Pesquisadora analisa o Candomblé de modo não eurocêntrico

Por Paulo Hora de Andrade III*

Em simulação de entrevista coletiva com alunos de Comunicação Social da UFRJ, a pesquisadora Waldelice Souza abordou o tema do Candomblé. Logo no início da apresentação, ela enfatizou que seu modo de pesquisa procurava analisar a cultura africana a partir de uma visão não eurocêntrica, o que dificilmente ocorre. Em seguida, disse que a religião de matriz africana não apresenta uma uniformidade nos diferentes locais onde é praticada. No Brasil, por exemplo, as características dessa prática religiosa são bem diferentes do que se observa na África. Encerrando, a pesquisadora explicou alguns conceitos básicos do Candomblé, como o seu caráter animista, identificado nos diálogos presentes nos sistemas simbólicos, e as funções dos chefes da religião, os chamados “babás”.

Após a apresentação, iniciou-se a sessão de perguntas. A primeira questão foi se, na opinião dela, existe uma hegemonia da cultura católica no mundo acadêmico. A resposta foi afirmativa, com a ressalva de que hoje o poder público, ao menos, reconhece o Candomblé como patrimônio social, apesar do aumento da agressividade religiosa. Waldelice afirmou, ainda, que muitos objetos de estudo são considerados desimportantes porque, para se fazer um bom trabalho, é necessário que haja envolvimento do pesquisador com seu objeto e, como no caso do Candomblé, questões religiosas e culturais impedem essa aproximação.

Sobre a abordagem da mídia a respeito do Candomblé, a opinião da pesquisadora é de que as empresas de comunicação difundem o preconceito. Ela citou, no caso das redes de televisão, a Globo, que é católica, e a Record, protestante. Nessas emissoras, a religião de matriz africana é apresentada de maneira negativa e distorcida. Esse fato fez Waldelice questionar a concessão dos direitos de transmissão da televisão, alegando que deveria ser exigido um posicionamento laico das emissoras. Quando se perguntou como é possível enxergar uma cultura de forma não-eurocêntrica, ela reconheceu que é difícil, mas disse que se deve tentar entrar no sistema, sem, no entanto, ter de se converter. Esclareceu ainda que o importante é ser capaz de entender um sistema simbólico diferente, mesmo que ainda haja, em parte, a presença de uma perspectiva eurocêntrica. O desejável é que exista diálogo entre as culturas.

A entrevistada foi questionada, em seguida, se o Candomblé interfere nas políticas públicas de Angola. A resposta foi negativa, com a justificativa de que Angola é um país oficialmente católico, o que reflete a imposição da cultura eurocêntrica aos angolanos, que são forçados a assimilar o catolicismo e aprender a língua portuguesa. Para a pesquisadora, isso é um fator que desvaloriza a cultura local e só favorece os interesses externos, a que um país rico em petróleo e diamante como Angola sempre foi submetido.

A última questão da entrevista foi um pedido para a pesquisadora falar sobre crenças e valores morais particulares do Candomblé. Waldelice confessou ter dificuldade em identificá-los, mas respondeu à pergunta; disse que, na percepção dela, existe muita liberdade sexual nessa religião e até um certo estímulo à homossexualidade, o que está ligado a uma crença na “divindade feminina”. Além disso, há a caracterísitca de humanização dos orixás, que possuem qualidades e defeitos, e a atribuição de diferentes valores morais a cada baba. “O Ogum, por exemplo, não tenta compreeder o inimigo e é representado pela espada para significar luta, enquanto o Oxóssi atua como diplomata, pois busca o diálogo para resolver os problemas”, concluiu.

*Aluno do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ

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