MUNIZ SODRÉ: “O CAPITAL NÃO GOSTA DE GENTE, O CAPITAL GOSTA DE CAPITAL”

Fonte: O Viés

Fotos: Rafael Balbueno

Muniz Sodré é jornalista, sociólogo e tradutor brasileiro. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal da Bahia (1964), mestrado em Sociologia da Informação e Comunicação pela  Université de Paris IV (Paris-Sorbonne) (1967) e doutorado em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978). Atualmente está de volta às salas de aula da UFRJ como livre-docente após cinco anos na diretoria da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil, nos primeiros anos do governo Lula. Professor da Escola de Comunicação da UFRJ, Muniz Sodré é um dos maiores intelectuais em comunicação do país. Já dirigiu a TV Educativa, possui cerca de 30 livros publicados nas áreas de Comunicação e Cultura e também escreve ficção, “uma paixão”, nas palavras do professor.

Negro, baiano e mestre em capoeira, Muniz Sodré resume o momento de seu nascimento como um evento que só poderia ter acontecido onde aconteceu: “nasci em 12 de janeiro de 1942, uma quarta-feira, dia votivo em meu enredo cosmológico, em São Gonçalo dos Campos, Bahia. Não poderia ter nascido em outro lugar: sou um resultado étnico de tupinambá, cigano e nagô, evento que, nessa combinação, só na Bahia”.

Sodré se orgulha de ter sido discípulo de Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, capoeirista criador da capoeira regional. Tal é a importância de Bimba para a Bahia que a universidade federal do estado outorgou, no dia de 12 de junho de 1996, o Titulo de Doutor Honoris Causa ao capoeirista, título o qual Muniz Sodré viria também a receber.

O professor esteve na Universidade Federal de Santa Maria, na última terça-feira, 13 de março, para ministrar a aula magna de abertura do curso de Doutorado em Comunicação da UFSM. Antes disso, Muniz Sodré concedeu entrevista à revista o Viés e falou sobre assuntos diversos. Desde seus interesses de estudo, passando por seus trabalhos já publicados, seu questionamento sobre a validade da internet e principalmente sobre o futuro do jornalismo.

revista o ViésA internet, mesmo ainda sendo uma terra sem leis, não tem colocado o velho jornalismo da TV, do rádio e do papel, por exemplo, contra a parede em muito casos?

Muniz Sodré: A internet é uma zona em expansão, mas ainda é uma zona um pouco misteriosa, um pouco caótica. Por que qualquer mídia que surge você só pode ter certeza da força dela uns 30 anos depois. Todo mundo entra ali, se lança. Poucos têm dinheiro, ainda é uma terra virgem. Então não se sabe muito bem o que vai ser, como vai se dar o nível de controle. Mas é o território da pulverização da informação, da notícia. Frente ao jornalismo eu sou completamente cético em relação à internet: eu acho que ela ainda utiliza de práticas antigas.

A internet, por exemplo, quando se fala em livros, ela está ensinando a ler de uma forma diferente. A forma de ler segue a mesma, da esquerda para a direita, mas acaba sendo uma leitura mais plural, mais heterogênea.  Hoje em dia qualquer criança usa a internet, lendo e escrevendo ao mesmo tempo. Isso parece pouca coisa, mas na verdade é imensa. Esses jovens que ficam muito tempo na internet estão sempre escrevendo e lendo, e escrevendo mal.

Mas talvez isto não tenha tanta importância. A internet é uma estabilizadora da língua. Ao mesmo tempo o jovem está lendo de forma implicativa, de forma participativa. Você tem uma relação explicativa com o texto, pois ele explica alguma coisa. Mas agora também é implicativa. A explicação apela para o cérebro, para o entendimento. Enquanto que a implicação demanda de uma participação ativa do outro. Você, para efetivamente se conectar à internet, você tem que ter uma certa mobilidade motora, saber pular de site para site. É um gestual maior do que você simplesmente pegar um livro. A internet chama o outro para a cena da leitura. Essa participação ativa da leitura, se explorada, pode revolucionar práticas educativas. As formas jornalísticas estão tentando fazer o outro participar. Isso o que é? É influência da internet. Essas influências são claras, são nítidas. Mas ao mesmo tempo aquele leitor conhecido, o sentado, o tradicional, está acabando. E isso dá um certo pânico.

De uma maneira vemos o jornalismo como transmissão de notícias, de informação. Mas o prestígio que o jornalismo tem no Ocidente não é por isso. O jornalismo está ancorado na máxima de garantir que o homem tenha sua livre manifestação. Portanto, é uma garantia de democracia de vozes, de circulação de ideias. O prestígio do jornalismo vem daí, e não de comunicar simplesmente. Se você entende o jornalismo como a transmissão técnica de informação, isto está em crise. A internet o colocou contra a parede, como você disse. O que a internet faz com uma enorme velocidade, e que o jornalismo da TV e do papel já faziam, era divulgar pílulas de informação. Assim, a internet não está tão diferente quanto ao jornalismo antigo.

Seria interessante uma pesquisa de hábito [dos leitores de internet] para ver como é que se ainda lê o jornal. Talvez não seja muito diferente da internet. A internet reproduz as pílulas, na verdade. A notícia vem fragmentada. Será que mudou algo com a leitura da internet? É uma boa pesquisa a se fazer, é interessante.

Então não é isso que muda o jornalismo a partir da internet. A internet pode fazer uma troca de ideias, uma troca de informações do espaço público. E a constituição deste espaço público pode ser de tal maneira que os homens abram um pouco do espaço. Mas o espaço público não é alargado plenamente. A internet pegou muito da televisão, do outro jornalismo, e levou para a internet. Mas o jornalismo não é o alargamento técnico do campo da palavra. Não é isso. O espaço público é aquele onde o que você diz pode ser posto de cabeça para baixo. Deve ser um conversor da sua opinião, da opinião contrária, da opinião do outro. Tudo é um campo dinâmico de forças. Isso a mídia pensa fazer, o debate, o alargamento da discussão. Mas esse poder de conversor da fala a mídia não tem. Já na internet é possível que aconteça. É possível, mas ainda não tem também.

O papel do jornal é imprescindível. Os grandes momentos da história perpassam o jornalismo. O movimento da abolição, por exemplo, tinha no jornal uma força. Sem jornalismo isso não teria existido. Mas esse jornalismo repercutia em clubes, clubes abolicionistas, em fóruns, em salões. A mídia é feita em cima de tudo isso. Não é só a informação. A TV e a internet não constituem o espaço de discussão. O que se fala nas redes sociais? Na sua maioria: fofoca. Nós entramos no paraíso absoluto da fofoca. Não neguemos que é atraente, mas não é jornalismo. Mas eu me pergunto se é pela fofoca ou mais pelo contato. É para constituir grupos? Você espera a reação do outro, a fala do outro. Não estou criticando as redes sociais, elas são viciantes. Mas é interessante deixar claro: nem tudo que é atraente é aquilo que nos qualifica. Mas ainda tenho a cabeça aberta para ver isso. Não sou reacionário quanto a internet. Mas eu quero saber aonde vai dar tudo isso. A internet veio realmente para mudar as relações sociais. Em que direção ainda não sabemos, mas veio para mudar.

E a internet está encostando o jornalismo na parede, mas ainda não colocou na parede as expressões de ideias e de causas. Não chegou nem perto. Daí a importância de pessoas como o [Alberto] Dines, um grande jornalista que comanda o Observatório da Imprensa.

O senhor, como professor universitário da Comunicação que passou por várias áreas – Antropologia, Sociologia, Direito – falando exatamente dessa amplitude que a gente deveria ter dentro do jornalismo, como o senhor encara a formação jornalística ou a relevância, a importância ou sequer a necessidade de cursos prepartórios, de cursos de formação?

M.S.: Veja só, eu, lá na ECO [Escola de Comunicação – Universidade Federal do Rio de Janeiro],  na minha escola, eu estou, assim, contra a maioria dos professores, até mesmo contra a diretora, amiga minha, inclusive foi minha aluna, quanto a essa questão do diploma. Eu sou a favor do diploma. Por quê? Eu não tenho diploma de jornalista, eu tenho de outras coisas, mas sou jornalista profissional porque tinha registro na época. Mas sou a favor do diploma. Deixa uma brecha na constituição, porque as pessoas pensam no diploma, exclusivamente no diploma, como a santificação de um saber e aquela santificação seria excludente dos outros, mas o diploma não é isso nem no Brasil nem na França nem em lugar nenhum.

