O simbolismo do Candomblé e a busca de respeito pela religião no Brasil

Por Anna Carolina Caldas*

A doutoranda em Teoria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFRJ, Waldelice Souza, ao falar de sua pesquisa sobre o “Sistema simbólico do homem africano com o Candomblé e como esse acontece no Brasil” abordou as diferentes visões de mundo. Em simulação de entrevista coletiva, ocorrida com alunos do Laboratório de Comunicação Crítica da ECO/UFRJ, a doutoranda comentou seus estudos sobre análise textual de Pepetela e imagens angolanas.

A doutoranda disse que a pesquisa começou, quando ela quis estudar a Angola e seus autores por uma perspectiva diferente da eurocentrada, o que a levou aos livros de Pepetela.  Esse autor é um dos maiores nomes da literatura angolana, que demonstra a realidade da população local e retrata a história do país. Estudar a Angola foi para ela um desafio. Waldelice explicou que ainda existe uma precariedade de textos muito grande e mesmo com seu alto interesse no assunto, a realidade acadêmica não é simples, pois seu tema de pesquisa tende a não agradar uma maioria.

A doutoranda, no entanto, ao pesquisar e se aprofundar nos estudos, foi além da análise dos textos de Pepetela. Ela buscou o simbolismo em imagens do Candomblé e do cotidiano da população angolana. Um de seus estudos é focado em esculturas e suas diferenças, tópico de discussão ocorrida com os alunos.

Ela trouxe como exemplo duas esculturas, a primeira, O pensador, de Rodin, feita para pontuar a entrada da porta do inferno de Dante, autor de “A Divina Comédia” e hoje abrigada em um museu de Paris. “É uma visão de uma pessoa, o escultor, sobre uma visão também específica de um mundo, a dos cristãos que acreditam em inferno”, disse.

Já a segunda escultura, também de um Pensador, de autoria anônima, retrata a visão angolana. Foi analisada a partir da diferença não só na forma, mas na coletividade da mesma. A pesquisadora afirmou que é uma escultura que demonstra equilíbrio, mostra a visão de um povo sobre o cotidiano, construído de forma coletiva, já que não possui um escultor único, mas sim vários escultores anônimos.

Ao partir do conceito de pluralidade do mundo, a entrevistada procurou reconhecer a pluralidade de pensamentos e perspectivas, com ênfase nas diferenças entre as visões africanas e eurocêntricas. Ela buscou reconhecer na religião do Candomblé, em especial, na Angola e no Brasil, uma diferente percepção de mundo.

De acordo com Waldelice, o Candomblé é um pensamento não eficaz para nós, que temos barreiras pela concepção ocidental. “Esse eurocentrismo é um problema não por ser uma perspectiva diferente, mas sim porque se considera a única visão possível”, explicou. A autora disse que para se diminuir essas barreiras é preciso compreender o Candomblé.

Ao comentar a situação no Brasil, onde as religiões pentecostais e neopentecostais são muito agressivas, afirmou que estas utilizam recursos financeiros visando acabar com as religiões do Candomblé. Para a pesquisadora, a situação é agravada pela mídia, que tende a difundir o preconceito. Criticou o sistema de concessão de direitos de transmissão, defendendo que a mesma deveria ser laica ou, ao menos ser feita de forma equilibrada para todas as religiões. Fato que não acontece no Brasil, pois as maiores redes televisivas do país são cristãs.

A entrevista considera que a mídia prática um discurso de exagero e alegoria, o que evita a aproximação do público pelo afeto. Ela disse que as pessoas apresentadas pelos meios de comunicação trazem um distanciamento da vida cotidiana e que ao falar do assunto criam preconceito de público para com a religião.

Essas situações, para a autora, geram a “barbárie” e uma falta de comunicação. Uma pessoa não sendo capaz de compreender o sentido de outro, vira intransigente ou indiferente. “No momento em que um homem é proibido de opinar e mostrar seus verdadeiros valores, a intransigência gera a guerra e a indiferença falta de solidariedade ou amor e impossibilita de uma pessoa se ligar a outra”, acrescentou.

Ao terminar a coletiva com uma frase de extrema delicadeza e consideração para com a diferença, a pesquisadora mostrou que seu estudo busca mais do que apenas instruir, e sim gerar uma tolerância e respeito para os adeptos da religião.

*Aluna do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ

Anúncios
Etiquetado ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: