História da Rádio Santa Marta em livro

Desmotivação, marginalização, perseguição. É o que cabe às rádios comunitárias no Brasil, mesmo que elas prestem serviços de utilidade pública, principalmente a grupos subalternizados. Quando se busca as vias legais, a burocracia é tão grande que a outorga (quando é dada) pode demorar alguns anos para ser concedida. E quando a escolha é funcionar na clandestinidade, o destino praticamente certo é o fechamento à base da violência. Emerson Cláudio dos Santos, o Fiell, foi um dos muitos mobilizadores locais que não puderm esperar tanto tempo para trazer a sua comunidade e suas discussões para o dial. O sonho durou pouco, apenas oito meses. Em três de maio de 2011, ironicamente o Dia da Liberdade de Imprensa, a Rádio Santa Marta foi arbitrariamente fechada. A Polícia Federal e os agentes da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) não traziam mandado de segurança, e até agora os equipamentos não puderam ser recuperados. Para contar a trajetória da Rádio Santa Marta, a experiência como rapper e o seu caminho em busca do conhecimento, Fiell escreveu o livro Da favela para as favelas, que será lançado em oito de setembro, na quadra da escola de samba Mocidade Unida do Santa Marta.

 

LECC – Como surgiu a Rádio Santa Marta?

Fiell – A Rádio surgiu com a ideia do Ske, um morador que faleceu por problemas de saúde, em 2010. Ele, junto com outro amigo, o Lula, alimentaram esse sonho de botar uma rádio no Santa Marta. Ganharam um material da Organização Não Governamental (ONG) Promundo e até colocaram no ar, mesmo sem programação. Com sua morte, tudo parou. Lula, não quis mais saber de rádio. Quando fui à UFRJ, participar de uma palestra com Marcelo Yuka, falei com ele sobre nossas lutas aqui no morro Santa Marta e Yuka me presenteou com equipamentos de rádio. Foi ai que chamei o Lula para juntarmos todo material que tínhamos e botarmos no ar a rádio comunitária Santa Marta FM.


LECC – Como foi o fechamento da Rádio Santa Marta? Qual foi a justificativa dada pela Polícia Federal e pela Anatel?

Fiell – Se nós da Rádio Santa Marta não Tínhamos outorga para transmitir na FM, a Anatel, junto com a Polícia Federal, não tinha nenhum mandado de busca e apreensão. Neste ponto, quem está errado? Nós, por estarmos exercendo o direito de nos comunicar e prestar um serviço de utilidade pública? É lamentável que isso seja corriqueiro no Brasil.

LECC – Os equipamentos apreendidos foram devolvidos?

Fiell – Levaram o coração da rádio, o transmissor. Sem esse equipamento, não podemos transmitir na FM. Até hoje, está na delegacia da PF.

LECC – Você chegou a ser levado para a delegacia ou foi processado?

Fiell- Fui para a delegacia junto com outro locutor (Antonio Peixe), prestar depoimento. Depois de alguns meses, chegou na minha casa uma intimação para comparecer à audiência. Fui julgado a pagar seis cestas básicas, no valor de R$ 300,00. Falei que eu fazia um trabalho voluntário na rádio e era autônomo. Baixaram para seis, no valor de R$100,00.

LECC – As rádios comunitárias, em geral, caracterizam-se pela programação plural e pela participação ativa dos moradores. Como a programação da Rádio Santa Marta era decidida, e como vocês pretendem administrar essa questão, futuramente?

Fiell – Temos mais de 20 programas. Programa só de mulheres, gospel, juvenil, funk, hip-hop, sertanejo, jornalístico. A grade é muito plural. Toda pauta, melhoria, críticas, são decididas pelos locutores e moradores que participam das reuniões quinzenais da rádio.

LECC – Como a rádio se mantinha, antes do fechamento?

Fiell – Rádio comunitária não pode ter fins lucrativos. Nos mantemos com o apoio da população. Todos os locutores e amigos da rádio, mensalmente, fazem suas doações financeiras e também promovemos eventos para arrecadar fundos. O Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro) também é solidário com a rádio, e sempre que pedimos ajuda financeira, eles colaboram.

LECC – Depois do fechamento, a rádio chegou a funcionar apenas pela Internet. Gente de todo o Brasil e do mundo apreciava a programação. Porque as transmissões pela Internet pararam? E os moradores, eles conseguiam escutar a rádio via Internet?

Fiell – Sempre transmitimos na FM e na Internet, ao vivo. Com a proibição da FM, ficamos só na Internet. Mas sabemos que toda população do Santa Marta não tem computador, nem acesso à Internet. Achamos muito legal que outras pessoas estivessem nos acompanhando em outros estados e até outros países. Mas nosso foco e fins são a informação local. E isso foi desmobilizando os locutores. Mas estamos reorganizando para voltar à Internet. Estamos precisando de um computador melhor. Quando comprarmos, iremos botar a rádio na rede.

LECC – Quais são os planos para a Rádio Santa Marta? Ela irá funcionar em quais meios?

Fiell – Estamos agitando para voltarmos à Internet e em caixinhas pelo morro todo (radio poste). Mas estamos enviando a documentação para o Ministério das Comunicações, pedindo outorga.

LECC – O que podemos esperar para o seu livro, “Da favela para as favelas”, que será lançado na próxima quinta-feira (08/09)?

Fiell – Olha, é um livro de um trabalhador que descobriu como funciona essa nossa sociedade, sem fazer faculdade e só com o ensino fundamental. Essa obra é para todos aqueles estudam a favela: antropólogos, sociólogos, cientistas sociais e todos os trabalhadores e moradores de periferias do Brasil e do mundo. Um livro onde eu narro o que aprendi nesses 15 anos, dentro e fora do hip-hop. Eu era mais um alienado que foi buscar os esclarecimentos de que precisava.

LECC – Há alguma outra questão que não tenhamos trazido para esta entrevista, mas sobre a qual você queira falar?

Fiell – Reforço para todos aqueles fazem rádio, revista ou qualquer outro veículo comunitário, que não podemos parar de exercer o nosso direito de nos comunicarmos. Por que temos que assistir desenhos ou ouvir rádios comerciais? Temos que lutar juntos para democratizar a comunicação no nosso país. Rádio comunitária é a voz de quem não tem voz, o povo trabalhador.

Como adquirir o livro

Através do site www.educarliberdade.com.br, que envia para todo o Brasil. Em breve, nas melhores livrarias.

Repper Fiell convoca para lançamento do seu 1º livro

Serviço:

Data: 08/09/2011
Horário: 19h
Local: Quadra da escola de samba Mocidade Unida do Santa Marta – Rua Jupira, nº 72, Morro Santa Marta, Rio de Janeiro – RJ.


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