Entrevista com Muniz Sodré sobre seu livro “Reinventando a Educação – Diversidade, Descolonização e Redes”

Muniz Sodré conversou com Ederson Granetto da Univesp TV sobre seu livro “Reinventando a Educação – Diversidade, Descolonização e Redes”, publicado recentemente pela Editora Vozes.

Assista a entrevista no vídeo abaixo:

Sobre o livro:

Redescrever (Richard Rorty), reinterpretar e reinventar na prática, recriar espaços onde a tecnologia é forte e não somente um meio.

O pensamento educacional tem de mudar. Educar nunca é apenas instruir, é socializar e capacitar o sujeito. Os modelos brasileiros são racistas, etnocêntricos que a Europa nos impôs. Há que se descolonizar o pensamento que molda a cabeça dos nosso professores e pedagogos. Abrir para a diversidade cultural, desde o analfabeto. Os indígenas, as culturas negras. Ecologia de saberes. O saber monocentrado que pertence ao imperialismo europeu é um saber monológico, que se pretende único, exclusivo e dado para sempre. Nem os europeus pensam mais assim.

A escola brasileira vem de dois modelos europeus do século XIX: prisão e igreja. Salas fechadas, organizado em séries, o vigilante e os presos, modelo de panóptico (Foucault) e o modelo do pregador que fala o sermão e espera que os sujeitos instituam o sermão tal e qual.

Escola é uma forma moderna de transmissão do saber para o jovem e de capacitação para as profissões. Ela não precisa de paredes, os suportes podem ser móveis. Em qualquer lugar em que ela se instale é escola. Em qualquer lugar, mas com a regência de um Iniciador que eu chamo de Professor. A questão da educação é a questão do professor.

É fundamental socializar tecnologicamente. A tecnologia dá a forma de consciência que nós temos hoje. Se nós a entendemos apenas como instrumento, como ferramenta, não entendemos nada, nem de longe o que pode ser a tecnologia. A tecnologia pode ser provocativa para nos incitar a sair daquela razão lógico-instrumental e irmos para outros tipos de razão acenados pela vinda da tecnologia.

Não entendemos, por exemplo, a TV, porque pensamos a TV em termos exclusivamente técnicos, como lixo reciclado. Mas não acho que a TV deva ser julgada a partir dos conteúdos rebaixados da grande cultura européia. Ela nos introduz na lógica do sensível. Se ela for formativa. Não vale investir no argumento para educar alguém para o anti-racismo. A consciência ocidental está preparada para aceitar os maiores argumentos de aceitação do Outro e, na prática, não aceitar ninguém. A educação para o universo é a educação para o sensível, para o afeto, entendido como categoria social. É toda a lógica do sensível que é a lógica da estética. Estamos entrando numa era estética e a TV é parte dessa estética.

É preciso pensar. Nessa mudança da descolonização, é preciso pensar o lugar em que você está. Você só muda e se transforma radicalmente a partir de seu lugar. Você se universaliza a partir de sua aldeia, sua pequena tribo, sua casa, sua cidade, seu país. Pensar radicalmente, pensar a partir das raízes, o lugar onde você vive. Pensar a partir de um projeto político nacional.

Deixamos de pensar o Brasil. Quando houve pensamento, aconteceram momentos transformadores: a revolução de 1930. Vargas foi um ditador, mas tinha um projeto nacional, foi o início de um pensamento educacional: Escola Nova, Anísio Teixeira, Paulo Freire, Fernando Azevedo, Capanema. A partir do regime militar não aconteceu nada a não ser inchamento de matrículas. O regime militar favoreceu a escola privada. Na universidade hoje, o grande número de matrículas vem de escolas privadas. Fábricas de diplomas. O governo exibe números que parecem suficientes, porque é a linguagem que fala à OCDE. Números que resultam de exames, de avaliação. Esses números colam no mercado emergente mundial de educação, capitaneado pela OCDE, Banco Mundial, Comissão Europeia.

O Brasil entrou na modernização deixando de falar a linguagem dos pensadores da educação, da pedagogia, para falar a linguagem dos números/verbas. Os grandes pedagogos brasileiros hoje são economistas. Economia da Educação. A verba é necessária, mas sem verbo, a verba é estéril. A questão da cultura nacional, da cultura brasileira é a professora primária. Como foi na França. A pós-revolução francesa fez uma revolução no ensino fundamental e você tem essa coisa fantástica do instituteur, institutrice, que é a professora primária, que preparou gerações de franceses, e deu a esse país sua fama cultural nas letras e na filosofia.

Nosso país trata mal os seus professores. Na Argentina, eles não ganham melhor, mas têm bom tratamento. Mais respeitados. Uruguai, Peru. O status pode estar se perdendo com a indústria do entretenimento que tomou de assalto o Brasil.

O salário do professor não deve ser avaliado apenas sindicalmente. O professor só pode dar aula bem se ele come bem, se pode mandar seus filhos para a escola. O professor de ensino fundamental tem de ser requalificado. Isso não ocorre no Brasil porque não há um projeto político nacional. É uma vergonha, fragmentado, as classes dirigentes, seus filhos, estão muito bem, vão se preparar bem para ser engenheiros, advogados. Esses segmentos que vão ter emprego estão se lixando pro resto.

Cabe ao Estado/Nação ter um projeto educacional coerente, global, integrado. Essa requalificação não se dá fora de um pensamento. Não há um pensamento coerente de educação no país. Com Lula, houve uma simpatia, nem tem com Dilma. Toda essa fala de que é preciso investir na educação é um flatus vocis.

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