Pesquisa analisa simbologia do homem no Candomblé brasileiro

Por Matheus Qualhas*

Responsável pela pesquisa destaca dificuldade e preconceito dentro da academia

Em simulação de entrevista coletiva, realizada no campus da UFRJ na Praia Vermelha, a doutoranda Waldelice Souza esclareceu os pontos principais de sua pesquisa, relatando a dificuldade de realizar trabalho com um tema africano, utilizando conceitos e autores europeus e ocidentais, assim como a falta de outros trabalhos sobre o tema. Waldelice é Mestre em Ciências da Literatura pela Faculdade de Letras da UFRJ.

A pesquisadora contou que as maiores dificuldades foram quando buscava fontes e autores para se basear durante o trabalho: “Parei e pensei: por que fazer uma nova análise sobre um tema recorrente? Mas o problema foi encontrar autores e estudos que dialogassem com o universo africano.” Explicou que essa dificuldade ocorreu porque a maioria dos pesquisadores, mesmo quando tem seu objeto de estudo no continente africano, prefere e recorre a autores eurocentristas, “O ocidente detém essa tradição na academia.”, completou.

Uma das soluções que a pesquisadora encontrou foi traçar um paralelo que demonstrava claramente as diferenças entre a simbologia ocidental eurocêntrica do homem e a simbologia africana, objetivo da pesquisa. Ela analisou a escultura O Pensador, de Rodin e uma escultura difundida popularmente em Angola, que também retrata um pensador. “Enquanto a famosa obra em bronze de quase dois metros de altura demonstra introspecção e tensão, o trabalho típico de Angola se caracteriza pela harmonia da mensagem, simbolizando uma relação orgânica com a terra”, esclareceu a doutoranda.

Durante o desenvolvimento da pesquisa, ela explica que buscou observar a eficácia dos atos rituais e os fatos concretos conseqüentes da magia realizada na religião para assim legitimar o sistema de signos presente no Candomblé brasileiro. Apesar da ação explicativa da pesquisa, a doutoranda descartou qualquer caráter conclusivo, como um panorama geral, da religião estudada: “Algumas coisas eu não tive permissão de ver ou relatar, mas isso não foi uma barreira. Isso faz parte da cultura do grupo e meu objeto de análise está justamente voltado para o que eles querem mostrar.”

A autora também respondeu a perguntas sobre a relação das outras religiões com o Candomblé. Disse que há uma demonização feita pela igreja Católica. “Atualmente esse preconceito é mais por parte das pentecostais e neopentecostais, que praticam também a alegorização, principalmente dos rituais que incluem animais no Candomblé”, afirma. A mídia foi outro ponto de crítica, que, de acordo com a autora, ao invés de laica, assume posições claras de defesa a uma ou outra religião: “A Record é a igreja Evangélica, enquanto a Globo é a igreja Católica. Não há necessidade de um antagonismo entre religiões, isso é uma invenção, é fabricado”, resumiu.

* Aluno do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ

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Um pensamento sobre “Pesquisa analisa simbologia do homem no Candomblé brasileiro

  1. Realmente há uma grande dificuldade de se pesquisar as matrizes africanas nesta universidade. Além da falta de professores para nos orientar, é difícil – se não raro – encontrar os livros necessários para a elaboração da pesquisa nas várias bibliotecas desta instituição de ensino superior público. Em outras universidades do Rio de Janeiro como a UERJ e a UFF, a pesquisa sobre o nosso povo é bem mais acirrada (inclusive no âmbito de pós graduação) do que nesta academia. Acho que os pesquisadores negros e iniciantes dessa universidade deveriam se unir e fazer uma pressão na comunidade acadêmica da UFRJ, para ver se isso melhora.

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