morro do Alemão com a família. Disse que o número de menores de idade no tráfico só aumenta, porque há, na juventude, um ideal de guerrilheiros atrás de vingança.

O coletivo funciona, segundo Santiago, como um meio de denúncia desta realidade. Explicou que conta com os moradores, que mandam vídeos e fotos da violência, e com organizações internacionais parceiras, que geram visibilidade, enquanto a mídia hegemônica brasileira esconde. Disse ainda que o Coletivo desenvolve e mostra o outro lado do Alemão, com o projeto “Nós por nós”, oferecendo oficinas para os jovens e divulgando histórias positivas. Desta forma, afirmou construir, pouco a pouco, a voz que falta às periferias.

*Aluna do 2º período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

“Todos os dias, eu desacredito”

Kathlen Barbosa da Silva*

 

O comunicador popular Raull Santiago participou da primeira simulação de entrevista coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, na Escola de Comunicação da UFRJ, dia 10 de outubro. Santiago falou sobre as dificuldades do trabalho como ativista e as motivações para acreditar e fazer do espaço em que vive um lugar melhor.

Raull Santiago é morador do Complexo do Alemão, ativista de direitos humanos e co-fundador do Coletivo Papo Reto, que atua em duas vertentes principais: a comunicação de resistência e a publicidade afirmativa. A primeira, segundo o entrevistado, visa a discutir a violência racial no Alemão, assim como a atuação do Estado na comunidade. Já a segunda, objetiva valorizar e fortalecer o espaço da favela dando visibilidade à fala de quem o habita.

O convidado contou que o coletivo surgiu num momento de intensa segregação, na fase de preparação da cidade do Rio de Janeiro para receber os grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olímpiadas. Segundo Raull Santiago, nesse período, a única política pública do Estado para as favelas vinha da Secretaria de Segurança, por meio da atuação das UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadoras). Nesse contexto, disse que a internet se apresentou como uma ferramenta útil para mudar a realidade, além de discutir as violações do Estado, praticadas pela polícia, e o racismo.

Para o comunicador, os policiais são pessoas como as da favela, mas que “passaram por uma lavagem cerebral”, com a imposição ideológica de que naquele espaço todo mundo é inimigo. A partir desse ponto de vista, esclareceu, o policial “viola direitos diversos para garantir sua integridade num ambiente hostil”. Santiago contou ainda que os jovens envolvidos com o tráfico atualmente têm como motivação defender a favela do policial, figura a quem eles consideram inimiga. A justificativa, disse, é um imaginário de revolta criado pela série de abusos que já sofreram.

Sobre o trabalho que realiza para evitar o envolvimento desses jovens com o tráfico, Santiago contou que o coletivo, em parceria com outras instituições ou pessoas, oferece oficinas de conhecimentos diversos. Elas buscam esclarecer questões como direitos, cidadania e usos da comunicação e produção audiovisual como ferramentas de pluralização de vozes. O comunicador popular afirmou que essa iniciativa busca combater a visão que a mídia hegemônica cria sobre a favela.

Por fim, ao ser questionado sobre seus medos e motivações para continuar realizando o trabalho, apesar das ameaças, Santiago exibiu a tatuagem “Acredite”, no braço direito, e afirmou: “todos os dias, eu desacredito”. De acordo com o ativista, a tatuagem é como um lembrete de que “as pessoas são as soluções assim como são os problemas”. Para Raull Santiago, são elas e suas mobilizações que o fazem reacreditar todos os dias. Segundo ele, essa é uma forma de criar coragem para continuar tentando mudar o cenário de desigualdade nas favelas.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

O Complexo do Alemão nunca esteve adormecido

Larissa Esposito*

“Não existe bala perdida se ela tem alvo e lugar”, afirmou Raull Santiago, principal figura do Coletivo Papo Reto. A declaração foi feita durante simulação de coletiva de imprensa para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, na Escola de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dia 10 de novembro. Raull Santiago falou sobre as principais denúncias sociais e organizacionais do Complexo do Alemão, e os investimentos culturais do coletivo. Dentre os principais problemas citou o racismo institucionalizado, o esquema do tráfico de drogas que mata 60 mil jovens por ano, a violência policial, e a estrutura das UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora) que, segundo Santiago, foram instaladas já fadadas a ruir.

De acordo com o entrevistado, o objetivo do Papo Reto é construir uma comunicação que envolva ativismo. Santiago disse que o projeto conta com recursos populares, como grupo de Whatsapp e página no Facebook, em que dados podem ser levantados sobre os pontos mais perigosos do Complexo do Alemão, por meio de um conteúdo de informações multimídias, criado pelos próprios moradores.

“O Brasil não quer ser África, o Brasil quer ser Europa”, constatou Raull Santiago. O entrevistado quis mostrar que o cenário específico das favelas – onde a maioria dos habitantes é formada por negros, nordestinos, e de baixa renda – ainda é visto pelas classes média e alta como o inimigo da paz. Para essa elite, de acordo com o convidado, as favelas configuram uma realidade sociocultural que não deve ser seguida, por fugir aos padrões europeus enraizados na sociedade brasileira.

Raull Santiago insistiu que a negligência é majoritariamente governamental. Disse que os reflexos da formação da polícia militar definem o estereótipo de como seria um traficante. Segundo o entrevistado, os abusos e fatalidades consequentes de tal formação policial estão presentes na sensação de guerrilha entre os integrantes da favela e as autoridades. Santiago reconheceu que há policiais honestos e que apoiam as denúncias feitas pelo coletivo, mas ressaltou que eles continuam a ser comandados por aqueles que fazem parte da velha política corrupta de milícias.

Para Raull Santigo, a divulgação das produções artísticas locais também é importante. De acordo com o líder do coletivo, essa vertente busca explorar as manifestações positivas das favelas e tem como meio de propagação a publicidade afirmativa. Deu como exemplo a realização e a produção de documentários seriados com testemunhos de moradores que tentam transformar suas vidas. Finalizou a coletiva, dizendo que investe, igualmente, em oficinas com objetivo de democratizar o conhecimento tecnológico, para impedir um futuro excludente pelo analfabetismo digital.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

Midiativismo é a aposta de comunicação do Coletivo Papo Reto

Laura dos Santos Suprani*

O comunicador popular Raull Santiago é ativista de Direitos Humanos nos Complexos do Alemão e da Penha e membro fundador do Coletivo Papo Reto. Fundado em meados de 2014, o coletivo atua como uma tentativa de retomada de narrativa sobre a favela dentro da favela. Em simulação de coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação Social da UFRJ (ECO), Santiago falou sobre mídia, violência e esperança. A entrevista foi realizada na Central de Produção Multimídia (CPM) da ECO, dia 10 de novembro.

Durante o encontro, Santiago lembrou que as operações policiais e a violência aumentaram sugestivamente nas favelas do estado do Rio de Janeiro, com destaque para o Complexo do Alemão, por ocasião dos grandes eventos mundiais, sediados pelo Brasil e pela cidade do Rio, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Disse que esse foi também o momento de forte atuação do Coletivo Papo Reto, com o uso de uma das ferramentas de denúncias, frente aos acontecimentos, a chamada “vídeo como prova”. Segundo Santiago, por meio de registros em imagem de casos de abuso e agressão policial, o coletivo conseguiu gerar mobilizações entre moradores e a sociedade civil, com o objetivo em comum da redução da violência.

O entrevistado esclareceu que, associada à prática do “vídeo como prova”, uma das formas de atuação do coletivo é a chamada “comunicação de resistência”, em que são construídas redes de apoio e denúncia entre os moradores da favela. Contou que as informações sobre tiroteios e operações policiais são divulgadas em tempo real para evitar que pessoas fiquem vulneráveis à violência.

Santiago disse ainda que são promovidos debates sobre racismo estrutural da sociedade, direitos humanos e segurança pública, a partir de conversas com jovens. Para o comunicador popular, o coletivo procura atuar pela conscientização da população, abrindo espaço para que a população fale por si. Santiago observou a importância de ser ter um olhar positivo sobre a favela. Citou como exemplo a necessidade de manter as crianças afastadas do tráfico. Para tanto, acrescentou que o Coletivo Papo Reto é responsável pela divulgação e realização de eventos culturais nos territórios populares, produzindo oficinas entre jovens e crianças.