O diploma é, em determinados contextos – não é bem o caso ‘americano’  -, uma defesa das classes sociais subalternas ou, então, dos que não estão no círculo corporativo do emprego contra o abuso patronal, o poder patronal. Por isso que as grandes empresas jornalísticas – Folha, Abril – são contra o diploma. Porque sabem que o diploma dá um peso sindical.

Os sindicatos estão por baixo, nós sabemos. O sindicalismo está por baixo no Brasil – no mundo todo -, mas, particularmente no Brasil, o sindicalismo foi colocado para baixo quando o senhor Fernando Henrique Cardoso quebrou a espinha-dorsal do movimento sindical quando sufocou a greve da Petrobrás. Foi o grande ‘benefício’, entre aspas, que o governo Fernando Henrique fez às classes sociais. O Fernando Henrique é horrível… é horrível! [Pausa] Não se enganem não! E o sindicalismo foi para baixo, mas as corporações profissionais, os profissionais não podem se deixar levar pela onda, pela dispersão, pela desregulamentação, pela fragmentação, que parece que é a internet que traz… parece, mas não é a internet… não é a internet. São organismos internacionais: OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), Banco Mundial, que, junto com a desregulamentação das telecomunicações, traz uma ideologia desregulamentatória, do trabalho precário, para introduzir novas formas de escravidão.

Não se enganem, junto com a modernidade, a modernidade dos serviços, a modernidade da internet, a modernidade das novas formas laborais, vem formas antigas de escravidão, que já estão começando na China, mas já estão chegando aqui também. A China, hoje, é um país com um PIB alarmante, com uma expansão industrial enorme, mas às custas de uma grande parte da população escravizada. Vejam a condição, há estudos das condições dos trabalhadores que fazem Apple, iPad, essas coisas, [eles] chegam às sete e meia da manhã, saem sete da noite, têm quarenta minutos para almoçar e o horário de ir ao banheiro é regulado, tenha ou não vontade – é regulado. Se ele tiver que fazer hora extra, ele é obrigado a fazer hora extra, mas não tem garantia de que seja paga.

Muitos se suicidam – é escravidão, é a escravidão absoluta! A solução é o suicídio para o trabalhador chinês. Ganham uma porcaria. Está ali: novas formas de escravidão. Não é só na China, em Taiwan, em Cingapura. Aqui, no Brasil, toda essa movimentação nova na internet é uma nova forma de escravidão nas redações. Os setores trabalham ao mesmo tempo numa redação como O Globo, do impresso para o online, pode transpor ali para a televisão e ninguém presta contas, né?!

Acho que esses esvaziamentos das formas de organização do trabalho sejam naturais da internet – se esvaziaram os modos de resistir a eles. Portanto, é preciso fazer história com o diploma. Não é só aqui no Brasil; na França, há grupos com essa argumentação; na Alemanha, há grupos com essa argumentação. Então, nós não podemos nos deixar levar por essa ideologia de fragmentação. Isso não importa mais. O que que importa? O que importa é a exploração, a exploração continua aí.

A baixa tendencial dos salários e o aumento exponencial dos lucros dos bancos. Quer dizer?! Essa é que é a realidade. Portanto, eu acho que ele [o diploma] é um ponto na organização do trabalho. Segundo, a formação acadêmica no campo da informação, hoje, não é mais uma coisa puramente técnica. Nós vivemos num solo feito de informação, a informação é o solo onde nós pisamos.

Nós nos movemos com informação, porque nós vivemos uma nova forma de vida, uma nova forma de existência que é feita de material informativo. A dificuldade de você refletir sobre isso é que, na Comunicação, diferentemente das outras Ciências Sociais, o consumo – e reflexão pode ser consumo – estão juntos, parecem a mesma coisa, é difícil distinguir. A universidade é mais necessária do que nunca, mais necessária do que antes. Talvez mais necessária do que os cursos de Sociologia e de Antropologia, que estão em crise [risos]. Oxe, tem gente aqui agora! [Mas] estão em crise. É difícil, portanto, pensar o campo comunicacional como um campo de reflexão, porque se perde muito nas práticas, nos cursos práticos, separados. Então, eu sou inteiramente a favor, inteiramente a favor! E acho que os cursos de Comunicação – daí, minha atenção a eles – até poderia me dirigir aos cursos de Filosofia ou de Sociologia, porque o que eu leio muito mais mesmo é filosofia, mas eu acho que a Comunicação põe em questão os objetos disciplinares, mais ou menos. É um campo de esvaziamento do fechamento do objeto disciplinar.

