Comunidades “querem fazer repercutir suas vozes”

Por Gabriel Demasi*

A doutoranda em Comunicação, pelo Programa de Pós-Graduação da ECO/UFRJ, Priscila Vieira propõe análise das relações entre cultura e mídia nas comunidades cariocas, a partir das obras de Debord, Kellner, Bauman e pesquisadores brasileiros.

No artigo Jornais cariocas, favela, funk e tecnobrega: olhares críticos sobre as relações entre grande mídia e cultura no Brasil, a pesquisadora mostra que a chamada “grande mídia” vem reforçando, ao longo de décadas, preconceitos e estereótipos em relação às comunidades cariocas, deslocadas da produção e difusão midiática. O artigo foi apresentado no XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em Recife, em setembro de 2011.

A constatação também é feita pelos próprios atores sociais. Participantes do I Encontro Nacional de Correspondentes Comunitários do Viva Favela, que aconteceu em julho na capital fluminense, fizeram o seguinte apelo: “A mídia comercial não deve restringir a cobertura do cotidiano das favelas às páginas policiais ou aos programas populares de rádio e TV”.

Para analisar as relações de cultura e mídia nesse contexto social de marginalização, Priscila partiu do estudo de autores e pesquisadores de linhas críticas da comunicação. O primeiro deles foi o francês Guy Debord, que desenvolveu, nos anos 1960, a teoria da sociedade do espetáculo. Explicou o conceito criado pelo autor, para quem o espetáculo não é mero conjunto de imagens, mas a relação social entre pessoas e classes, mediada por imagens. “Estas, uma vez separadas da realidade, ganham autonomia e sustentam o que ele denominou ‘inversão concreta da vida’”, frisou.

A segunda linha adotada pela pesquisadora foi a do norte-americano Douglas Kellner, que carrega consigo muito da influência debordiana. “Kellner busca entender através de exemplos concretos qual é a influência dos espetáculos na organização da política, da economia, da sociedade e da vida cotidiana contemporânea. Ele aponta a extravagância e sensacionalismo dos produtos e conteúdos que repercutem na mídia”, completou.

Já o polonês Zygmunt Bauman também foi escolhido por se aprofundar mais na relação entre comunicação e globalização na contemporaneidade. Segundo Priscila, para Bauman, as novas tecnologias da comunicação não aumentam a interatividade, mas acentuam as distâncias entre a elite global e as periferias ou grupos locais. Ele critica as restrições impostas às periferias, acerca do direito de ir e vir e da produção de informações nos meios já dominados por empresas e corporações. O autor acrescenta que o ciberespaço, cujo acesso é mediado por provedores, é restritivo.

Priscila também se baseou em pesquisa produzida pela professora Raquel Paiva e a doutoranda Gabriela Nóra, que se pautaram na compreensão e aproximação das diferenças sociais, adaptando à singularidade do homem ao espaço. As autoras constataram que o conteúdo veiculado sobre a periferia carioca fundava-se na tríade favela-tráfico-violência, deixando de lado outras questões como moradia e necessidade de políticas públicas, não traduzindo, portanto, a complexidade das comunidades. A forma sensacionalista e mercadológica demonstrava indiferença à questão humana, atribuindo ao tráfico o caráter espetacular.

No artigo, Priscila observou que o fato de existirem movimentos sociais em curso nessas comunidades revela insatisfação em relação aos modelos comunicacionais excludentes, propagados pelos principais veículos em atuação na mídia. “Esses movimentos, mesmo que marginalizados, produzem suas próprias formas de comunicação na contra mão da lógica espetacular de mercado. A criação de rádios comunitárias, associações, novas manifestações musicais é prova de que comunidades que se veem estigmatizadas e não-representadas querem fazer repercutir suas vozes”, concluiu.

*Alunos do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da UFRJ

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