Doutoranda fala sobre Defesa de Direitos para alunos de Comunicação na UFRJ

Por Déborah de Araujo*

A crise da representatividade política tem dado espaço para que cada vez mais as pessoas busquem participação nas decisões do Estado. Seguindo esse pensamento, a doutoranda em Comunicação e Cultura, Priscila Vieira, falou sobre seu trabalho ligado à Defesa de Direitos (Advocacy) na coletiva de imprensa com alunos da Escola de Comunicação (ECO) na última sexta-feira (21 de outubro).

De acordo com Priscila, as constantes transformações sóciopolíticas no mundo atual são frutos da crise da democracia representativa. Para muitos acadêmicos, esse modelo de organização política próprio da Modernidade teve como fim simbólico o genocídio étnico que ocorreu no Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma das características da defesa dos direitos é assegurar que o poder do Estado seja bem usado, de forma que tragédias sejam impedidas de se repetir. A realização da Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas em 1948 foi um pano de fundo, um apoio para este movimento que busca dar voz a quem não tem poder.

No contexto atual, a defesa dos direitos está inserida no discurso da população “eu não quero só votar em quem me represente. Eu quero participar do processo de decisão”. Seguindo o pensamento de que “as relações sociais já estão atreladas à mídia”, então a mesma poderia ser utilizada como forma de participação.

Esse mesmo desejo pelo aumento da participação democrática da sociedade estaria sendo favorecido pelas novas tecnologias de comunicação são responsáveis pelo. Entretanto, a pesquisadora alerta que isso também acarreta maior controle social por parte do governo. “As pessoas não controlam o satélite que leva Internet até as suas casas, é o Estado que faz isso. O Estado acaba tendo acesso aos seus dados”.

O empoderamento dos excluídos e a situação da mídia no Brasil

Priscila Vieira também é professora do Laboratório de Comunicação e Globalização na ECO. No trabalho com seus alunos, ela ensina como realizar campanhas de defesas de direitos com o objetivo de empoderar os grupos excluídos da representatividade política e da visibilidade midiática.

Como exemplo, a doutoranda falou de uma campanha promovida pela Rede Fale, (Speak Network) de forte aspecto religioso e universitário. Foi feita uma mobilização nacional através de cartões postais sobre a situação da cidade Marabá (PA). Nessa localidade, moradores das margens do rio Grota Criminosa estavam vivendo em condições precárias sem políticas públicas de saneamento básico.

Esse quadro se originou a partir da década de 1970, quando a cidade começou a receber um forte fluxo de migração devido à implantação da filial da empresa Vale do Rio Doce na região. Entretanto, não houve planejamento urbanístico para atender ao crescimento populacional.

Com colaboradores da própria região, a Rede Fale produziu cartões postais para serem enviados para o escritório da Vale no Rio de Janeiro. O conteúdo do material continha informações sobre a situação, bem sobre a rede e os tipos de campanhas com a qual trabalha. Através de comunicação direta da Internet, o fato ganhou repercussão nacional.

A pesquisadora chamou atenção por essa campanha não ser uma forma de comunicação comunitária. A conscientização nacional a respeito do problema de saneamento básico em Marabá foi produto de uma “ação de mídia alternativa”. Os grandes veículos midiáticos não demonstraram ter interesse na campanha.

Segundo Priscila, “do ponto de vista da comunicação, há uma grande dificuldade de gerar visibilidade para essas questões tão graves, como no estudo do caso de Marabá.” O problema não é nem exatamente a mídia brasileira, mas o fato de que “a noção de público não foi consolidada no Brasil. Ainda é muito restrita às elites.”

A “influência do olhar do grupo dominante como o verdadeiro” na mídia ainda é o grande obstáculo para se diminuir a desigualdade no Brasil. “É como se os grupos que não têm visibilidade não existissem. Fica difícil ter acesso às políticas públicas, de receber verba do governo para ações comunitárias”, afirma a professora.

Mesmo assim, “nem por isso deve-se desacreditar no jornalismo crítico”, disse Priscila. As relações de comunicação são muito sutis. “A mesma rotina corrida que prende os jornalistas, também gera brechas. Às vezes o editor não presta atenção e aquela informação que não caberia na proposta do jornal, passa”, explicou a doutoranda.

*Aluna do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ

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