Pecado, crime, doença: reflexões (e renovações) da ideia de homossexualidade

Por Leandro Resende*

O mestrando em Comunicação e Cultura da ECO/UFRJ, Luiz Henrique Coletto, concedeu entrevista coletiva aos alunos do Laboratório de Comunicação Crítica: Técnica de Linguagem Jornalística Aplicada, no último dia 2 de setembro.  Gaúcho, formado em jornalismo pela UFSM, Coletto não se interessa pelo jornalismo clássico produzido nas redações de jornal, tendo tido breves experiências nessa área. Seu enfoque é a pesquisa acerca das relações entre homossexualismo e mídia, temática que permeia suas reflexões desde antes do início da vida acadêmica.

De saída, o mestrando apontou para a emergência do tema da sexualidade nas ciências humanas e sociais a partir do século XIX, e para o aumento de importância que o assunto adquiriu no século XX. Segundo ele, nesse momento o sexo passou a ser elemento constitutivo da identidade. Entretanto, é a partir de 1869 que seus estudos adquirem maior densidade. Nesse ano surge o termo homossexualidade, que não existia na Antiguidade Clássica e na Idade Média. Explicou que até essa data, o homossexualismo era tratado como pecado. Daí em diante passou a ser criminalizado, caráter que se mantém inalterado em alguns lugares ainda hoje, e como doença, que perdurou até 1993.

O pesquisador contou que é na efervescente década de 1960 que ocorrem alguns eventos contestadores do caráter patológico do homossexualismo, como o movimento feminista, o surgimento da AIDS, o desenvolvimento da pílula anticoncepcional e a eclosão do movimento LGBTTTs.  Esses eventos, cada um a sua maneira, contribuíram para que a questão da sexualidade em geral e do homossexualismo em particular, adquirissem centralidade nas discussões sobre identidade. Coletto chamou a atenção para o tratamento dado a AIDS pela Revista Veja, retratada em suas páginas como  “peste gay”, ou  “câncer gay”. O mestrando partilha da opinião de que, embora se trate de uma caracterização pejorativa e pouco verdadeira, esse tratamento contribuiu para a sociedade iniciar uma discussão sobre a sexualidade.

Coletto disse que um dos pilares da cultura moderna é a ideia de heteronormatividade, sexualidade compulsória que implica uma série de condutas predominantemente hipermasculinas. Em virtude dessa matriz de pensamento heteronormativa, o entrevistado acredita que a culpabilização das vítimas de estupro no Brasil, as agressões sofridas por mulheres em determinadas culturas orientais, e a homofobia, partem de um ideário machista institucionalizado desde a infância, a partir da valorização exacerbada da masculinidade.

O senso comum possui internalizada uma ideia de que a mídia é algo dotado de imparcialidade. Coletto contesta a validade desse pensamento, indicando que frequentemente a mídia dá espaço a ativistas antigays quando se discute essa temática, numa pretensa tentativa de estabelecer os “dois lados”, ou o “outro lado” de uma discussão.

O homossexualismo é um tema em destaque em todas as esferas de discussão da sociedade brasileira atual. Exemplo disso é a recente aprovação da união estável entre pessoas do mesmo sexo, ocorrida em maio no STF. As novelas, uma das expressões mais populares da cultura brasileira, tem frequentemente produzido representações, por vezes caricaturais, dos homossexuais. Sobre esse ponto, Coletto apontou para um avanço, visto que os homossexuais representados começam a fugir um pouco da representação caricatural, mas as relações mostradas ainda carecem de afetividade. O mestrando considera difícil aferir o impacto dessas representações na opinião pública, mas acredita que esta progressivamente tem diminuído sua rejeição aos personagens homossexuais.

O pesquisador mantém, desde 2008, o blog Queer and Politcs, no qual desenvolve e aprofunda os temas tratados na entrevista, refletindo sobre a homossexualidade como elemento constitutivo da sociedade.

*Aluno do Ciclo Básico do Curso de Comunicação da ECO/UFRJ.

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