Raull Santiago declarou que o coletivo incentiva a denúncia e o combate à violência. Em parceria com outros meios de comunicação de organizações internacionais dos Estados Unidos, da Colômbia e da Palestina, disse que o coletivo Papo Reto trabalha na expansão de suas redes, trazendo mais visibilidade ao grupo e suas conquistas.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

 

Raull Santiago discute violência policial durante entrevista coletiva

Lorena Alves Amaro da Costa*

“Não existe bala perdida se ela sempre tem um endereço.” A declaração foi dada pelo ativista social Raull Santiago em simulação de entrevista coletiva. O encontro aconteceu  na Central de Produção Multimídia da Escola de Comunicação da UFRJ (CPM), em 10  novembro de 2017. Essa afirmação denuncia um problema recorrente na cidade do Rio de Janeiro: a violência nas favelas e a consequente morte da população de maioria negra e de baixa renda.

Santiago (27) nasceu e cresceu no Complexo de Favelas do Alemão, na zona norte do  Rio de Janeiro. No final de 2013, junto com outros moradores locais, fundou o Coletivo  Papo Reto – um projeto de comunicação independente voltado para o ativismo. Conforme Santiago afirmou, o grupo trabalha com a comunicação de resistência, que discute a violência do Estado, a questão racial e os direitos humanos nas favelas.

O ativista criticou a omissão do Estado que tem a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) como única política presente no conjunto de favelas. “O Estado dialogava com a gente e até hoje dialoga nos observando a partir da mira de um fuzil de um policial.” Santiago defendeu a criação de políticas públicas no campo da saúde, educação, esporte  cultura para toda a população.

Com o objetivo de observar os conflitos e as violações existentes, o entrevistado contou que o Coletivo criou um grupo no Whatsapp, composto por moradores de diferentes áreas do Complexo do Alemão. Disse que a troca de informações possibilitou reduzir os danos causados pelas “chamadas balas perdidas”, o que viabiliza a identificação dos pontos mais violentos e a atuação com políticas públicas e projetos de arte e cultura nesses locais.

Segundo Santiago, essa rede de informações não foi suficiente para acabar com mortes por balas perdidas. Disse que o coletivo passou a acompanhar a operação policial e flagrou diversas violações de direitos humanos, como extorsões e execuções de pessoas já rendidas. Contou, ainda, que a divulgação dessa cobertura gerou diversas ameaças ao  grupo por parte da polícia, mas também reacendeu a discussão sobre segurança pública o que é algo muito positivo para o futuro do Complexo do Alemão.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

“Crescer sem perder a essência”

Lucas Mathias*

 

“Precisamos ocupar tendo consciência daquilo que a gente é, sem se deixar alienar”, foi o que disse Raull Santiago, um dos articuladores do Coletivo Papo Reto, que é hoje o principal veículo de comunicação comunitária do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Santiago esteve na Escola de Comunicação da UFRJ, dia 10 de novembro, em simulação de coletiva. A entrevista foi para o Laboratório de Comunicação Crítica e os temas abordados foram mídia e direitos humanos na favela.

Fundado em 2014, o Coletivo Papo Reto nasceu com a intenção de fazer um trabalho que há muito já não vinha sendo feito pela mídia hegemônica: noticiar e falar sobre os pontos positivos do Alemão, um dos maiores complexos de favelas do Rio. A proposta era atuar de modo diferente do que mostra a grande mídia. Segundo Raull Santiago, o grupo desejava um veículo de comunicação feito pelos moradores e para os moradores, mostrando a arte e a cultura do local.

O convidado afirmou que a imagem construída pela mídia sobre a favela é diferente da realidade cotidiana dos moradores. Segundo ele, a violência não nasce ali, vem de fora. Citou como exemplo o caso do menino Eduardo, de 10 anos, que brincava com um celular na porta de casa. A polícia pensou que fosse uma arma e atirou contra o garoto.

Raull Santiago contou que a articulação do Papo Reto no caso, levou o Estado a ocupar, pela primeira vez, a posição de réu, o que gerou a devida atenção da mídia. Lembrou que na época chegou a fazer transmissão ao vivo para a Globo News, onde trabalhou por um tempo. Tal exemplo foi crucial para mostrar a importância do Coletivo Papo Reto e da mídia comunitária, apesar do processo contra os policiais ter sido arquivado. Na entrevista, o convidado também falou que a atuação em conjunto com a mídia hegemônica é válida, desde que a essência não seja perdida.

Quando questionado sobre a perda da essência contra-hegemônica no período em que trabalhou para a Globo News, o ativista explicou: “Na perspectiva de vida do Brasil, a Globo é uma empresa em que muita gente quer trabalhar. Sobre violência eu não falo, mas falo sobre positividade dentro da favela. Ao trabalhar lá, você vai ter que peitar certas situações”. O entrevistado complementou que o Papo Reto tem parceiros junto à maioria das mídias hegemônicas, citando inclusive o jornal americano The New York Times. Santiago fez questão de deixar claro que é importante manter o papel de ativista social do lugar de onde veio e se orgulha.

*Aluno do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

Levante da comunicação surge da periferia

Manuella Caputo Barreto*

 

“Não discutir drogas é que o faz a gente morrer todo dia na periferia”. A declaração é do comunicador e integrante do Coletivo Papo Reto, Raull Santiago, durante uma simulação de coletiva de imprensa. Ele foi convidado pelo Laboratório de Comunicação Crítica para falar aos alunos do curso de Comunicação Social da UFRJ. O encontro aconteceu no dia 10 de novembro, no Centro de Produção Multimídia da Escola de Comunicação da UFRJ. Entre os temas debatidos, destacaram-se comunicação, política de drogas e violência na favela.

Comunicador, ativista, rapper e poeta, Raull Santiago atua pelo coletivo desde a criação, em 2014. O Papo Reto é formado por moradores do Complexo do Alemão e da Penha, que combinam comunicação independente e ativismo para produzir notícias pela e para a favela, além de publicidade afirmativa. Trabalhando com o “vídeo como prova”, o entrevistado contou que ele e os integrantes do coletivo já foram alvo de ameaças por parte de um grupo de policiais militares, motivados pelas denúncias de violência policial feitas pelo Papo Reto.

Em 2015, a iniciativa foi tema de uma longa matéria publicada pelo jornal americano, The New York Times, nos Estados Unidos. O comunicador popular contou que esse acontecimento impactou também a mídia no Brasil, que teve a atenção de seus veículos de comunicação voltada para o coletivo. Raull Santiago tem levado sua experiência para a grande mídia, por meio do “Rolezão GloboNews”, um núcleo criado para divulgar a produção realizada pela juventude periférica brasileira.

Durante a coletiva, o entrevistado afirmou que a “guerra às drogas está para o pobre, está para o preto”. Com isso em pauta, Santiago e o coletivo Papo Reto têm trabalhado o tema da política de drogas com os jovens da periferia. O comunicador e ativista integra também o projeto “Movimentos”, lançado no início de setembro no Centro de Artes da Maré. O projeto é constituído por jovens de diversas favelas e periferias do país, que buscam debater violência, racismo, desigualdade social e a política de drogas vigente no Brasil.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

 

Ameaçado por proteger

Por Maria Clara Farias*

 

O comunicador popular e fundador do Coletivo Papo Reto, Raull Santiago, participou de simulação de coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A entrevista aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 10 de novembro, ocasião em que o convidado falou acerca das ameaças sofridas, após denunciar a violência da polícia militar nas favelas.

Nascido em 2014, o Coletivo Papo Reto, segundo seu fundador, já sabia a que veio. Raull Santigo disse que o Coletivo surgiu com o intuito de divulgar os eventos do Complexo do Alemão, conjunto formado por 16 favelas, como feiras e oficinas, construindo uma cultura afirmativa local. Explicou também que uma das principais funções era fazer comunicação de resistência, com denúncias contra a violência racial, a violência do estado e a falta de políticas públicas no complexo. De acordo com Raull Santiago, desde o início do coletivo, os moradores foram incentivados a denunciarem os crimes, utilizando vídeos para terem provas das atrocidades que viam. Observou que tais atos de violência sempre foram negados pela polícia e pelas autoridades.

Segundo o entrevistado, essa coragem e vontade de denunciar trouxeram algumas situações preocupantes. Relatou que, desde 2015, um grande número de policiais começou a persegui-lo, ameaçando sua vida e a de seus familiares. Raull Santiago contou que certo dia dois homens – que depois foram reconhecidos como policiais – apareceram na escola de seu filho, de nove anos, perguntando se o menino estudava naquela escola. Santiago afirmou ter ficado em choque após receber o telefonema da escola com o relato. Segundo ele, essa foi a ameaça mais preocupante.

Apesar das ameaças, Santiago disse que sua luta é incansável por políticas públicas no Complexo do Alemão. Finalizou a coletiva, afirmando que é nascido da guerra e não sabe o que é paz. Para o entrevistado, a ação do Coletivo Papo Reto fez com que os crimes cometidos pela polícia nas favelas começassem a ser vistos pela mídia e não fossem mais ignorados.

*Aluna do 2º período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

 

Um morador de favela que faz história

 

Pr Anelise Gonçalves*

Com tranças rastafari, camisa de um coletivo negro e um enorme sorriso no rosto. Assim se apresentou o ativista Raull Santiago, na tarde do dia 10 de novembro, convidado pelo Laboratório de Comunicação Crítica da UFRJ. A simulação de entrevista coletiva levou os estudantes a conhecerem mais sobre o trabalho do comunicador, que também escreve e compõe raps. Por meio da mediação da professora Zilda Martins, cada futuro jornalista levantou sua questão, treinando a desenvoltura em entrevistas.

Raull Santiago é morador desde a infância do Complexo do Alemão e falou sobre seu cotidiano. Disse que está engajado em diversos programas sociais e na produção de matérias para plataformas digitais. Recentemente inaugurou seu vlog no Youtube “Fala Tú”, no qual são entrevistados empreendedores, oriundos de favelas cariocas. Durante a coletiva, o comunicador popular levantou questões sobre o racismo estrutural, a pobreza e o descaso do Estado.

Ao ser questionado sobre constantes ameaças, cessou o riso. Pai de um filho pequeno, Santiago contou que já tentaram extrair informações do menino, quando estava na escolinha. O escritor e rapper falou ainda sobre as provocações policiais que sofre, agravadas após declarar em TV nacional que não gostava da Polícia Militar. Santiago relatou que já precisou ficar uma semana fora de casa porque estava cercada. Disse que sempre ao adentrar a favela, inicia uma transmissão ao vivo via Facebook, como prova caso haja algum atentado contra sua vida.

Ativista assíduo contra as mídias dominantes, o convidado também falou sobre a aparente contradição de trabalhar com a GloboNews, uma gigante no atual cenário midiático. Segundo Santiago, o panorama encontrado na emissora foi totalmente diferente do que imaginava. Disse que na emissora, se recusou a fomentar o estereótipo da favela violenta e, sim, mostrar a cultura periférica. Contou que, por meio desse veículo, foi possível estabelecer conexões, angariar patrocínio e deixar um ganho para as periferias documentadas pelo programa.

O comunicador falou ainda sobre as relações com outros movimentos internacionais, como o Black Lives Matter (Vidas negras importam), movimento negro estadunidense. Relacionou a violência policial do Rio Janeiro à ocorrida em Medellín, na Colômbia, e estabeleceu um diálogo entre movimentos de comunicação do Brasil (cariocas) e movimentos de comunicação da Palestina, que está, oficialmente, em guerra. Ao final, o convidado agradeceu a oportunidade da participação na coletiva, deixando um convite aos futuros profissionais para conhecerem melhor seu trabalho e participarem de seu engajamento.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Raull Santiago vai à luta

Por Thales Mariz*

Em entrevista com alunos da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO), o comunicador popular Raull Santiago, do coletivo Papo Reto, contou as dificuldades e a resistência de se viver e fazer comunicação no Complexo do Alemão. O entrevistado, que também é ativista contra a violência policial e pelos direitos dos moradores locais, falou sobre o cotidiano e as ferramentas usadas para denunciar o abuso das narrativas dominantes sobre a favela. Santiago foi convidado pelo Laboratório de Comunicação Crítica da ECO para simulação de coletiva de imprensa com jovens estudantes de jornalismo. O encontro ocorreu na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 10 de novembro.

O entrevistado disse que um dos objetivos do Coletivo Papo Reto é mostrar os fatos como eles são, uma realidade para além da violência revelada pela mídia tradicional. Santiago informou que uma das ferramentas usadas pelo Coletivo é um celular, por meio de vídeo-denúncia, e o conhecimento empírico de um morador nascido e criado no Alemão. Aliado ao poder das redes sociais, afirmou que vem conseguindo divulgar sua causa e o coletivo só faz crescer.

Raull Santiago lembrou que foi convidado pela GloboNews para ser repórter de favelas. Contou que anteriormente já havia falado mal da emissora, mesmo para a própria Globo, mas depois se viu lá dentro, como uma daquelas ironias da vida. Do tempo da GloboNews, relatou a experiência de conviver com jornalistas de classe média de pensamento elitizado e distantes da realidade. Disse que sua proposta era tentar desconstruir o discurso dominante sobre a favela e que ficou na emissora por um curto período, até perceber que o caminho seguido pelo canal não permitia mais falar da violência na cidade por ser ano de olimpíada.

Santiago também relatou o ativismo do Coletivo contra a opressão de policiais e que a Unidade Pacificadora de Política (UPP) já nasceu equivocada. Observou que filmar desmandos e crimes da polícia tem seu preço. Segundo o entrevistado, ele próprio e sua família, inclusive o filho pequeno na escola, já sofreram diversas ameaças. Disse que nas horas de perigo, o celular e testemunhas na rua são suas defesas. De acordo com Santiago as dificuldades não o enfraquecem, nem o afastam de seus ideais e sua luta por mais direitos e menos opressão para os moradores do Alemão. Ao concluir a coletiva, mostrou uma tatuagem no braço direito que diz ‘Acredite’. Contou que sempre que passa por momentos de dificuldade, olha para a tatuagem como fonte de inspiração e ganha força para seguir em frente na luta.

*Aluno do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Má formação de repórteres alia-se a estereótipo, diz jornalista

Da periferia à zona sul do Rio, Flávia Oliveira circula com desenvoltura e afirma que a vivência amplia o olhar do jornalista no dia a dia da profissão. Essa realidade foi apresentada aos estudantes do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da UFRJ, durante entrevista coletiva. A jornalista criticou a formação de alguns repórteres, ao dizer que estes usam de estereótipos e aprofundam o racismo na sociedade, muitas vezes por ignorância. Da macroeconomia à desigualdade social e racial, Flávia Oliveira despertou o interesse dos alunos durante a coletiva. O laboratório de Comunicação Crítica é uma atividade do LECC – Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária e trabalha com a interação entre teoria e prática.

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Da margem ao centro: os muros impostos à periferia

Bruna Vilar*

A jornalista e comentarista do “Estúdio i”, da Globo News, Flávia Oliveira foi a primeira convidada do Laboratório de Comunicação Crítica da ECO/UFRJ para a simulação de entrevista coletiva. O encontro se deu no dia 5 de maio de 2017 na Central de Produção Multimídia (CPM/UFRJ), localizada no campus da Praia Vermelha. Dentre os assuntos abordados na coletiva, a entrevistada destacou o impacto das desigualdades sociais e raciais no crescimento profissional de populações periféricas a partir de experiências pessoais.

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Flávia se especializou em economia e indicadores sociais. Em 1992, estreou na imprensa como repórter do “Jornal do Commércio” e, dois anos depois, começou a trabalhar no jornal “O Globo”. Atualmente, a entrevistada é titular de uma coluna sobre temas sociais na editoria “Sociedade”, comentarista de economia do “Estúdio i” e apresentadora do programa “TED Compartilhando Ideais”, do Canal Futura.

Ao narrar a trajetória pessoal, Flávia apontou a precariedade dos serviços públicos oferecidos nas zonas mais carentes da cidade, com ênfase na segregação do ensino público. De Irajá, um bairro situado no subúrbio do Rio de Janeiro, a entrevistada contou que viu de perto os obstáculos resultantes da ausência governamental na periferia. Para a jornalista, enquanto alunos de áreas nobres têm acesso às melhores instituições, moradores de favelas e subúrbios são submetidos a uma educação de qualidade inferior, carente de investimentos.

Flavia afirmou, ainda, que a falta de oportunidades profissionais para as populações carentes é um sério problema no Brasil, um país extremamente desigual e desinteressado. Segundo a jornalista, esse fator compromete o desenvolvimento das potencialidades de crianças e de adolescentes pobres, privando-os do conhecimento de suas reais capacidades e leques de escolha. “O horizonte que te oferecem é muito estreito. Não é miragem, é muro”, concluiu a entrevistada.

* Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Flávia Oliveira: a exceção da juventude carioca

Beatriz Carneiro*

A turma do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), teve a oportunidade de fazer uma entrevista coletiva com a jornalista Flávia Oliveira. O encontro aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 5 de maio. Conhecida pela trajetória acadêmica e profissional, Flávia formou-se em jornalismo no Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (IACS/UFF) e é técnica em estatística pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence). Ingressou no jornalismo como repórter do Jornal do Commercio, é colunista do jornal O Globo e comentarista do Estúdio i, na GloboNews.

Apesar da notoriedade da carreira, Flávia preferiu enfatizar sua vivência durante a entrevista, dando aos alunos uma aula de comunicação crítica. Através do relato pessoal é possível enxergar, segundo ela, a realidade da maioria dos jovens cariocas ou mesmo brasileiros. Flávia – mulher negra nascida em Irajá – relatou a criação humilde, marcada pela ausência do pai e figura forte da mãe, uma realidade da juventude carente de oportunidades e perspectivas.

Em dado momento da entrevista, alegou nunca ter cogitado ser jornalista até entrar na Ence e se relacionar com pessoas de classes sociais mais altas, ampliando a perspectiva de futuro. Segundo Flávia, muitos jovens do subúrbio nascem com horizontes estreitos, afunilados pelas dificuldades financeiras e familiares. De acordo com a convidada, isso pode resultar no abandono dos estudos para ajudar na economia e vida domésticas. Ainda assim, fez questão de citar a solidariedade e sororidade existentes no subúrbio, expondo a formação de verdadeiras redes de afeto entre mulheres que se ajudam e fortalecem umas as outras – desmistificando o senso comum de um cenário hostil.

Ao longo da entrevista, Flávia levantou questões que, segundo ela, são o câncer da sociedade brasileira – como assédio e racismo. Além de fazer parte das estatísticas no quesito assédio de mulheres, “a ideia de uma negra morar no bairro da Lagoa (zona sul do Rio de Janeiro – RJ) soa incompatível para a nossa sociedade”. A jornalista encerrou falando sobre a dedicação ao ativismo, principalmente nas pautas de feminismo e enfrentamento da discriminação racial. Ressaltou ainda a importância da representatividade negra e feminina na conscientização social dessas questões – enfatizando a necessidade da formação crítica dos comunicadores.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

“O povo negro precisa estar vivo”, manifesta jornalista

Catarina Lencioni*

A jornalista e colunista especializada em Economia e Indicadores Sociais, Flávia Oliveira, concedeu entrevista aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO). Espontânea e desinibida, a entrevistada explicou como a vida pessoal e profissional a transformaram em referência no jornalismo econômico. Flávia também falou sobre a reforma da previdência e os impactos no IDH no Brasil. A coletiva aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, dia 5 de maio.

Flávia contou que a jornada era longa e intensa. Nascida em Irajá, subúrbio do Rio, disse que desde cedo era comprometida com os estudos. Orgulho da mãe, ingressou na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) aos 15 anos. E foi lá que se deu conta de que deveria ser jornalista, apesar da falta de oportunidades comuns na periferia. “O horizonte que te apresentam é estreito. Não é miragem, é muro.”

Formada pela Universidade Federal Fluminense, a jornalista começou a trabalhar com economia devido à formação matemática. Logo depois foi para o Jornal do Comércio. Flávia relembra que entrou no Globo em 1994 para correlacionar números frios do IBGE com a realidade sociológica e viu o primeiro computador chegar dois anos depois (1996) no setor econômico da rede. Em 2008, estreou na TV como comentarista e permaneceu até 2015. No ano passado, apresentou cinco programas de Espelho, de Lázaro Ramos, no Canal Brasil e participou como comentarista de economia e comportamento no TV Mulher, com Marília Gabriela, no Canal Viva.

Quando questionada sobre a demissão da Rede Globo e as ocupações atuais na rede, se havia divergências ideológicas, Flávia se orgulha: “É meu quilombo, ninguém ocupa, eu só falo o que quero.” Hoje, é comentarista na Globonews, na rádio CBN e escreve em coluna semanal no Globo. “Tudo que eu escrevo eu penso, mas nem tudo que eu penso eu falo”, confessou. A jornalista também é conselheira do “Instituto Coca-cola”, voluntária na ONG “Uma gota no oceano” e membro da anistia do Brasil.

Flávia se identifica com o forte ativismo nas agendas de pobreza e diversidade e acredita que chegou ao ápice da carreira como profissional e mulher negra, denunciando a estrutura racista, patriarcal e machista da sociedade em geral e da comunicação e particular. “Onde eu cheguei, foi sem trair um milímetro as minhas crenças, convicções, meu caráter, minha identidade de gênero, minha cor. Eu sempre fui uma mulher negra do subúrbio em nome de ascensão profissional e cobrando respeito”. A entrevistada declarou que representatividade importa, sim, e que o povo negro precisa estar vivo para garantir direitos, conquistar novos patamares e não ser sub-representado e estereotipado por repórteres mal preparados. “Ninguém me pergunta qual minha banda preferida”, lamentou. Diz também que, diversidade é rentável e potencializa a riqueza social.

Sobre a reforma da previdência, o atual IDH e a desigualdade no Brasil, Flávia resumiu que o conjunto de medidas fazem sentido para quem está no planalto e olha o país do alto. Segundo a jonrnalista, flexibilizar na aguda recessão econômica é precarizar as condições de trabalho, penalizando as classes desfavorecidas. Mesmo com um PIB de 1,4 bi, o país ocupa o 79º lugar no ranking de desenvolvimento humano, com 0,777, caindo a primeira vez desde 2004, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A especialista afirmou que pretos e pardos somam 54% da população, mas são 75% mais pobres e não chegam a um quinto dos mais ricos, segundo cálculos do IBGE. A explicação dada pela jornalista é que, apesar da estrutura sofisticada do Brasil em produzir riqueza, o país é governado por uma elite interessada em explorar mão de obra e recursos naturais. “É inaceitável tanta desigualdade”, finalizou.

* Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Não cabe no dicionário

Flávia Oliveira e a dificuldade de defini-la apenas como uma excelente jornalista

Bárbara Martins*

Cada palavra da jornalista Flávia Oliveira sobre sua vida pessoal torna quem a escuta um pouco mais consciente do que é ser humano. Convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica da ECO-UFRJ para uma simulação de entrevista coletiva, dia 5 de maio, a comentarista do telejornal Estúdio i, colunista do jornal O Globo e do programa CBN Rio da Rádio CBN, Flávia contou aos estudantes da Escola de Comunicação da UFRJ um pouco da trajetória pessoal até se tornar o símbolo de resistência que é hoje.

Criada no subúrbio do Rio de Janeiro, ex-aluna de escola estadual e filha única de sua mãe datilógrafa, Flávia se tornou o retrato daquilo que inspira e apoia: o empoderamento da mulher negra e periférica. Para a colunista, a posição que ocupa no ativismo e na carreira jornalística a afirmam como uma das mulheres fortes de sua “linhagem”, citou com muito orgulho durante a entrevista.

De acordo com Flávia, a mãe, maior incentivadora de sua educação, ouviu de uma professora do ensino fundamental de Flávia que a menina era muito inteligente para estudar numa escola com condições precárias. Contou que naquele momento sua história de vida tomou um novo rumo. Foi matriculada em escola estadual melhor conceituada e teve acesso a um ensino que a capacitou para estudar na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), onde se formou como técnica em Estatística. A entrevistada acrescentou que na Ence teve contato com pessoas encorajadas a serem o que quisessem ser e não o que estereótipos de classe e de gênero as limitavam.

Flávia alertou que longe de ser um exemplo meritocrático, chegar onde chegou infelizmente foi uma exceção à regra, considerando sua realidade. Disse que as redes de solidariedade dos subúrbios foram importantes na formação pessoal, mas são indícios da falta de assistência do Estado em prol dessas populações. Sendo negra a grande parte dessa população, a jornalista chamou atenção para o notável “compromisso [das pessoas negras] em se manterem vivas” mesmo com todos os percalços para viver dignamente.

Flávia Oliveira também é mãe, adora cantar, ama viajar e tem no candomblé sua fé estabelecida. “Visibilidade me traz axé”, disse ao explicar a importância de ocupar o lugar no qual está hoje em sua carreira. O quarto só dela que sempre foi um sonho, mas o qual acabou dividindo com mais alguém durante a vida inteira, foi transposto por suas colunas no jornal e no rádio – as quais, em suas palavras, são seus próprios quilombos; sua resistência. Ela encerra a simulação dizendo que o jornalismo não-convencional é a saída e que a interseccionalização é a chave para a união da esquerda. E, depois de tudo, o possível a se fazer quando se encontra uma pessoa como Flávia, é simplesmente escutar e aprender.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

“A nação é ancorada em privilégios”, afirma jornalista

Raiane Cardoso*

Jornalista pela Universidade Federal Fluminense (UFF), especializada em economia e indicadores sociais, nascida e criada no bairro de Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, Flávia Oliveira de Fraga, ou apenas Flávia Oliveira, participou de entrevista coletiva na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 5 de maio. Convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ), a jornalista falou sobre sua vida, trajetória e desafios, sobretudo sendo uma mulher negra vinda do subúrbio e um produto do ensino público brasileiro.

Fruto de um relacionamento ruim de um pai controverso, que a abandonou aos oito anos, e de uma mãe rígida e provedora da casa, Flávia disse que faz parte de uma “linhagem de mulheres muito fortes”. “Minha mãe era uma mulher forte e eu fui criada para ser uma mulher forte e independente, minha trajetória nunca foi moldada para ser a mulher de alguém, a esposa e mãe.” Contou que a mãe era rígida e obcecada por educação, o que fez toda a diferença em sua trajetória. “Ela era a mãe de miss da escolaridade, a grande frustração dela foi não ter podido estudar, então projetou isso em mim de uma forma até cruel”.

Flávia fez o ensino médio na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), onde se formou técnica em estatística. Com o estudo no Ence e o convívio com pessoas de classes sociais mais favorecidas, o desejo de fazer o ensino superior foi despertado, contou a jornalista. Explicou que foi a partir de um estágio no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que o Jornalismo virou uma opção.

Reconhece a dificuldade da maioria das pessoas sem condição de oferecer aos filhos uma boa educação. “Falta de oportunidade é uma coisa muito séria, porque quando não se tem, nem se sabe do que é capaz, possíveis escolhas não aparecem no leque de possibilidades”, argumentou. A jornalista começou a carreira como estagiária em assessoria de imprensa, seguindo depois para o Jornal do Comércio e para o Jornal O Globo. Flávia é comentarista no programa “Estúdio i” da Globo News, desde 2008, e colunista da Rádio CBN, no programa “CBN Rio”.

A entrevistada disse saber que chegou além do esperado em sua carreira. Afirmou que alcançou esse lugar sem negar ou trair seus princípios e sua história. “Em nenhum momento da minha trajetória eu neguei a minha origem, a minha raça, a condição feminina, a exigência por dignidade na profissão em nome de ascensão profissional. Onde quer que eu tenha chegado, cheguei sendo mulher negra de Irajá e cobrando respeito por isso. (…) Eu não cedi um milímetro em ser quem eu sou.” Questionada sobre o Rio de Janeiro apresentar, ao mesmo tempo, índice de IDH alto e grande falta de igualdade, qual seria a razão para isso, a jornalista respondeu que é inaceitável ainda tanta desigualdade nos dias de hoje. Explicou ser compreensível devido ao processo histórico do país, que foi forjado desde o inicio com a elite interessada em explorar mão e obra e os recursos naturais. “Nunca foi interesse do Brasil criar um ambiente de igualdade e de oportunidades, é uma nação ancorada em privilégios”.

Com relação ao futuro, Flávia disse que já fez bastante coisa, mas que deseja ser ouvida, ouvir e acompanhar a nova geração, na qual tem muita esperança. “Do ponto de vista pessoal, eu sou feliz. Quero ter neta, quero viajar mais, quero conhecer mais gente, fazer aula de canto. (…) Posso me dar ao luxo de dizer que sou, do ponto de vista profissional, realizada. Não reclamo muito da vida.”

Flávia fez ressalvas. “Minha vida não é só mar de rosas, me sinto muito sozinha, fazer esse caminho de mobilidade social tem um dado de sofrimento que é muito grande. Você deixa de alguma forma de pertencer a sua origem e jamais pertence totalmente ao destino. Eu sou uma jornalista rica da Lagoa em Irajá e uma mulher negra suburbana na Lagoa. Você não é nunca mais o que você foi e nunca será totalmente o que você se tornou”, concluiu.

*Aluna do 3º período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Flávia Oliveira e a manifestação do Realismo Fantástico

Giulia Alves Ribeiro*

A trajetória de mobilidade social da premiada jornalista Flávia Oliveira revela uma realidade alcançada por poucos. Colunista do jornal O Globo, comentarista do programa Estúdio i (GloboNews), da Rádio CBN e apresentadora do programa “TED – Compartilhando Ideias” do Canal Futura, Flávia contou como o passado de uma mulher negra do bairro Irajá moldou a vida de uma jornalista de sucesso. A conversa aconteceu durante coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, na Central de Produção Multimídia (CPM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sexta-feira 5 de maio.

Flávia graduou-se pelo Instituto de Artes e Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense (IACS/UFF), em 1993, e ingressou na carreira jornalística como repórter do Jornal do Commercio. Segundo a entrevistada, o apoio incondicional da mãe, que prezava pela educação, e o colégio onde teve a oportunidade de formar-se técnica em estatística, a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), foram fundamentais na sua caminhada.

Atual integrante dos conselhos consultivos na Anistia Internacional Brasil e na ONG Uma Gota no Oceano, a especialista em economia e indicadores sociais traçou duras críticas aos projetos de austeridade do presidente Michel Temer. Para a jornalista, propor a flexibilização das leis trabalhistas, em momento de aguda recessão econômica, significa condenar quem vende mão-de- obra a ter muito menos capacidade de barganha. Já a respeito da reforma da previdência, afirmou: “É desumano. Despreza desigualdades estruturais que são absolutamente relevantes”.

Flávia, que é ativista das agendas de pobreza, desigualdade, racismo e machismo, afirmou nunca ter abandonado os ideais durante a carreira: “Eu não cedi um milímetro”. Apesar do panorama de precarizações, a jornalista disse ainda ter esperança em reverter um projeto de Brasil que nunca buscou criar um ambiente de igualdade. “Quando você não tem oportunidade, você nem sabe do que é capaz. O horizonte que te oferecem é muito restrito: não é miragem, é muro”.

Em um país onde o ensino superior é composto em grande parte por mulheres brancas, com forte defasagem para as mulheres negras, Flávia revela um conto que está longe de ser a regra. Construir um futuro em que as trajetórias de luta “absolutamente banais”, de tantas mulheres periféricas brasileiras possam deixar de ser a exceção, significa transformar histórias de realismo fantástico em realidade.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ.

Como o IDH diz pouco sobre a desigualdade social

Isaque Ferreira*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu entrevista aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da Escola de Comunicação da UFRJ. A uma simulação de coletiva ocorreu na Central de Produção Multimídia (CPM/UFRJ), dia 5 de maio de 2017. Flávia é colunista do jornal O Globo e do programa “CBN Rio”, da Rádio CBN, além de comentarista do Estúdio i, da GloboNews. Durante a atividade, além de abordar questões sobre educação, diversidade e experiência de vida, a jornalista falou sobre a situação socioeconômica da cidade do Rio de Janeiro, a contradição do IDH, e de como as medidas de austeridade podem afetar a vida do cidadão carioca.

