Pesquisa sobre pornografia revela linha tênue entre prazer e dominação

 

Por Clara Sthel*

“A pornografia é quem ‘educa’ sexualmente a sociedade”. Quem afirma é o pesquisador Erick Dau, mestrando em comunicação pelo Programa de Pós-graduação da ECO/UFRJ. Ele trabalha com o tema “Pornografia: Uma questão de gêneros?”, baseado em análise de filmes, vídeos na internet e pornografia em caráter comercial.

Dau considera a pornografia um campo difícil de trabalhar, afirmando que as pessoas consomem o produto oferecido pela indústria pornográfica, mas não há espaço na sociedade para a discussão do tema. Ele cita como exemplo, a televisão. Quando se assiste a um capítulo de novela polêmico a repercussão no dia seguinte é imediata, entretanto se o programa é um filme pornô ninguém fala nada sobre o assunto. “Ainda hoje a sexualidade é um tabu”, declarou.

De acordo com dados citados na coletiva de imprensa, realizada com alunos da Escola de Comunicação da UFRJ, uma criança tem o primeiro acesso a conteúdos pornográficos na internet aos 11 anos de idade. Segundo o pesquisador, a descoberta sexual não é mais com a primeira namoradinha e sim a partir de um vídeo pornô.

Como o sexo é abordado nessas produções? Dau identificou uma postura desigual da mulher perante o homem, sempre o dominador da relação. A mulher no sexo teria a função de satisfazer o parceiro, e isso fica claro até nos ângulos da câmera. Para ele, o fetiche da exploração seria o termo usado para a aceitação e o prazer da exploração da mulher durante o sexo.

Segundo o pesquisador, esses valores de dominação e submissão refletem na sociedade de forma extremamente negativa. “O sexo estereotipado com cunho machista mesmo que implícito expõe a questão da posição que a mulher é colocada, relembrando formas arcaicas de dominação”, concluiu.

*Aluna do Ciclo básico do Curso de Comunicação Social UFRJ.

 

Pornografia “educa” sexualmente a sociedade

 

               Por Kimberly de Freitas Bezerra*

 O jornalista e pesquisador, Erick Dau, estuda as relações de gênero e a opressão da mulher no campo da pornografia. Na última sexta-feira, em coletiva de imprensa cedida aos alunos de Comunicação Social da UFRJ, Dau explorou questões importantes acerca da indústria pornográfica, como ela trabalha e de que forma encontra aceitação na sociedade.

Segundo o pesquisador, tal produção tem extremo caráter comercial e é elaborada principalmente para o espaço virtual. Apesar de agrupar dentro de si inúmeras categorias e classificações, esse tipo de representação segue um esquema básico que define a sua configuração: a mulher em posição de submissão e sendo retratada como objeto de prazer para o homem.

Dau explicou que a pornografia é um produto de massas, porém tem recepção individualizada. Diferente da novela, que como representação popular gera repercussão social, a pornografia não encontra espaço de discussão. A população consome e se submete as ideologias presentes, mas não admite. O jornalista atentou para a existência de uma “dupla moral”, que se encarrega de equilibrar o caráter imoral com a excitação que provoca.

Nos filmes, a figura feminina é representada de forma pejorativa, sofre agressões verbais e físicas e mostra estar de acordo com tais ações. Na opinião de Dau, a mulher real não gosta de receber esse tipo de tratamento. Sua preocupação é a de que a reprodução de tais valores e a forma como esses conceitos influenciam a sociedade acabem por modificar a forma como a prática sexual é encarada.

A pornografia estaria “educando” sexualmente a sociedade, valendo-se das dificuldades que ainda existem em se discutir o assunto nas esferas sociais. De acordo com a pesquisa, a média de idade de iniciação do consumo desse tipo de conteúdo é de 11 anos. Nessa fase de descoberta, a criança assimila e incorpora os valores presentes nas representações, adotando-os mais tarde como modelo nas próprias experiências sexuais. O pesquisador discorda de que a violência evidenciada na pornografia seja de ordem simbólica, e afirma que ela traz desdobramentos reais.

Dau faz ainda um paralelo entre a lógica utilizada pela indústria pornográfica e a que rege o sistema capitalista. Segundo ele, o raciocínio capitalista é o de sentir prazer ao contemplar a exploração de outro. Da mesma forma, “a maneira como a pornografia é produzida foi responsável por criar um fetiche pela exploração, em que é mais importante o abuso do que o próprio ato sexual”, concluiu.

 

*Aluna do Ciclo básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ.

Pornografia ganha espaço nos debates acadêmicos

Por Carolina Furtado Lisboa*

 O mestrando em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro Erick Dau explora em seu trabalho acadêmico a representação da mulher nas produções de caráter pornô. Na primeira coletiva concedida à turma do Laboratório de Técnica de Linguagem Jornalística, Dau expôs sua preocupação com a questão do gênero na produção pornográfica.

Com um breve embasamento histórico, o pesquisador explicou a dificuldade em definir o conceito “pornografia”. Dentre diversos campos, ele definiu seu objeto de estudo como o “pornô na internet em vídeo e de caráter comercial”.

Segundo o Dau, o recorte escolhido representa um desafio para a pesquisa. Ele afirmou tratar-se de um verdadeiro produto de massas, que ocupa 12% do espaço virtual, com 28 mil visualizações por segundo, mas não gera comentários públicos.  Está inserido numa dinâmica de moral dupla, na qual os consumidores não explicitam o seu consumo – que não é um comportamento socialmente aceito. “Possui cenas controversas e exploratórias, mas causa excitação”, afirmou.

Para ele, o conteúdo pornográfico é um dos produtos midiáticos mais consumidos ao redor do planeta, facilitado pelo acesso virtual. A estimativa é que o primeiro contato com a pornografia seja aos 11 anos, o que significa, hoje em dia, que a sexualidade é mediada pelo pornô.

Na avaliação de Dau, a constatação de que quem “educa” sexualmente o jovem é a pornografia é o motivo pelo qual o problema torna-se grave, além dos danos ao corpo da mulher nas gravações dos vídeos. As produções mostram mulheres submissas, que desfrutam da violência sexual e são objetos de prazer do homem, além de violência verbal, reflexo do machismo da sociedade. Na opinião do pesquisador, esses valores desdobram-se na vida real. A construção da sexualidade com base no que mostra a pornografia conduz à adoção dos valores de violência para o prazer na primeira experiência sexual.

Na visão política de Dau, a saturação do mercado pornô faz com que as produções tornem-se cada vez mais violentas e acaba por gerar um fetiche pela exploração, “útil à manutenção do mundo como ele é”. Em termos político-econômicos, o capitalismo aproveita essa opressão para explorar uma classe. “A gente não só não se sensibiliza pela exploração, mas aprende a gostar disso através do prazer”, ressaltou.

Com todas as restrições ao modo como as produções são feitas, Dau aposta que o fim da pornografia não significa o fim dos problemas de gênero e exploração. Mas, conscientizar as pessoas e alterar os moldes da pornografia poderia superar o estágio de desenvolvimento atual, transformando a sociedade que oprime a mulher.

Assumidamente militante, o mestrando acredita que negligenciar o problema seria irresponsabilidade política e social. Seu ideal é a busca de uma realidade onde o pornô, na verdade, seria algo bom. No mundo almejado, não haveria o machismo, e “a pornografia seria um ótimo meio de sexualização. O pornô não iria ter a centralidade que tem e se tornaria neutro, porque não haveria opressão”, concluiu.

*Aluna do Ciclo básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ.

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