Utopia além do mercado – Entrevista com Muniz Sodré

Para teórico da comunicação, conservadorismo da mídia e desvalorização dos saberes e da cultura de periferia caracterizam um cenário social marcado pela mercantilização e estímulo ao consumo
Márcia Maria Cruz
(Fábio Motta/AE)

Aos 70 anos, Muniz Sodré é um dos mais importantes e influentes pensadores brasileiros da atualidade. Entre outras dimensões, sua obra e militância intelectual trazem para o cenário contemporâneo um entendimento da comunicação e da cultura para além do viés mercadológico. Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi presidente da Fundação Biblioteca Nacional de 2005 a 2011. Tem cerca de 30 livros publicados nas áreas de comunicação, antropologia, política e cultura. Amante da capoeira – foi aluno do grande mestre Bimba, sobre quem escreveu um livro –, o baiano de São Gonçalo dos Campos também se dedicou à escrita ficcional e publicou cinco livros de contos e novelas. Comentarista do Observatório da Imprensa, Sodré vem a Belo Horizonte para participar do projeto Conexão Ciência e Cultura, evento promovido pela PUC Minas, no dia 29. Aproveita para lançar o livro Reiventando a educação – Diversidade, desconolização e rede, pela Editora Vozes. Em entrevista ao Pensar, Muniz Sodré fala sobre educação, tecnologia e comunicação. “Acho necessário resgatar o pensamento comunicacional do conservadorismo neoliberal, que deposita a força utópica do homem no mercado e na máquina”, propõe Sodré. E completa: ‘‘Não se trata de demanda acadêmica, mas política’’.

Em seu novo livro, Reiventando a educação, o senhor trata das mudanças advindas com as novas tecnologias. O que elas apontam?
Apresento uma visão comunicacional da educação. O livro tem prefácio do meu amigo Leonardo Boff. É um livro um tanto questionador. Critico o não saber usar das tecnologias. Critico também a economia da educação, que vem sendo ditada por organismos internacionais. Essa forma de organização é aceita pelo Ministério da Educação de forma acrítica. É um modelo de educação neoliberal e privatista. Critico também a ausência nesse modelo espaço para a diversidade cultural e para o sensível. Prego o conceito de ecologia dos saberes, ou seja, a importância dos diversos saberes, até mesmo o saber do analfabeto. Todas as formas de saber têm que dar a mão. É importante uma reformulação na pedagogia tradicional. O modelo de educação está globalizado, o que não atende à especificidade de cada país. Esse modelo foi aplicado com rigor no Chile e foi um fracasso, resultando em revoltas estudantis. Não sou da área, mas os modelos educacionais são do século 19. Não mudou nada. No entanto, não basta ter laptop nem tablet nas salas. A questão da educação é o professor. Tecnologias vão ser incorporadas se houver revalorização da função dos docentes. O professor que está no centro.

O senhor desenvolve ao longo de sua obra uma teoria da comunicação e advoga que o campo assuma o status de ciência. Que contribuição os pesquisadores dessa área campo podem dar à sociedade?
As ciências sociais nasceram no século 19, a partir da filosofia. Preexistiam a elas questões essenciais relativas à condição humana, que assumiram formas históricas mais atuais ou “modernas” depois da Revolução Francesa. Considere-se a sociologia, por exemplo. As ideias que a caracterizaram nos três últimos terços do século 19 (que foi o período de seu desenvolvimento) voltavam-se ao mesmo tempo para a crise da formação social e para um fundo de natureza ética que advinha da sociedade tradicional e da tradição filosófica. A grandeza das ciências sociais tem a ver com as respostas ao mesmo tempo objetivas e éticas que ensaiaram para o conflito entre tradição e modernidade. A comunicação, entretanto, nasce da sociologia (e não da filosofia), de uma sociologia funcionalista que, no caso norte-americano (mass communication research) se põe majoritariamente a serviço do mercado e, agora, da financeirização do mundo. A reivindicação de um pensamento científico para o campo não é um cuidado formal ou meramente acadêmico, mas basicamente político, no sentido de que é preciso refletir sistematicamente sobre um campo em que é difícil distinguir a prática do consumo da prática do conhecimento. Acho necessário resgatar o pensamento comunicacional do conservadorismo neoliberal, que deposita a força utópica do homem no mercado e na máquina.

