Racismo pode ser discutido de forma inteligente

Por Déborah de Araujo*

Organizadora e uma das autoras do livro “Culturas e Diásporas Africanas” (Editora UFJF, 2009), Danubia Andrade tem como foco de pesquisa os estereótipos criados sobre os negros na sociedade e na mídia. Também doutoranda em Comunicação na UFRJ, ela falou sobre seu artigo Análise crítica e criativa do seriado Todo mundo odeia o Chris, em entrevista coletiva para graduandos da Escola de Comunicação (ECO), no dia 11 de novembro, no Laboratório de Comunicação Crítica.

A ideia central de Everybody Hates Chris (no original) é narrar as experiências da adolescência do ator e comediante negro e norte-americano, Chris Rock. Chris é um adolescente negro e pobre que mora em Bed-Stuy, bairro periférico da Nova York dos anos 1980. Filho mais velho de um casal que aspira ter uma vida melhor do que a de seus vizinhos, aos 13 anos de idade o menino é mandado para a escola em um bairro italiano.

O garoto tem de enfrentar desafios relacionados ao racismo no bairro violento e na escola de brancos, bem como superar as comparações feitas pelos pais com seu irmão mais novo, as chatices de sua irmã e o medo de inferioridade de sua mãe. Além da figura do adolescente, o seriado possui outro protagonista: a voz over do próprio Chris Rock, “representando a visão do presente sobre o passado”.

O interesse de Danubia pelo seriado deu-se a partir de uma experiência de recepção. O contato com a sitcom aconteceu em janeiro de 2010, enquanto ela coordenava a oficina “A telenovela que a gente (não) vê” no Projeto Rondon, na cidade de Nova Linda, norte do Tocantins. A oficina, que pretendia discutir a telenovela e suas entrelinhas e inspirar olhares criativos para a leitura da ficção televisiva brasileira deu lugar à análise da série exibida nas tardes da TV Record. “As pessoas querem discutir o racismo de uma maneira inteligente”, disse.

Os direitos de transmissão do seriado foram comprados pela Record, em 2006, para preencher buracos na programação da tarde, que é “considerada um horário ruim”. Além disso, os episódios na emissora eram transmitidos direto, sem intervalos. Para a surpresa do veículo, a série passou a ter níveis de audiência muito altos nesse horário.

A mídia reforça a criação de estereótipos

Refletindo sobre as primeiras conquistas do movimento negro, Danubia fez uma comparação desse quadro estre os Estados Unidos e o Brasil. Em 1953, foi tirada do ar uma série americana que mostrava o racismo. No Brasil, apenas 1996 é que conseguiram tirar uma cena que mostrava o mesmo conteúdo em uma novela brasileira.

Essa discrepância entre os dois cenários se dá, de acordo com a pesquisadora, “porque a consciência do negro americano está relacionada ao orgulho racial”. Enquanto que a consciência do negro brasileiro está associada à recusa de suas origens africanas.

Outra questão abordada foi o fato de representantes do movimento negro só terem espaço para falar na mídia no Dia da Consciência Negra. “A gente tem que pensar as questões da representação com muita importância. Não é para chamar o negro para falar no jornal só nesse dia”, afirmou.

A mídia acaba sendo a responsável pela reprodução da maior credibilidade do homem branco, de idade mais avançada e heterossexual como especialista na maioria dos assuntos, como Medicina e Direito, que não passa de uma construção social. “Por que uma pesquisadora negra não pode falar, por exemplo, sobre Literatura Alemã? Por que um pesquisador gay tem que falar necessariamente da homossexualidade?”, questionou.

Apesar da grande audiência de Todo mundo odeia o Chris, o assunto do racismo ainda é tabu no Brasil. Pelo fato de ser um povo “miscigenado”, o preconceito e a condição socioeconômica de grande parte dos negros no Brasil, em geral, não são assuntos levados à discussão. Para Danubia, essas questões não deveriam ser tratadas apenas no dia 20 de novembro, mas, assim como várias outras ligadas às minorias, no sistema educacional e nos meios de comunicação. “Piadas racistas fazem a gente pensar”, concluiu.

*Aluna do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ

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