Flávia relatou a história de vida, passando desde as dificuldades na infância, até os momentos de superação na vida profissional. Enfatizando que foi formada por uma educação pública, a jornalista que atua em setores da economia, política e representatividade, tem como característica o forte posicionamento acerca da desigualdade social, considerado por ela como o grande mal da sociedade brasileira.

A entrevistada integrou de 2011 a 2016 o Conselho da Cidade do Rio de Janeiro, momento em que o município passou a figurar entre os maiores IDH do Brasil. Segundo o site Atlas do Desenvolvimento Humano, o Rio ficou em 45º lugar, entre os mais de 5000 municípios brasileiros. Mesmo com todo o desenvolvimento econômico durante esse período, a cidade apresenta uma visível desigualdade social. Quando questionada sobre essa aparente contradição, Flávia Oliveira explicou: “A nossa sociedade não tem nenhum problema em produzir riqueza, mas ao mesmo tempo é capaz de conviver com metade da população sem esgoto.”

Para a jornalista, a profunda diferença de produção e distribuição de riqueza é inaceitável, mas justifica. “É absolutamente compreensível se você pensar no processo histórico. Falamos de um país que foi forjado com uma elite interessada em explorar mão de obra e recursos naturais, ancorada em privilégios, que vive muito bem ao lado de uma população condenada à carência de todo tipo de ofertas de serviços públicos. Nunca existiu o interesse em criar um ambiente de igualdade e oportunidade para todos”.

Se o contexto histórico já reforça a desigualdade social no presente, os ajustes fiscais promovidos pelo governo federal e estadual podem agravar ainda mais esse problema no futuro. Para a jornalista, o congelamento no orçamento público que essas medidas propõem aumenta o risco de precarização em diversos setores que a população mais pobre depende. “Existe uma grande demanda da população para a melhoria dos serviços públicos, o que implicaria maior investimento, enquanto a proposta do governo é justamente limitar os gastos nesses setores. Esses ajustes, ao desprezar desigualdades estruturais na sociedade brasileira, assume um caráter desumano, prejudicando os menos favorecidos”.

*Aluno do 2° período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

De Irajá à projeção nacional

Juliana Pereira Salles*

Jornalista, apresentadora, comentarista, palestrante e mulher negra, como se identifica, Flávia Oliveira foi convidada pelo Laboratório de Comunicação Crítica para simular uma coletiva aos alunos da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). A entrevista aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 05 de maio de 2017, momento em que Flávia compartilhou um pouco de sua infância, além da trajetória pessoal e profissional.

Apesar de fazer parte de uma história quase padrão da mulher negra brasileira – abandono do pai, poucas oportunidades e dificuldade de inserção em determinados ambientes -, a jornalista relatou uma experiência de mobilidade social, mas reconheceu que isso representa uma parcela, ainda pequena, da população pobre.

De acordo com a entrevistada, que disse ter vindo de uma “linhagem de mulheres fortes”, o pulso firme e o apoio incondicional da mãe foram importantes para que aprendesse a valorizar a educação e começasse a trilhar seu caminho. Inicialmente, Flávia formou-se técnica em estatística na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), e depois em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Hoje é colunista do jornal O Globo, comentarista dos programas “CBN Rio” (Rádio CBN) e do “Estúdio i” (GloboNews). Recentemente estreou como apresentadora do programa “TED – Compartilhando Ideias”, que vai ao ar todas as quintas, às 23h, no Canal Futura.

Além disso, a jornalista é ativista social em questões que tangem os direitos da mulher, o racismo e os direitos humanos. É membro dos conselhos consultivos na Anistia Internacional Brasil e da ONG Uma Gota no Oceano e já ganhou prêmios como o “Jornalismo para Tolerância” (2013), da Federação Internacional de Jornalistas, pela coedição do suplemento A Cor do Brasil, sobre desigualdade racial.

A convidada narrou que durante sua jornada, apesar de ter sofrido com racismo e assédio, nunca abandonou as convicções e a identidade para se integrar ao status-quo. “Eu não cedi um milímetro”, disse. “E se eu fosse um homem branco será que minha trajetória seria diferente? Talvez. Só sei que para uma mulher negra do subúrbio de Irajá eu cheguei muito longe e não neguei quem eu sou em nome de ascensão profissional”, completou.

*Aluna do 2° período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Jornalista critica a não diversidade na mídia

Júlio Cesar Chiarelli*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu entrevista coletiva aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O encontro foi realizado na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 5 de maio. Flávia é comentarista do programa “Estúdio i” na Globo News, colunista do jornal “O Globo” e apresentadora do programa “Ted”, no Canal Futura. Durante a entrevista, Flávia exemplificou com a própria história determinadas características ainda persistentes não somente na profissão, mas na sociedade brasileira como um todo.

Nascida em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, a jornalista contou que vivia num apartamento de quarta e sala com a família. Foi abandonada pelo pai ainda criança, mas teve o suporte da mãe que, a fim de garantir os estudos e um futuro melhor para a filha, trabalhava o dia inteiro. Flávia lembrou quando um membro da família recomendou a ela prestar concurso para o posto de trocadora no metrô. Disse que se sentiu frustrada, não porque tivesse algum desrespeito pela profissão, mas sim por ter o sonho de cursar uma faculdade, e não se contentar com as barreiras sociais impostas.

Sempre estudou em instituições públicas perto de casa, mas quando passou para a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), o local era longe e passou a depender ainda mais de si mesma para realizar os sonhos. Flávia contou que nessa escola conviveu com pessoas de classes sociais mais elevadas, momento em que percebeu a fundo a desigualdade social brasileira, experiência que carrega até hoje no trabalho. Segundo a jornalista, o conhecimento estatístico adquirido na Ence foi fundamental para que tivesse destaque no âmbito do jornalismo econômico, porque tinha facilidade em trabalhar com números e analisar estatísticas.

Flávia disse que na primeira tentativa de ingresso numa universidade de jornalismo, passou para a Gama Filho, mas como não podia bancá-la, tentou mais um ano. Nesse período, relembra que teve novamente o apoio da mãe, que ao contrário do que acontece normalmente mandar os jovens arranjarem emprego para auxiliar nas despesas da casa, deu a ela mais uma chance. A confiança na filha deu certo e, na segunda tentativa, Flávia passou para a Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo a jornalista, essa foi uma experiência única, pois pela primeira vez sentiu-se valorizada pelas qualidades que apresentava, e não pela cor de pele ou camada social.

Sobre o trabalho, Flávia criticou a falta de diversidade no jornalismo e se disse incomodada com a pequena quantidade de pessoas negras escaladas para tratarem de assuntos como moda, política ou economia. Falou de racismo e relatou uma experiência pessoal de quando lhe pediram para alisar o cabelo quando fosse aparecer na televisão. Disse que rejeitou o pedido, num ato de defesa à identidade. Encerrou a entrevista com a convicção não só profissional, mas também da vida, de sempre defender os ideais e não aceitar imposições unilaterais, principalmente, preconceituosas.

*Aluno do 2º período do Curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Desigualdade no Acesso à Educação

A jornalista Flávia Oliveira conta como o acesso à educação no Brasil
ainda é assimétrico e privilégio para poucos

Larissa Infante*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu entrevista coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica, da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO), na Central de Produção de Multimídia (CPM). O encontro ocorreu dia 5 de maio e, dentre os temas abordados, a desigualdade no acesso à educação, especialmente nos bairros mais afastados e carentes do Rio de Janeiro, foi assunto recorrente. A jornalista disse ter, ela própria, enfrentado essa realidade e conhecer bem os desafios impostos aos jovens economicamente desfavorecidos para obter uma formação de qualidade.

Flávia formou-se em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e ingressou no setor de economia a partir do Jornal do Commércio. Atualmente é colunista do jornal O Globo, comentarista econômica da rádio CBN Rio, comentarista do telejornal Estúdio I, da Globo News e apresentadora do programa Ted: Compartilhando Ideias, do Canal Futura. A jornalista também é conselheira do Instituto Coca Cola, membro dos conselhos consultivos da Anistia Internacional Brasil e da ONG Uma Gota no Oceano, além de ativista negra e feminista.

