Doutoranda utiliza seriado americano para tratar de preconceitos de raça

Por Frederico Vreuls*

A produção televisiva reflete discursos que estão incorporados à sociedade. Mesmo que em formatos humorísticos, voltados para o entretenimento e descontração do espectador, seriados abordam temas de relevância no debate popular. É o que defende Danubia Andrade, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em coletiva concedida na faculdade. A pesquisadora realizou um estudo da série norte-americana Todo mundo odeia o Chris. O seu trabalho, de visão crítica, mostra que a crença nos problemas do racismo como uma etapa da história já superada, não corresponde exatamente à realidade.

O seriado exibido no Brasil, em sua versão legendada pela Sony, e na versão dublada pela TV Record, evidencia, segundo a pesquisadora, como a diferença entre brancos e negros ainda é palpável e como os estereótipos permanecem atuantes no imaginário coletivo. A exibição de uma série com cunho de crítica social em um dos grandes canais da mídia internacional, “expondo uma faceta de nós mesmos que é por vezes escondida de forma envergonhada, é ferramenta capaz de aprofundar o conhecimento e desconstruir comportamentos”, acredita.

Por meio da análise de cenas e situações do seriado, protagonizado pelo menino negro Chris Rock, a doutoranda tratou de como o corpo, por si só e independente da vontade do próprio indivíduo, transmite uma carga de informações a seu respeito. Afirmou que o fato de uma pessoa nascer com a cor de pele escura faz com que toda a sociedade em volta passe a esperar algo dela. Tal expectativa implica no estabelecimento de que certas obrigações. Assim são formados os estereótipos. Danubia exemplificou alguns deles ligados aos negros, como no Brasil a associação entre esses e a capacidade de dançar, enquanto nos Estados Unidos isso se dá em relação aos esportes e também à sexualidade.

A estudiosa ressaltou que essas informações e noções, porém, são pré-concebidas, não passam por um processo mental de juízo. “O preconceito é gerado pela naturalização de comportamentos. Quando se assume um clichê, você não busca conhecer e compreender o outro”, ponderou. Acrescentou ainda que o formato sitcom de Todo mundo odeia o Chris é divertido, ligeiro, mas denuncia e incomoda; “os negros no Brasil e EUA possuem pouca mobilidade social e baixa visibilidade”. Disse que o espaço concedido na mídia para esse grupo populacional revela uma condição de inferioridade de direitos em relação aos brancos, se encontrando assim comprometidos o seu papel, representação e voz dentro do campo social.

Para concluir, Danubia estendeu o debate pensando em, como mesmo o discurso a favor da afirmação da cultura afro feito pelos grandes veículos de comunicação e organizações, está contido de uma mesma lógica de pensamento excludente. Argumentou informando que o movimento negro, por exemplo, de Juiz de Fora, se recusa a dar depoimentos no dia 20 de novembro. Segundo ela, “tudo é transformado em uma data dentro do calendário, quando na verdade o debate deve ser diário”.

* Aluno do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ.

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