Da peste gay à homofobia equivocada

Por Gabriel Demasi*

O mestrando em Comunicação e Cultura da ECO/UFRJ, Luiz Coletto, traçou um panorama da homossexualidade e apontou as mudanças na abordagem da temática LGBTTT (Lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros) pela mídia, em simulação de coletiva para alunos do Laboratório de Comunicação Crítica.

Ele contou a história de um casal que foi vítima de homofobia, no interior de São Paulo, em julho deste ano. Homofobia, entretanto, equivocada. Os agressores interpretaram a vítima, um homem, de 42 anos, e seu filho, de 18, como um casal gay enquanto estes demonstravam afeto em público. O pai teve parte da orelha decepada e o filho sofreu lesões leves. Para Coletto, esse caso foi “ironicamente positivo”.

Coletto, bacharel em Comunicação Social-Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e autor de diversos artigos sobre a temática gay, afirmou que este acontecimento mostrou para a sociedade que a heteronormatividade, conceito ao qual dedicou grande parte de sua fala, está sendo transformada.

O mestrando definiu a heteronormatividade como a marginalização de todas e quaisquer variações da orientação heterossexual, baseada na ideia de que o ser humano deve ser classificado em duas categorias: macho ou fêmea. Segundo Coletto, isso implica que as pessoas sejam enquadradas dentro de normas integralmente masculinas ou femininas. Em suma, a heteronormatividade é a disseminação mais ou menos explícita de que a única orientação “correta”, “normal”, “aceitável” seria a heterossexualidade.

Para explicar seu ponto de vista, o pesquisador discorreu sobre diversas “fases” da representação da homossexualidade pelos veículos de comunicação, desde os tempos em que era considerada como pecado, crime, doença (progressivamente), até se tornar uma questão de identidade.

O estudioso baseou-se em seu artigo A Homossexualidade em Veja: limites terminológicos e expansões de sentidos, pulicado na revista Eco-Pós, em que faz análise minuciosa do léxico escolhido pela revista para se referir aos homossexuais, desde os anos 1980 até os dias atuais. Ele pode observar uma gradual mudança. Há 30 anos, a publicação denominava a Aids como “peste gay”. Em 2005, a capa de sua edição de número 1936 estampava a frase “Sou bi, e dai?”, da cantora Ana Carolina, um dos maiores nomes da nova música brasileira.

A abordagem dos veículos, de acordo com ele, tem a ver com a mudança na forma com que a sociedade mesma vem encarando a homossexualidade. Razões para essa maior aceitação seria o aumento da visibilidade de movimentos como o LGBTTT e de seu lobby na cena política no Brasil e no exterior, em países como os EUA, referência na defesa dos direitos dos homossexuais.

“Ainda existe muito preconceito, como podemos ver nas matérias sobre a dançarina Lacraia e a modelo transexual Léa T., a que se faz frequentemente referência com o artigo masculino”, ressalta Coletto. Para ele, a homossexualidade tende a se resumir a mais uma possibilidade, uma das múltiplas identidades que se pode assumir hoje. “Como diz o argentino Osvaldo Bazán em um texto seu, ‘a homossexualidade tem que voltar a ser o que nunca deveria ter deixado de ser: nada’”, concluiu.

*Aluno do ciclo básico do curso de Comunicação da ECO/UFRJ

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