Por onde caminha a Pornografia?           


Por Danyel Sylvestre*

Respeitando as vastas diferenças culturais das sociedades humanas, o erotismo sempre estive presente como expressão íntima de um ser social. Em entrevista coletiva, o mestrando do programa de Pós-graduação da ECO/UFRJ Erick Dau, que desenvolve pesquisa sobre a pornografia, levantou importantes questões a respeito da lógica machista e vertical que fundamenta o mercado pornográfico, quase sempre colocando a mulher no papel de objeto que serve ao homem.

“O que me incomoda é a opressão com o corpo da mulher”, disse o pesquisador, em alusão aos moldes da atual pornografia que qualquer criança pode encontrar na TV ou na internet. Dau ressaltou que a mulher aparece sempre como destaque, seja em cena hétero, homo ou bi sexual ou em qualquer outra manifestação erótica. É como se o corpo dela fosse um palco onde um show exclusivo é exibido para o público masculino.

De acordo com o pesquisador, ao promover a exploração do corpo feminino de tantas formas, se configura uma visão majoritariamente opressora que se perpetua e expressa valores íntimos de uma sociedade. Dau argumentou que “a representação do corpo e do sexo acompanha o avanço da sociedade” e “a pornografia é uma forma de contar história”. Com isso, os valores que vêm sendo passados nas cenas representam as mais obscuras expressões do ser humano enquanto sociedade. Ele também questionou que por se tratar de sexualidade, há pouca discussão aberta sobre o assunto. Disse que falta crítica sobre o assunto, não para reprimir a pornografia, mas para levá-la a outro caminho, mais horizontal e diverso.

Ao ser indagado pelos alunos se vislumbrava, no atual cenário, formas de pornografias que fugiam desse padrão machista, o jornalista expressou esperança ao afirmar que sim. Ele não é contra a pornografia, mas critica o mercado explorador. Dau foi enfático em ressaltar que em uma sociedade de domínio capitalista, a pornografia é um produto. O desejo pela sua venda passará por cima de qualquer ética e assumirá quaisquer valores. Não há interesse em mudança de paradigma, porque o mercado não pretende interromper um produto que lhe é altamente rentável, retroalimentando assim o domínio da cultura machista.  Finalizou dizendo que o interesse do mercado é no lucro e não no bem estar da mulher, e assim, sempre é ela que paga o preço do egoísmo masculino.

*Aluno do Ciclo básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ

 

Pesquisa levanta questões do entretenimento pornográfico

Por Mariana Musa*

 O jornalista Erick Dau, inquieto com a reação de colegas da faculdade diante de filmes pornôs, resolveu entender melhor a indústria pornográfica e seus produtos. Com foco nas questões de gênero na pornografia, começou a estudar o tema no mestrado em Comunicação do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação Social da UFRJ.

Em entrevista coletiva para alunos da UFRJ, ele explicou a importância da pesquisa: “A pornografia é uma forma de contar a história. Apresenta visões de mundo; transmite, com sua narrativa, maneiras de compreender a sociedade – uma função inerente à mídia, de maneira geral; mostra valores e formas de sociabilidade.”, disse.

Durante a coletiva, Dau apresentou um pouco do seu trabalho, fazendo um apanhado de questões importantes relacionadas à produção pornográfica que passam despercebidas no cotidiano. Pesquisas recentes afirmam que 12% dos sites na internet são pornográficos, 25% das pesquisas diárias são relacionadas ao tema e 28 mil pessoas estão assistindo a vídeos pornôs a cada segundo.

O mestrando ressaltou que embora esteja claramente presente no dia a dia das pessoas, como revelam os dados, e seja pensada como uma mídia de massa pelo emissor, os vídeos pornôs são percebidos como uma mídia individualizada pelo receptor. O resultado é a ausência de discussão no espaço público. “A pornografia não está submetida à crítica geral da sociedade pelo fato do sexo ainda ser um tabu”, disse. Outra característica da pornografia é a “dinâmica de dupla moral, que não é aceita por causa do preconceito, entretanto é capaz de causar excitação”, esclarece.

Uma das principais questões trazidas por Dau foi a crítica à representação da mulher nas produções pornográficas e as implicações que isso tem na sociedade: “A mulher é retratada como objeto do homem”, sofre violência verbal e física. O problema do filme pornô é que “reproduz certos valores, uma vez que a pornografia está dizendo que as mulheres podem fazer sexo a vontade, desde que deem prazer ao homem”.  E embora formalmente pareça um ato de liberação sexual da mulher,  ele é taxativo em dizer que não, “já que continua tudo girando em torno do homem”. O mestrando alerta que os vídeos pornográficos não retratam uma violência de ordem simbólica, uma vez que na prática, existe uma mulher real sendo violentada nas gravações. Além disso, esses vídeos criam fetiches, levando a desdobramentos na vida cotidiana, quando os homens passam a querer fazer sexo pornográfico com suas parceiras.