Então, o desafio acadêmico hoje, nas Ciências Sociais, para mim, passa pela Comunicação. Então eu sou extremamente a favor dos cursos e extremamente a favor de uma formação jornalística. Eu dirigi o Canal 2, no Rio de Janeiro. Os assessores de impressa, quando eu tinha um cargo, os velhos jornalistas, diziam que os alunos não escrevem bem. É mentira! Eles escrevem sim! Eles podem cometer um erro ortográfico, mas são melhores do que os velhos profissionais. Por quê? Porque leram livros. O velho profissional lê o livro em que está interessado. Aí lê um romance, uma coisa. Ler livros é fundamental…fundamental. Leram, sabem quem é Foucault, Deleuze… Então, acho os cursos, a universidade, fundamental, mais do que nunca. Independente da questão do mercado de emprego – é uma outra coisa, mercado de trabalho é outra. Mas não acho que a universidade esteja aí para fornecer empregados para a indústria não. Acho que essa é uma tarefa subsidiária da universidade. Ela está aí para formar cidadãos conscientes de um determinado campo do saber. Para mim, essa é a tarefa da universidade. Então, eu sou a favor dos cursos, sou a favor do diploma.

Há uma declaração sua falando da despolitização atual da mídia, questão que está ligada à transição da propriedade dela. Antes, ela era ligada de forma facilmente identificável com o poder político, e agora essa ligação é menos evidente, por ela estar vinculada ao capital financeiro. O senhor acredita que há algo que está em vias de ocupar esse espaço de politização? Quais as consequências dessa transferência de propriedade da mídia?

M.S.: Essa é uma questão difícil, que os próprios jornalistas ainda não sacaram direito, eu sei porque converso com alguns. Isso é fundamental para entender a transição do jornal. Quando eu cheguei no Rio, tinha muitos jornais. Cada jornal desses representava os interesses de uma determinada fração de classes. Por exemplo, o Jornal de Notícias: era ainda o resto dos capitais do café, o resto do café no Rio de Janeiro, ou no Estado de São Paulo, eram os cafeicultores do estado de São Paulo. O Jornal do Brasil tinha muito anúncio de balcão, pequenas indústrias. O Rei da Manhã, estaleiros – a Ishikawajima era grande anunciante lá. A Bloch, onde eu trabalhei, era a Volkswagen, anúncios de luxo. Os jornais defendiam os interesses das frações de classe, mas eram claras e nítidas essas defesas.

Ora, e os donos eram gente rica, famílias ricas que dirigiam patrimonialisticamente. A categoria patrimônio é uma categoria complicada, porque envolve capital, mas envolve a família. O sujeito do patrimônio é a família. E quando envolve a família, tem uma margem ideológica para valores. Por mais bandido que seja o dono do jornal, para algum valor, para a exaltação de um grupo, de uma cidade, de uma família, tem algum compromisso com o território, com a terra. Quando o jornal passa de uma propriedade patrimonialista para ser um elemento numa holding, em que há dominância financeira, aí o capital não tem compromisso com nada, nada. Porque, e isso é um dogma, o capital não gosta de gente. Capital gosta de capital, pra se acumular mais, é o compromisso do capital. O capital produtivista ainda tinha o compromisso do operário, para explorar mais. O capital financeiro tem [compromisso] com a renda, com os juros. O que dá emprego no Brasil não é a empresa capitalista. O que dá muito emprego mesmo é o serviço público. Vejam aí onde é que o emprego se cria, vejam a luta pelos concursos: é serviço público, porque capital não gosta de gente.

Então, esse capitalismo financeiro, com o jornal parte duma holding, esse compromisso patrimonialista que eu falei some, desaparece – o jornal é um negócio, apenas e exclusivamente, que se não der lucro é fechado. Os jornais estão diminuindo. Portanto, essa mudança é a mudança do capital produtivo para o capital financeiro, faz parte do movimento de financeirização do mundo. Essa financeirização é o outro lado da comunicação hoje. Eu diria que a comunicação é uma ideologia financeirista. O que é que a financeirização quer: desobstruir os caminhos, acabar com a rigidez, tanto na cabeça quanto nos comportamentos. Para quê? Para as mercadorias circularem mais, os capitais circularem mais, para que não haja obstrução. Portanto, essa mudança é crucial, este é um ponto importante.

Então, essa questão me parece ser a questão da comunicação hoje. É extremamente importante, porque nada disso está suspenso no ar, tem a economia por trás disso e essa mudança econômica é crucial. Eu realmente levantei esse ponto em um livro meu, acho que A narração do fato, mas acho que esse é um assunto a ser trabalhado longamente, isso dá uma tese de doutorado grande, trabalhosa – tem que ler muita economia, explicar o que é a financeirização. Tem um grupo no Rio, ligado a Maria da Conceição Tavares, amiga minha, que eu admiro muito e que estuda capital financeiro, o [José Luis da Costa] Fiori, o próprio [Carlos] Lessa, isso aí dá uma tese.

: Diz-se que dos passaportes mais caros no mercado negro internacional é o passaporte brasileiro porque, pelo senso comum, qualquer pessoa poderia ser um brasileiro. Quando o senhor fala em alteridade, sobre o outro, e também trazendo o fato de que, recentemente, a União Europeia lançou um comercial em que ela se vê ameaçada por um brasileiro, um indiano e um chinês… se existe um ‘outro’ do Brasil? Por exemplo, nas escolas antropológicas, a antropologia brasileira sempre foi de construção nacional, ela se preocupa em construir aquilo que é o brasileiro. Nesse processo de formação daquilo que é supostamente brasileiro, existe um ‘outro’ do brasileiro? Existe algo que não é brasileiro?

M.S.: Dentro do Brasil? Ou fora?

: Dentro do Brasil. Existe uma oposição ao Brasil? 

M.S.: É uma boa questão. Boa questão porque esse brasileiro de que fala a Antropologia, ele também não existe. Porque, veja só, quando você fala ‘cultura brasileira’ – se usava muito a expressão, hoje não se está usando -: cultura nacional, cultura brasileira. O que que é essa cultura nacional? É um monopólio das ideias sobre o Brasil, né?! É um monopólio sobre o que é brasileiro, o que é brasilidade. E nessa cultura nacional estavam submersas, estavam submetidas, essas diferenças culturais brasileiras.

As diferenças regionais e, nessas diferenças submetidas, estão os negros, com formas simbólicas variadíssimas e interessantíssimas; indígenas, afastados na maioria, mas já hoje muito próximos, hoje em dia se aproximando. E, veja só, a antropologia é uma prática que sabe muito pouco do Brasil, porque  o bom objeto de ciência é o objeto distante.

Eu gosto mais de Antropologia do que Sociologia, mas a Antropologia tinha um discurso muito coerente quando o índio estava muito distante, né?! Porque o bom objeto de ciência não responde. O bom objeto de ciência é como o índio em filme de caubói ‘americano’ – o bom índio é o morto, né?! E o objeto de ciência morto, você pode dizer o que quiser sobre ele, pode falar. Quando os índios começaram a se aproximar mais – por exemplo, eu tenho um amigo índio em Brasília, que é o Marco Terena, que pilota avião, é professor de nível secundário – nenhum antropólogo vai conseguir falar sobre os Terena. O Marco Terena pode dizer “não é nada disso!” Quando os índios começaram a falar, começou a se relativizar toda aquela matematização do Lévi-Strauss [antropólogo, professor e filósofo francês, considerado fundador da antropologia estruturalista] sobre os índios ficou um pouco suspeito.

O Lévi-Strauss disse “o índio não tem história”. O [Marco] Terena vai dizer “como não tem história? era muito diferente no tempo do meu pai na tribo”. Ele dizia “eu que chegue na tribo e diga pra minha mulher fazer isso, sei lá, cozinhar não sei o quê, para eu ver… Ela que me manda cozinhar”. Não é assim?! A tribo muda, as pessoas veem televisão.

