Série de televisão americana é usada para criticar concepções racistas

Por Jonas de Moura*

Em nova simulação de coletiva, a visibilidade de grupos sociais na mídia entrou em debate no Laboratório de Comunicação Crítica: Técnica de linguagem jornalística aplicada. Dessa vez, os alunos do ciclo básico da Eco receberam a doutoranda em Comunicação Danubia Andrade, que falou sobre a representação dos negros, a partir de análise do seriado Todo mundo odeia o Chris, exibido pela TV Record. A produção norte-americana conta a história de Chris, um garoto negro e pobre, que se vê obrigado a conviver com os preconceitos típicos da realidade segregacionista dos Estados Unidos nos anos 80.

A escolha da série para servir de instrumento de pesquisa foi motivada por aspectos presentes nele que, segundo a convidada, não são observados na teledramaturgia brasileira, como a reflexão sobre o racismo e a quebra de estereótipos. “O que me surpreendeu no seriado foi a necessidade de discutir o racismo em todos os episódios e de uma maneira inteligente, entrando no estereótipo para desconstruí-lo por dentro”, disse.

Nos episódios da trama, as expectativas dos personagens da escola de Chris quanto à inferioridade econômica do garoto ficam evidentes. Do mesmo modo, ocorrem situações em que os colegas e professores brancos moldam a figura do protagonista negro como um sujeito dotado de habilidades especiais, dentre as quais o talento no basquete.  Outro aspecto destacado foi a invisibilidade da fala do jovem, frequentemente ignorado ao tentar expressar suas opiniões ou até mesmo ao corrigir o próprio nome, pronunciado incorretamente pelo diretor.

Para Danubia, a crítica contida na produção televisiva americana é um reflexo dos movimentos de luta dos negros pelos seus direitos, algo que não acontece com a mesma intensidade no Brasil. “Nós temos uma necessidade de dizer que somos brancos. Fazemos o inverso de uma lógica de orgulho racial que ocorre nos Estados Unidos há décadas”, declarou, lembrando que, nos anos 50, os movimentos raciais conseguiram tirar do ar um seriado em que personagens negros eram ridicularizados.

A ausência de protagonistas negros em horários com grandes níveis de audiência sinaliza, segundo a doutoranda, uma indisposição dos brasileiros para tratar do assunto. “Os personagens aqui são negros apenas na maquiagem, mas não na essência”.  Ela deu como exemplo a personagem Helena, da novela Viver a Vida, que apresentava todos os traços de uma mulher branca, tanto no âmbito profissional quanto no afetivo. “A negritude dela não aparece, então a gente não pode considerar que ela foi, de fato, a primeira protagonista negra numa novela das oito”, afirmou.

Ao final, a convidada disse ser bastante liberal no sentido de não restringir o humor ao politicamente correto, contanto que uma piada sobre negros, judeus ou homossexuais seja expressa no espaço adequado. “Se você começa a resguardar categorias, não tem mais humor. Eu acho que a fala deslocada e fora de contexto é um problema, mas o humor que ridiculariza minorias nos ajuda a refletir. Se isso fosse mais visível, sem tantos estereótipos, poderia ser útil para combater o próprio preconceito. A invisibilidade do racismo brasileiro é o que o mantém”, concluiu.

*Aluno do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: