Sobre o LECC

O Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC) designa um grupo de professores e alunos de Graduação e Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ, voltados para a experimentação pedagógica e a pesquisa da comunicação articulada aos modos de comunidade e de solidariedade que não se acham inteiramente abrangidos pelo que contemporaneamente se entende como sociedade.

A diferença impõe-se na diversidade das ordens de modelização do organismo social:

-A modelização societária é a sociedade liberal moderna com seus aparelhos de Estado e uma infraestrutura institucional de mediação política e negociação pública, a que se pode dar o nome de sociedade civil. Nela se concentram todas as instituições e representações vinculadas ao poder de Estado e à organização da produção, destinadas a normalizar os indivíduos e produzir hegemonia, isto é, dominação por consenso.

-A outra modelização é consentânea a formações humanas que, embora sob a égide jurídica dos dispositivos societários, situam-se à margem da centralidade produtiva da economia moderna, da produção de bens, desejos e identidades socialmente valorizáveis. Pode-se chamá-la de modelização comunitária, para destacá-la da dialética institucional das forças sociais que lastreiam o poder de Estado.

Comunitário não é, no caso, um adjetivo absoluto, já que outros tipos de designação (relações sociais de encadeamento, primárias, etc.) podem ser avocados para as exceções ao domínio societário. Mas se reserva ao termo, aqui, o sentido de uma modelização de sociabilidade caracterizada por uma forte dinâmica de identificação, diferenciação e aproximação –– portanto, por um sentimento de identidade grupal –– que pode até mesmo prescindir de território físico, mas que normalmente se reconhece pelas marcas enunciativas de lugar.

Lugar, em vez de local : « O lugar tem a cara de gente, revelando distintas arenas de demandas, de conflitos, de reivindicações por melhoria e qualidade de vida. Denso, o lugar é a vida das pessoas em espaço e tempo que, dependendo das circunstâncias, pode ser o bairro, o município ou a região. O lugar é, sem dúvida alguma, onde se enraízam as experiências, as táticas, os métodos e as práticas simples que formam uma biblioteca invisível de soluções para a redução da pobreza.

Precisamos aprender a substituir o « local » por « lugar ». O lugar remete à noção de territorialidade que não é sinônimo de estado ou de município e freqüentemente está relacionada aos espaços intermediários ; de um lado, intermunicipal ; de outro, intramunicipal » (Cf. Ilka Camarotti e Peter Spink in Que País é Este ? Ed. Cortez).

Os espaços intermediários costumam ser também os das mediações socioculturais, de natureza comunitária. Há problemas teóricos e políticos na idéia de comunidade. Mas aqui se entende, antes de mais nada, que o munus de communis ou communitas é a obrigação radical que se tem para com o outro. É o imposto originário a pagar.

Comunidade é, assim, o conceito da originariedade do dar e receber, da troca simbólica, do identificar e diferenciar-se. Quando se diz que a modernidade extinguiu a comunidade, está-se dizendo, na verdade, que na modernidade só existe a troca monetária, colocada sob a égide de um mercado absoluto.

Sob o influxo do capitalismo mercantilista, a modernidade acabou por rejeitar a comunidade. O processo civilizatório da modernidade ocidental repôs os conflitos inerentes à vida comunitária numa sociabilidade caracterizada pela separação dos indivíduos e regida por laços jurídicos.

O fato societário é exatamente este: indivíduos autônomos e isolados, mas juridicamente relacionados. A sociedade tem mais a ver com immunitas do que com communitas. Isto não quer dizer, entretanto, que desapareça o vínculo comunitário. Ele permanece manifesto e latente nas relações de família, de vizinhança, mas também em toda e qualquer formação humana que explicite a sua dinâmica de identificação e diferenciação.

Na sociedade liberal clássica, o fato comunitário era controlado principalmente pela sociedade civil, que Hegel entendia como o conjunto das instituições capitalistas para a organização do trabalho. Nela, destaca-se o papel sociabilizante e educativo do trabalho. Na contemporaneidade, emergem outros dispositivos de neutralização das tensões comunitárias, realçando a produção de desejos, identidades e necessidades.

O principal deles é a mídia, que se constitui como uma nova forma de vida, um novo bios, uma esfera existencial inteiramente regida pela economia monetária. Esta forma contemporânea, apesar de simular a naturalidade do mundo, afasta-se cada vez das condições concretas ou real-históricas de existência, movendo-se portanto numa esfera cada vez mais abstrata com relação ao trabalho e às formas concretas de existência.

A mídia ou a intersubjetividade comunicacional é uma espécie de fala de uma divindade chamada mercado, que não mais pode ser entendida apenas como um lugar técnico para compra e venda de mercadorias e circulação de dinheiro, mas como um lugar que vetoriza as relações sociais, no instante histórico em que se enfraquecem ou fenecem a clássica sociedade política e a sociedade civil, pelo menos nos moldes descritos por Hegel.

Frente a este quadro, o LECC propõe-se a :

(1) Estudar textos essenciais sobre mídia, mediações socioculturais, princípios da sociabilidade no mundo ocidental e em outras formações civilizatórias.

(2) Pesquisar a diversidade cultural e comunicacional, entendida como outra possibilidade de realizar a troca e a interação social, em busca de formas de autonomia social (desenvolvimento sustentável) e de novos padrões de sociabilidade (capital social).

(3) Incrementar as pesquisas em comunicação comunitária tanto em nível de Graduação quanto na Pós-Graduação.

(4) Dar continuidade a programas de formação prática de repórteres e radialistas vinculados a rádios comunitárias.

Coordenação:
Raquel Paiva – raquelpaiv@gmail.com

Pesquisadores:

André Esteves
Adriana Gonçalves Saraiva
Dérika Virgulino
Eduardo Coutinho – edugraco@terra.com.br
Eduardo Yuji Yamamoto
Fernanda Pereira Ferreira
Gabriela de Resende Nóra Pacheco
João Paulo Malerba
Leonardo Custódio
Lilian Saback de Sá Moraes
Marcelo Monterio Gabbay
Muniz Sodré – msodre@hotmail.com
Nemézio Amaral Filho
Pablo Laignier

Patricia da Veiga

Renata Souza

Ricardo Nascimento
Vitor Iório
Zilda Martins

Bolsistas de Iniciação Científica:

Deborah Athila
Gabriel Deslandes
Thais Barcellos

Responsável pelo Blog do LECC-UFRJ

Nathália Ronfini – nathaliaronfini@gmail.com

6 pensamentos sobre “Sobre o LECC

  1. Patricia da Gloria disse:

    Olá,
    gostaria de entrar na mala direta do e-mails do LECC. O que tenho que fazer?
    Conversando com a Raquel Paiva, fui informada de que há um grupo de estudos, toda 2ª, e me interessei em participar. Como faço para participar?
    Desde já agradeço,
    Patricia

  2. sandra martins disse:

    Pessoal, solicito a divulgação de seminário que jornalistas estão fazendo no Sindicato dos Jornalistas que debatem 60 anos de declaração dos Direitos Humanos com recorte racial.
    Obrigada
    Sandra Martins

    60 anos de direitos humanos no Brasil em debate no Sindicato dos Jornalistas

    A Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Rio de Janeiro (Cojira-Rio) – que em 2008 completou cinco anos de funcionamento no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro – realiza no próximo dia 10 de dezembro, quarta-feira, às 18h, o seminário “60 anos da Declaração dos Direitos Humanos e os desafios para a promoção da justiça social no Brasil” na sede do sindicato, na rua Evaristo da Veiga, nº 16/ 17º andar. A entrada é gratuita.

    A programação será aberta às 18h com a exibição de curtas-metragens: “Eu assumo essa luta”, dirigido por Ana Gomes – alusivo a campanha internacional de 16 dias de ativismo pelos direitos humanos das mulheres –, e a série “Re-Visão” – quatro curtas sobre o racismo institucional, produzidos pelo Cinemina, da ONG Estimativa, cujo projeto foi premiado pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos 2008. Em seguida, às 18h30, será realizado um bate-papo com as documentaristas Ana Gomes, professora da rede municipal de ensino, e Neide Diniz, jornalista e coordenadora da Estimativa, que dirigiu um dos curtas da série Re-Visão.

    O seminário contará com a participação do economista Mario Theodoro, diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea) e organizador do livro “As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil – 120 anos após a abolição” (Ipea, 2008); da advogada Renata Lira, da ONG Justiça Global; e do jornalista Antônio Góis, da Folha de São Paulo.

    A Cojira-Rio integra a Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial (Conajira), vinculada à Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj). A Conajira foi criada em agosto de 2008 durante o XXXIII Congresso Nacional dos Jornalistas em São Paulo. Além da Cojira-Rio, a Conajira agrega as Comissões de Jornalistas pela Igualdade Racial nos sindicatos de São Paulo, Distrito Federal, Alagoas, Bahia e o Núcleo de Jornalistas Afro-Brasileiros do Rio Grande do Sul.

    Serviço

    “60 anos da Declaração dos Direitos Humanos e os desafios para a promoção da justiça social no Brasil” – ENTRADA FRANCA

    Data: 10 de dezembro (quarta-feira)
    Local: Auditório do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro
    Rua Evaristo da Veiga 16, 17º andar, Centro, Rio de Janeiro.
    Horário: 18h às 18h30 – exibição de curtas-metragens sob o tema Direitos Humanos.
    18h30 – debate com as cineastas que produziram os curtas
    19h às 21h – palestra seguida de debates.

    Informações:
    Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro
    Tel.: 3906-2450 – http://www.jornalistas.org.br – e-mail: afrojor_rj@hotmail.com

  3. Raquel Paiva disse:

    Caros membros do Lecc, como não tenho o e-mail de todos, opto por enviar para o site, na esperança de que o nosso administrador reproduza esta mensagem para todos os integrantes:

    Gostaria de desejar a todos um Feliz Natal. E aproveito para expressar meu desejo de que o 2009 seja um ano de muitas realizações para cada um de nós e para todos nós. Que o Lecc neste ano de 2009 consolide, cada vez mais, o seu papel de portavoz dos novos estudos sobre grupos e forças contra-hegemonicas junto à comunidade acadêmica e que possa establecer sua meta de ação na cidade do Rio de Janeiro. O espaço é curtinho, mas queria lembrar o ambientalista Chico Mendes que dizia que no começo de sua luta achou que estava defendendo as seringueiras, depois percebeu que lutava em prol da defesa da Floresta Amazonica, por fim, dizia ele, se deu conta de que sua luta era pela humanidade. Assim é a atuação do nosso Lecc. Podem acreditar, nosso objetivo maior é produzir uma grande mudança social, mas também individual.
    Forte abraço e até 2009! RAquel Paiva

  4. Quero me cadastrar no LECC. Sou aluna de Patrícia Saldanha e ela me orientou a fazer o cadastro por aqui. Tenho muita vontade de participar dos encontros do LECC. Quais os dias e horários ?
    Att., Fernanda

  5. Graciane disse:

    Aos interessados pela comunicação deste país e aos que entendem que a comunicação é um bem público e que todos tem vez e voz.
    Convido a participar no dia 04/06 as 17h30m do testemunho de Graça Rocha, no Campus Praia Vermelha da UFRJ.
    É imperdível!!!

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