Então esse outro, como dizer ‘existe um outro do brasileiro’, se têm vários outros dos outros? Vários outros dos outros. Então, nunca houve esse ‘o’ brasileiro. Eu acho que o que ameaça os europeus com relação ao brasileiro é exatamente essa diversidade, essa pluralidade. É por não saber exatamente o que é o brasileiro. Porque nós não temos tanto medo do que conhecemos, medo realmente forte, nós temos medo é do desconhecido. Como, digamos, o monstro – o conhecido do desconhecido. Por exemplo, o que que é o monstro? Por que que a gente tem medo de monstro? Não é porque o monstro é um desconhecido, mas é porque o monstro é um conhecido que a gente desconhece. É alguém que parece gente e não é – eu falo na fantasia, não é?! A cara atrás [da cabeça]. O problema do monstro, e do medo que a gente tem do monstro, é este: deveria ser uma pessoa, mas tem cara de ‘não-pessoa’. Então, é um conhecido que eu desconheço, não é um desconhecido absoluto. Então, o medo, o temor, é a pluralidade, a heterogeneidade, que é o medo cristão da pluralidade. O cristão adora o ‘um’, a unidade, mas a pluralidade é o diabo. Vocês não lembram na Bíblia? Na Bíblia diz assim: “eu me chamo Legião”. É um dos nomes do diabo. Legião é um número múltiplo, é a multiplicidade, enquanto Deus é a unidade, é a garantia da unidade. E o problema do brasileiro é este, essa desidentificação. Ninguém sabe, na verdade. Na Europa qualquer pessoa pode ser um brasileiro. Eu morei em Paris duas vezes. Na primeira vez, eu era, para o francês, ou malgaxe, de Madagascar, ou argelino, tunisiano, marroquino. Na segunda vez, engraçado, eu era brasileiro, mas eu também me anunciava brasileiro. Mas hoje, nas ruas de Paris, às vezes, eu sou parado por árabes para perguntar onde que é a mesquita. Como eu falo um pouco de árabe, eu respondo e, aí, você vê o preconceito do árabe, que também me ocorreu em Paris do sujeito me parar e perguntar “irmão, onde é a mesquita”? O meu árabe não é perfeito, mas está cada vez melhor. Mas o que acontece? O árabe não sabe se você é árabe ou não porque os dialetos são tão diferentes e as pessoas ali falam o árabe tão mal quanto o outro. E eu respondi que tinha uma na Rue Monge, a grande mesquita de Paris, fica na Rue Larrey, atravessando a Rue Monge. Aí, olha, eu disse isso aí para ele em árabe. Aí ele disse “ah, muito obrigado”, não sei o que e aquilo. “Ah e você é muçulmano de que país”? Eu disse “não sou muçulmano e eu sou brasileiro”. E ele cuspiu no chão na hora de sair, com raiva [risos]. Ele não admitiu que eu não fosse muçulmano e estivesse falando com ele em árabe – um preconceito danado! Depois dizem que o francês que é preconceituoso. Preconceito tem em todo lugar. Ele não suportou. Eu pareço argelino, malgaxe, mas, se diz que é brasileiro, é brasileiro. Ela [apontando para uma repórter na sala], que é loirinha, você diz que é brasileira em Paris também é aceito que você é brasileira, não vão pensar, embora ela possa passar por francesa, ou alemã, ou italiana. Então, isso aí já fica mais claro. Então, não há “o” outro, o outro do Brasil é a unidade, para responder a sua pergunta. O Brasil é a heterogeneidade, a pluralidade – e é isso que devemos valorizar com o potencial da internet, porque o concreto universal não é o ‘um’, não é a cultura única, o pensamento único, a sabedoria única.

O universal é a pluralidade. Então, o universal concreto é o plural, é a diversidade humana. É a questão da diversidade humana, esse que é o concreto. Nós somos diferentes. Um caubói gordo do Texas é tão diferente de um francês quanto é diferente de mim ou de você e, no entanto, o francês se dá unidade, “eu sou francês” – não é?! – ou “eu sou branco”, de nacionalidade europeia, e o caubói também, naquela superioridade dele, reacionário – porque nada é mais reacionário que o caubói texano [risos] -, mas somos muito diferentes e isso que a escola tem que conquistar, aprender a lidar com a diversidade. Aprender a lidar com a diversidade é difícil, é muito difícil.

O senhor certa vez declarou acerca das manifestações no Chile, nos países árabes, que as redes sociais só ajudaram para disseminar palavras, por que o que resolve, entre aspas, é pedra na mão. O senhor poderia conceituar “pedra na mão”?

M.S.: [risos] Literalmente é isso. Eu acho que é movimentação de corpo, é tomada física mesmo. Enfrentamento. É isso.

MUNIZ SODRÉ: “O CAPITAL NÃO GOSTA DE GENTE. O CAPITAL GOSTA DE CAPITAL”, pelo viés de Bibiano GirardGianlluca SimiRafael Balbueno e Tiago Miotto

bibianogirard@revistaovies.com

gianllucasimi@revistaovies.com

rafaelbalbueno@revistaovies.com

tiagomiotto@revistaovies.com

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