Pesquisador afirma que homossexualismo só saiu do campo da patologia na década de 60

Por Matheus Quelhas*

Em coletiva de imprensa realizada na Central de Produção de Mídia, na Praia Vermelha, o mestrando em Comunicação da ECO, Luiz Henrique Coletto, levantou a questão da abordagem da mídia em relação à sexualidade ao longo da história. Destacou a importância dos movimentos feminista e LGBTTTs, além da divulgação da AIDS, que colocou o sexo na pauta de discussões da sociedade, e da construção social da heteronormatividade.

Coletto é formado em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria-RS, mas não exerce diretamente a profissão. Teve experiência apenas como estagiário em uma rádio comunitária, e confessa a preferência pelo ambiente acadêmico: “A pesquisa sempre chamou mais minha atenção.” A representação da sexualidade na mídia é o tema que o pesquisador pretende aprofundar no mestrado. Ele pretende trabalhar os processos históricos e movimentos sociais que possibilitaram a evolução do discurso midiático em relação à sexualidade em geral, e a homossexualidade, em particular.

Coletto começou a coletiva situando historicamente a sexualidade. Afirmou ser o século XIX o ponto de partida, com o surgimento das Ciências Sociais, que aparecem como forma racional de entender e explicar a sociedade, extremamente transformada após os acontecimentos do século XVIII (como as Revoluções Francesa e Industrial). Explicou que na mesma onda desses processos de transformação da sociedade vem o declínio da Igreja, como instituição até então que ditava regras sociais, entre elas o estabelecimento do homossexualismo e da abordagem da sexualidade em si como pecado.

O mestrando situou a criminalização e pouco depois a patologização da sexualidade, na onda dos avanços da medicina e disse que a partir de 1960 a coisa mudou radicalmente de figura com o surgimento da pílula anticoncepcional. “Até então as mulheres não tinham controle sobre o seu corpo, sobre o sexo. O acontecimento deu fôlego para o movimento feminista”, esclareceu. A chamada “Revolução Sexual” (termo cunhado pelos americanos) transformou os conceitos e o tema da sexualidade para toda a população norte-americana.

De acordo com Coletto, a homossexualidade passou a ser vista de maneira mais aceitável e foi menos marginalizada a partir dessa época. Contou que foi também nos anos 60 que surgiram novos estudos sociológicos colocando o homossexualismo do campo das doenças, desqualificando tratamentos como a lobotomia, uma intervenção cirúrgica no cérebro daqueles que eram classificados como portadores da “doença gay”.

Coletto disse, ainda que apesar dos avanços acumulados ao longo da década de 60 e 70, o movimento gay sofreu um duro golpe na década seguinte, com o surgimento do vírus da AIDS. O conservadorismo, “velado” nas duas últimas décadas, volta com força total, coincidindo com um momento político conservador e economicamente liberal, ou seja, enfraquecimento do Estado e de suas instituições. Ele observou que houve um lado positivo na chegada do vírus na sociedade. “Independente de positiva ou negativamente, a doença trouxe o tema do sexo e da sexualidade à tona de maneira irreversível”, opinou. Segundo Coletto, nesse momento, a mídia voltou a condenar o homossexualismo, tratando a doença como “Peste Gay”, “Câncer Gay”, mostrando preconceito e desconhecimento dos modos de transmissão da Aids.

O estudante também destacou a construção social da heteronormatividade, principal empecilho da implementação do “kit gay” nas escolas públicas brasileiras, em sua opinião. Ele defendeu o Manual de Comunicação LGBTTTs, no qual o próprio movimento cria uma linguagem não ofensiva para a imprensa se expressar. “Acho que é importante, ainda que em fase prematura. Nos Estados Unidos, por exemplo, há um grande contingente de pessoas fiscalizando o tempo todo o que é dito na imprensa sobre os gays. Se em algum momento de maneira ofensiva ou preconceituosa, o canal de comunicação sofre com os protestos”, esclareceu. Outra questão levantada foi a decisão a favor de a união estável ser decidida no judiciário, e não no legislativo como nos Estados Unidos: “Tem a ver com a maturidade da nossa democracia, que é muito recente. Ainda assim é um grande avanço”, concluiu.

 *Aluno do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ.

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