Flávia nasceu em Irajá, subúrbio carioca, e contou que a mãe saía muito cedo para trabalhar, situação comum enfrentada por moradores de bairros onde há escassez de recursos. Mas disse que isso não é tudo. Ressaltou ser justamente nesses lugares onde se formam redes de solidariedade, nas quais pessoas se ajudam mutuamente. “Ainda que o subúrbio seja visto como um território de ausência, há muitas coisas lá, como a sororidade, a solidariedade e a ajuda mútua. Mas quem olha de cima, só vê carência”. Segundo a jornalista, outra situação corriqueira é o abandono dos jovens por parte dos pais. Sem opção, os adolescentes são obrigados a deixar os estudos para cuidar dos irmãos ou para trabalhar e ajudar em casa.

Flávia relatou que, apesar de ter passado pela situação de abandono por parte do pai, teve mais sorte. A diferença, disse, foi o fato de ser filha única e de sempre ter sido muito estimulada pela mãe a continuar estudando. Com isso, conseguiu fazer o ensino médio na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), onde passou a conviver com pessoas de classe média. Contou que teve a oportunidade de conhecer outras perspectivas do mundo acadêmico e de experimentar um ensino de qualidade. Para Flávia, a falta de oportunidade é um sério problema. “Não há como conhecer um futuro diferente sem saber das oportunidades existentes e dos limites onde se pode chegar.”

De acordo com a entrevistada, o Brasil está entre os 10 maiores PIB’s do mundo, mas mesmo assim encontra-se em uma das últimas posições em desenvolvimento humano. Isso demonstra uma brutal desigualdade de acesso, especialmente entre bairros ricos e subúrbios das grandes cidades. Flávia concluiu a entrevista dizendo que muito ainda precisa ser feito para que haja igualdade no acesso à educação. Para ela, as redes sociais podem ser um dos modos de fazer ouvir a voz de pessoas socialmente excluídas. E demonstrou esperança nas novas gerações, em uma juventude para a qual o país será entregue nos próximos anos.

* Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Jornalista relata vivência com o racismo

Marcos Vinícius Lisboa da Silva*

A jornalista Flávia Oliveira foi convidada pelo Laboratório de Comunicação Critica da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO) para falar aos alunos do ciclo básico. O encontro aconteceu na Central de Produção Multimídia (CPM), dia 5 de maio, momento em que a jornalista contou um pouco da história pessoal, da trajetória de 25 anos de profissão e da experiência enquanto mulher negra.

Jornalista, mãe, esposa, filha de Yemanjá, ativista, mulher e negra, Flávia nasceu em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro. Contou que foi criada pela mãe divorciada, com poucos recursos, e estudou em instituições públicas, como a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), onde formou-se em jornalismo. Começou a trabalhar como repórter no Jornal do Commercio em 1992 e ingressou no jornal O Globo em 1994. Atualmente, Flávia escreve uma coluna em O Globo e comenta sobre economia no Estúdio i da Globo News.

Ainda na época do vestibular, Flávia afirmou que esbarrou com o racismo. “Jornalismo é carreira para moças ricas e bonitas”, ouviu do vizinho ao contar que gostaria de fazer faculdade. Não era a primeira nem seria a última vez que a jornalista enfrentaria o racismo e discriminações raciais em sua atividade profissional. “Não sou convidada para as festas da empresa”, disse. Questionada se em algum momento havia sido censurada por questões de diferenças ideológicas, declarou: “Nunca, diretamente. Mas agora na minha coluna tenho muito mais liberdade. Posso falar o que eu quiser. Minha coluna é o meu quilombo.”

A especialista em economia também falou sobre os estereótipos impostos às pessoas negras pela mídia. Segundo ela, os negros são sempre tratados da mesma forma, como sujeitos-problema ou à margem da sociedade: “Nunca entrevistam um doutor em direito penal negro, por exemplo. Isso é resultado de uma má formação dos repórteres”, criticou. Flávia declarou que também sofre com a estereotipização. “Nunca perguntam qual minha loja de sapatos favorita”, comentou sobre as entrevistas que concede. A jornalista ressaltou também a importância da representatividade para as minorias: “O espaço que eu ocupo é relevante para as pessoas que eu represento”, concluiu.

Com mais tempo livre atualmente, Flávia se dedica a novos projetos: é membro dos conselhos consultivos na Anistia Internacional Brasil e da ONG Uma Gota no Oceano e apresentadora da segunda temporada do TED Compartilhando Ideias no canal Futura.

* Aluno do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Quando o cotidiano ganha voz

Marília Garcia*

Em coletiva de imprensa, simulada na Central de Produção Multimídia (CPM) para os alunos da Escola de Comunicação (ECO/ UFRJ), sexta-feira, 5 de maio, a jornalista Flávia Oliveira contou um pouco sobre a trajetória de vida pessoal e profissional. Como uma mulher negra, de 47 anos, criada na Zona Norte do Rio de Janeiro, Flávia disse fazer parte de uma “linhagem” feminina comprometida, desde o início, com a sobrevivência em sociedade. Criada até os oito anos pelos pais em um conjunto habitacional no Irajá, participou de um ambiente familiar que por muito tempo mostrou-se conturbado.

Contou que a mãe, uma mulher negra, nascida no recôncavo baiano, era a principal provedora da casa e sempre pareceu emocionalmente distante. As responsabilidades e a dupla jornada da mãe viriam a reforçar a cobrança e as dificuldades que fariam parte da vida de ambas. A entrevistada contou também que a mãe era obcecada por educação e muito exigente em relação aos estudos.

Disse que estudou durante toda a vida em escolas públicas e, posteriormente no ensino médio, fez o curso técnico em estatísticas na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), instituição federal. Afirmou que a convivência com os amigos de classe média foi essencial para abrir horizontes de possibilidades. "A falta de oportunidade é uma coisa muito séria (…) você não sabe do que é capaz”.

Hoje, ativista ligada a diversas questões sociais, Flávia acredita que simboliza uma vitória para muitos grupos. Enxerga sua trajetória como a de muitas outras mulheres negras pelo Brasil, que tiveram mães igualmente abandonadas e obrigadas a criarem os filhos de maneira rígida, devido às dificuldades. Apesar de cotidianas, Flávia relembra que essas histórias raramente ganham voz e diante disso, enxerga-se como exceção.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/ UFRJ.

“O horizonte que te oferecem é muito estreito. Não é miragem. É muro”

Roanna Azevedo*

A jornalista Flávia Oliveira concedeu a primeira entrevista coletiva para os estudantes do Laboratório de Comunicação Crítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Colunista de temas sociais no jornal O Globo e comentarista de economia do programa “Estúdio i”, da Globo News, Flávia explicou aos alunos como a realidade social e econômica em que está inserida impactaram sua trajetória profissional. O encontro aconteceu na sala de editoração da Central de Produção Multimídia (CPM) da Escola de Comunicação da UFRJ, dia 5 de maio de 2017.

Cria de instituições públicas de ensino, a jornalista relembrou a defasagem educacional a que estão submetidos alunos periféricos. Disse ter sido somente na Escola Nacional e Ciências Estatísticas (Ence), onde concluiu o ensino médio, que adquiriu o gosto pela economia e teve contato com pessoas de outras classes sociais. Segundo a entrevistada, esse convívio impulsionou seu desejo por fazer um curso superior, o que a fez ingressar na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Flávia contou que sua história se assemelha a de outras mulheres negras brasileiras, também criadas sem referência masculina, tendo na figura da mãe a principal fonte de segurança, nutrição, investimento e “quando sobra tempo, afeto”. Mas, como destacou a jornalista, o que diferenciou sua história dos arranjos familiares das demais foi a conquista da mobilidade social, estimulada pelo fato de ser filha única e pela obsessão da mãe por educação.