A questão política da pornografia também não foi deixada de lado. Dau, que também é militante do PSTU, afirma que a política ajuda na sustentação do mundo como ele é: “O mundo capitalista é baseado na exploração dos trabalhadores e, se antes a gente não se sensibilizava com essa exploração, agora, subjetivamente, a gente aprende a gostar disso. Esse aprendizado vem pelo prazer, pelo sexo”, afirmou. Ele também ressalta que antes de ser uma questão de gêneros, o problema da opressão sofrida pela mulher vem de uma característica do capitalismo. “Trata-se de uma briga de classes, já que o capitalismo se baseia nas opressões, se aproveita das mesmas para a exploração”, concluiu.

Embora faça uma dura crítica ao mundo pornográfico, ele não defende seu fim: “Ninguém tem preconceito com a pornografia porque subjetiva a mulher, mas porque a sociedade ocidental está submetida a uma lógica de condenação à sexualidade. Nesse sentido, a pornografia tem que ser defendida. Não é uma crítica moral à pornografia, não precisa acabar, precisa mudar”.

*Aluna do 2º período do curso de Comunicação Social da ECO-UFRJ

 

Pesquisa revela como a pornografia oprime as mulheres

 

Por Priscila Dias Minussi*

 Jornalista e aluno de Pós-graduação da Escola de Comunicação da ECO/UFRJ Erick Dau, em entrevista coletiva, esclarece como a pornografia tornou-se um meio de perpetuação da opressão da mulher na sociedade. Ele é militante do PSTU, fotógrafo free lancer e editor da revista online Consciência.net. Durante a coletiva, falou sobre como a pornografia é uma arma para o machismo.

Dau começou perguntando o que é pornografia. Explicou que, etimologicamente, “pornô” vem do grego e quer dizer prostituição, enquanto “grafia” significa representação. Mas, para ele, é uma palavra difícil de ser definida, porque não é somente uma representação do corpo. “É mais complexa        “, disse. O pesquisador fez um recorte do tema e trabalha a pornografia de Internet, de vídeo e de caráter comercial, pago, que envolve um ator e uma atriz, a chamada categoria “mainstream”.

O interesse pela temática, segundo Dau, surgiu em meio a aulas da faculdade, quando os colegas liam comentários agressivos em sites pornôs. A militância contra todo tipo de agressões também o encorajou. Ao começar a pesquisa, percebeu outros elementos que o incomodavam como “a representação da mulher submissa, que é notável desde a narrativa – na qual a satisfação feminina é totalmente dependente da masculina – até a técnica de filmagem, que evidencia a mulher com maior presença no quadro”.

Para Dau, o ramo pornográfico é popular, mas difícil de ser estudado. Não há um espaço reservado para a crítica, não há discussão nem comentários sobre o que as pessoas assistem. É um “mercado individualizado” que sofre rejeição da moral pública. Observa que o Ocidente repreende a sexualidade por meio do moralismo e do cristianismo e é o grande responsável por isso. Pesquisas realizadas em 2010 estimam que 8% dos e-mails trocados diariamente no mundo e 12% dos endereços virtuais, equivalentes a 24 milhões de sites, têm conteúdo erótico.

“As cenas dos vídeos são exploratórias e controversas. A agressão verbal – e, às vezes, física – da mulher é aceita passivamente e vista como prazerosa, o que é totalmente incoerente com a realidade”, comenta o estudante. “O sexo feminino é tratado como objeto de exploração de um gênero na atuação e na sociedade também. Valores são produzidos: os homens reproduzem a violência simbólica. As atrizes são apresentadas como profissionais satisfeitas com o que fazem para amenizar a culpa dos consumidores que consentem com a perpetuação desse quadro”, ressalta.

A questão central do mestrado é o fetiche pela exploração. As investigações constatam que o abuso do feminino é mais desejado do que o sexo em si para grande parte dos homens. E não há sensibilização com o fato. Para o entrevistado, as pessoas aprendem a gostar da exploração como fonte de prazer. “Jovens constroem a sexualidade pelo contato com produtos eróticos e, ao iniciarem a vida sexual, buscam a reprodução do que viram, incluindo a submissão da mulher”.

Dau afirma que não é contra a pornografia e justifica: “Acabar com ela não seria uma solução. Mesmo se o conteúdo fosse mudado, os homens deixariam de consumir e outra instituição capitalista assumiria o cargo. A irresponsabilidade social e política sobre o tema precisa ser mudada. A conscientização é da sociedade, não da indústria”.

Ao ser perguntado como ocorreria essa conscientização, o estudante negou que seja um trabalho pedagógico. “O caminho é a luta política, pela lei Maria da Penha, por creches em faculdades públicas e por igualdade no mercado”, enfatizou. Para encorajar as tentativas de mudança, Dau disse que não se pode medir a eficácia das coisas pelos fins, pelas conquistas. “É preciso valorizar o meio”.

 

*Aluna do Ciclo básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ.

 

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