O senhor considera que o processo de midiatização é maior no Brasil do que em outros países cuja cultura televisiva não seja tão constitutiva da cultura local quanto a nossa?
Midiatização é a articulação das instituições sociais com as organizações de mídia. Este é hoje um processo mundial, com diferentes de graus de intensidade, a depender da organização capitalista do mercado. Os Estados Unidos me parecem ser o paradigma mundial da midiatização. Mas também não me parece haver dúvidas quanto à intensificação desse processo no Brasil desde o início da década de 70, junto com o alargamento do consumo e o espraiamento social de seus ritos. Os focos de produção cultural mais ativos no Brasil das últimas quatro décadas estão direta ou indiretamente ligados à indústria de bens culturais e à televisão. A internet com suas ditas “redes sociais” veio incrementar a midiatização num grau de intensidade inédito na América Latina. Há uma nova “humanidade eletrônica” em formação.

Presença cada vez maior na programação brasileira, comediantes stand up rapidamente conquistaram admiradores atacando o politicamente correto. Como o senhor vê o movimento de defesa do politicamente incorreto, como se essa produção fosse a expressão de um pensamento livre e perspicaz?
Em princípio é paradoxal que o alargamento técnico da esfera pública por efeito da midiatização tenha feito emergir um neoconservadorismo das formas de expressão. Coisas que eram livremente ditas há 40 anos são hoje motivo para ações de danos morais. Não à toa, essas ações tornaram-se moda na esfera judicial. O “politicamente correto” é a “mimosa pudica” da linguagem, um tipo de restrição que, a pretexto de “policiar” o debate, favorece os fracos de espírito. Natural, portanto, que apareçam as válvulas de escape sociais, a exemplo dessa tal stand up comedy. Mas também é algo restrito à sala de teatro. Será preciso, quem sabe, derrubar (metaforicamente) as paredes e fazer a sociedade como um todo redescobrir o riso.
O senhor é um dos pesquisadores mais proeminentes no campo da comunicação, mas não se afastou da prática da capoeira. Sua produção acadêmica absorve essa experiência? 

A capoeira é mais original das artes brasileiras do corpo, porque é um jogo cultural total: luta, dança, canto, toques, percussão e história paralela de uma etnia que resiste à persistência das formas escravagistas. A capoeira tem feito mais pela cultura brasileira no exterior do que os adidos culturais das embaixadas. Assisti na Europa, em vários países, a rapazes e moças cantando chulas da capoeira em bom português, sem que tivessem domínio da língua. Aqui no Brasil, homens, mulheres, crianças e até mesmo deficientes físicos praticam o jogo, a “brincadeira” como se dizia antigamente na Bahia. É forte o conteúdo educativo da capoeira. Mestre Bimba, que foi meu mestre em minha adolescência em Salvador, é um dos maiores ícones dessa arte. Corpo de mandinga (Editora Manati) é o nome do livro que escrevi sobre ele.
Com a ascensão da classe C e a pressão consumista, as emissoras de TV criaram programas como o Esquenta, de Regina Casé, voltado para a cultura da periferia. Essas representações contribuem para reduzir o fosso entre classes no Brasil?

O mercado sempre tentou ocultar ideologicamente (portanto imaginariamente) o fosso econômico entre as classes sociais por meio da gestão culturalista dos conflitos, em que o consumo é o trunfo principal. As chamadas classes A, B, C etc. são “ideologemas” (na prática, truques ideológicos) de publicitários e estrategistas de consumo com vistas à captação daqueles frações de classe social que escapam da miséria absoluta. No governo Lula foi real o incremento da renda em determinados setores das classes subalternas e o escancaramento do crédito alargou o consumo. Mas alargou também o endividamento. A força cultural da periferia é outra coisa: não está diretamente ligada a esse propalado aumento do consumo. Mas é certamente o que há de mais interessante na cultura urbana da atualidade.

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