“Quando você está na periferia, num país que é extremamente desigual e desinteressado no potencial das pessoas, você não sabe [do que é capaz]”, comentou Flávia, natural de Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, sobre a escassez de oportunidades dos estudantes de classes mais pobres. “Várias amigas da minha mãe me mandavam folhetos de concursos para ser bilheteira do metrô. O horizonte que te oferecem é muito estreito. Não é miragem. É muro”. Questionada sobre as relações raciais no país, a jornalista constatou que o extermínio de jovens negros é a mais grave crise nacional. Para ela, a sociedade brasileira é profundamente racista e desigual, o que provoca um estreitamento das perspectivas de melhoria de vida da população negra.

*Aluna do 3º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

Flávia Oliveira passa do subúrbio carioca ao jornalismo econômico

*Vitor Grama Oswaldino

A jornalista e comentarista Flávia Oliveira concedeu entrevista coletiva aos alunos da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ) na  sexta-feira, 5 de maio. Flávia começou a entrevista falando sobre vida pessoal e a trajetória como jornalista, contando desde o relacionamento com o pai até as dificuldades enquanto jornalista negra. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e técnica em Estatística pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), Flávia compartilhou vivências com os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica.

A convidada afirmou que considera a própria história banal e corriqueira. Explicou que foi criada pela mãe, sem referências masculinas, algo que para ela, representa a realidade brasileira. Segundo a jornalista, a diferença da sua história com relação às demais famílias brasileiras da periferia foi o arranjo familiar. Disse ser filha única e por isso não precisou criar nenhum irmão, possibilitando a continuação dos estudos.

O ingresso na Ence, escola federal vinculada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de acordo com a jornalista, possibilitou interações sociais com pessoas de maior poder aquisitivo, o que a incentivou a cursar uma universidade pública federal. Conhecida por ser comentarista de economia, Flávia atribui a estatística o conhecimento econômico.

Contou que a decisão de tornar-se jornalista aconteceu por acidente. Certa vez uma amiga ficou impressionada com seu conhecimento e a aconselhou a ser jornalista. Decidiu prestar vestibular e na segunda tentativa ingressou na Universidade Federal Fluminense (UFF). Depois de passar por assessoria de imprensa, foi trabalhar no Jornal do Commércio, onde ficou por dois anos.

Flávia começou no Jornal O Globo em 1994 como repórter, e contou que a primeira matéria foi sobre a entrega do imposto de renda, o que a fez se apaixonar por macroeconomia. Na televisão desde 2008, trabalhou no Estúdio i, da Globo News, programa no qual está até hoje. Entrou na CBN e escreve uma vez por semana no Jornal O Globo. A entrevistada se considera uma ativista em questões sobre femininos, racismo e pobreza, tendo a militância sustentada através do jornalismo.

Flávia declarou que ministra palestras no setor privado sobre tendências macroeconômicas e sobre questões raciais, sobretudo em maio e novembro, devido à abolição da escravidão e o Dia da Consciência Negra. A jornalista afirmou que é aprisionada nos debates em questões raciais em certos calendários, porém, para ela, qualquer espaço de fala vale a pena. Ao responder perguntas dos estudantes, a jornalista comentou sobre a questão da desigualdade no Rio de Janeiro e como a população negra é dizimada. Ao ser indagada sobre as barreiras de trabalhar no Jornal O Globo, a jornalista foi clara: “Minha coluna é o meu quilombo, eu que decido o que vou falar”.

*Aluno do 2º período do Curso de Comunicação Social (ECO/UFRJ)

Representatividade na mídia e justiça social

Sarah Ferragoni*

A importância e o contexto atual da representatividade de grupos minoritários na mídia foi o principal assunto tratado pela jornalista Flávia Oliveira, durante entrevista coletiva na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). A comentarista de economia do programa “Estúdio i” do GloboNews se reuniu com os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica no dia 5 de maio de 2017 na Central de Produção Multimídia (CPM).

Flávia, graduada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e colunista do jornal O Globo, apontou o problema de invisibilidade da população negra na mídia.”Nós somos sub-representados e, pior, estereotipados no noticiário”, disse a jornalista, sobre a maneira como os negros são retratados na imprensa.”As representações não dão conta do patamar que um número significativo de negros atingiu na sociedade brasileira”.

A comentarista mencionou o quão problemático é o fato de a representatividade não ser buscada pelos próprios jornalistas. “A gente não tem formação que valorize a diversidade”, disse, ao fazer referência ao preparo dos profissionais de comunicação. Flávia destacou que a visão estereotipada é reforçada em noticiários quando negros são chamados, por exemplo, apenas para discutir sobre questões raciais.

A jornalista ressaltou, também, uma questão que classificou como sendo “a mais grave crise brasileira”, o extermínio de jovens negros nas comunidades. Essa pauta relaciona-se com a sub-representatividade na medida em que, segundo a entrevistada, as perspectivas de vida desses menores marginalizados são estreitadas pela falta de empatia e pelo racismo institucional, reforçados pelos próprios meios de comunicação.

“Para romper com isso a gente precisava de um pacto de redução de homicídios”, disse a comentarista sobre a situação desses meninos nas favelas. A entrevistada acrescentou a necessidade da construção de uma cultura de empatia na sociedade brasileira que, hoje, caminha em sentido contrário, invisibilizando os jovens negros.

Por fim, como mulher negra e inserida na grande mídia, Flávia relatou seus sentimentos ao se perceber como representante de muitas outras mulheres. “Eu não tenho o direito de abrir mão de nada que eu tenha conquistado. O espaço que ocupo hoje é relevante para alguém que virá depois” finalizou.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO/UFRJ

“O extermínio da população negra é a maior crise brasileira”

Ericka Lourenço*

“Eu não sou eu, na verdade, sou a história das diversas mulheres negras que foram trazidas à força, escravizadas e sobreviveram. Eu não tenho o direito de abrir mão de nada que eu tenha conquistado, o espaço que ocupo hoje terá importância para a geração que vem a seguir”. A afirmação é da jornalista Flávia Oliveira, sobre a questão da representatividade negra na mídia brasileira. O tema foi abordado durante entrevista coletiva, concedida aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da ECO/UFRJ, na Central de Produção Multimídia (CPM), sexta-feira, 5 de Maio.

Flávia é colunista do jornal “O Globo” e comentarista do telejornal “Estúdio i” da GloboNews. Criada na periferia do Rio (RJ), bairro de Irajá, disse fazer parte de uma “linhagem de mulheres fortes” e independentes. Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense, a jornalista afirmou nunca ter negado a sua raça e crença em nome de ascensão profissional. Apontou falta de diversidade nas redações a respeito das questões de gênero e, principalmente, das questões raciais.

Para Flávia, não é novidade que a representação das pessoas negras na mídia se dá de forma estigmatizada. Disse que pautas envolvendo esse grupo social na maioria das vezes é associada à situações de pobreza, carência, violência ou racismo. Segundo a jornalista, essa invisibilidade midiática não dá conta do patamar que a população negra já atingiu na sociedade brasileira. Acrescentou que muito dessa falta de representatividade tem a ver com a má formação educacional dos jornalistas nos ambientes universitários. De acordo com Flávia, o extermínio da população negra é a maior crise brasileira e a canção”A carne”, de Elza Soares, ainda é tristemente verdadeira.

A jornalista, que se define como ativista da construção de igualdade tem o desejo de acompanhar ainda mais a juventude brasileira e refletir na formação da nova geração. Também acredita que a solução para a ausente cultura de empatia social esteja na possibilidade de interseções das agendas dos movimentos sociais brasileiros, setor ainda muito segmentado hoje.

* Aluna do 3ª período do Curso de Comunicação Social da ECO UFRJ

Raça e direitos humanos foram temas abordados em coletiva

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Trabalhar com direitos humanos sempre foi um desafio para a jornalista e mestre, Raika Julie Moises, assim como o tema raça que perpassa toda a trajetória da pesquisadora. Esse foi o enfoque da primeira simulação de entrevista coletiva para alunos do 3º período do curso de Comunicação Social da UFRJ (ECO). Com experiência em instituições como Observatório de Favelas, Anistia Internacional, ambas no Rio, e OEA (Organização dos Estados Americanos), em Montevidéu, Raika chamou a atenção dos alunos, curiosos sobre os diversos caminhos abertos para o campo da comunicação.

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