“O Brasil quer sim, discutir racismo, mas de forma inteligente”

Por Anna Carolina Caldas*

A doutoranda em Comunicação Danubia Andrade simulou entrevista coletiva para os alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da ECO/UFRJ sobre o tema de racismo e mídia, focado no seriado norte-americano Todo mundo odeia o Chris. Buscando compreender o porquê do sucesso do seriado, que chegou ao Brasil quase ao acaso, a pesquisadora trabalha as raízes negras presentes no conteúdo da série e aponta o quanto as pessoas desejam conversar sobre a questão racial existente no país.

Ao explicar que desde o início, a televisão norte-americana é feita com personagens e programas negros, Danubia comentou a força das organizações dos direitos raciais nos EUA e a falta de orgulho dessa negritude no Brasil. Disse que a força do movimento negro naquele país pode ser vista nas transmissões televisivas, como a obrigação da televisão norte-americana de colocar um ator negro como protagonista, quando há alguma história falando sobre a escravidão. Já no Brasil, observou que os negros geralmente não atuam em papéis principais e, ainda, necessitam do “bom protagonista branco” para aceitar sua condição humana “como se a liberdade não fosse um valor”, esclareceu.

A pesquisadora analisou personagens do seriado e seus comportamentos em algumas cenas específicas. Em especial, a mãe do Chris, seus professores e colegas da escola. Em uma cena, o professor e técnico de educação física tenta tirar vantagem de Chris, por acreditar que todo negro é habilidoso para o basquete. Ao analisar a cena, Danubia comentou sobre a invisibilidade do sujeito real, que não é definido como alguém, mas sim a partir do recorte racial.

Em outra cena, a mãe do Chris discute a questão da raça de forma convergente com a professora. A senhorita Morello encarna o discurso de caridade por acreditar que os negros não possam ter boas condições financeiras e a mãe, por compreender o estereótipo em que está inserida, busca provar que não é miserável para quebrar o estereótipo, na qual vive sua família, explicou a pesquisadora.

A doutoranda disse, ainda, que o seriado é uma denúncia com discursos leves das questões sérias. A fim de quebrar estereótipos e não deixar que a opinião do outro interfira na formação individual, o sitcom busca expor a realidade do negro na sociedade norte-americana.

Para a pesquisadora, as pessoas pensam que quando há reconhecimento há conhecimento. “Se o outro não me vê, ou se o outro me vê deformado, eu passo a me ver dessa forma, existindo por trás desse discurso uma ideologia que desumaniza. É necessário um debate e uma mudança da mídia para que esses conceitos sofram mudanças”, ressaltou.

Danubia afirmou que essa mudança se torna possível no momento em que seriados como Todo mundo odeia o Chris passam a ser líderes de audiência da televisão, mostrando a vontade das pessoas de discutir temas, antes dados como tabus. Disse que as pessoas querem e estão prontas para falar de racismo e preconceito de forma clara e eficiente.

*Aluna do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ

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