Jornais dedicam pouco espaço ao tema das cotas

Por Luiza Machado Miguez

O tema das cotas é amplamente abordado na sociedade, seja por seus reflexos na educação e na universidade pública, ou mesmo devido às reações inflamadas que incita. A discussão agora encontra novo olhar, com a pesquisa da doutoranda em Comunicação da ECO/UFRJ, Zilda Martins. O trabalho, resultado da dissertação de mestrado, analisa o discurso da mídia impressa sobre o tema, visando entender de que maneira os jornais tem orientado a opinião pública acerca das cotas.

A atenção da pesquisadora recai sobre os principais jornais do país, O Globo, O Dia e Folha de São Paulo. O estudo investiga como esses veículos abordam a questão das cotas raciais e da democratização da educação no Brasil. Além disso, mapeia pautas e suas estéticas, buscando revelar a construção de estereótipos. À luz de teóricos como Sodré, Todorov, Jodelet e Pollak, Martins contextualiza o assunto, de maneira a fugir de uma abordagem dualista, ancorando-se em perspectivas históricas, sociais e políticas. Os resultados encontrados por ela revelam questões importantes acerca do discurso vinculado pela grande mídia.

Segundo a doutoranda, é evidente o pouco espaço destinado ao assunto nos três jornais. A Folha de São Paulo é o veículo que menos aborda a questão, mas no período analisado (2008), os artigos usaram um tom favorável às ações afirmativas. O Dia dá maior projeção às cotas sociais, reconhece sua necessidade, no entanto, aponta a medida como paliativo. O resultado mais impressionante é o do jornal O Globo. As matérias apuradas expuseram alto grau de agressividade e ironia, além do uso de termos sensacionalistas e tendenciosos, como “cotas da discórdia”, “divisão do país em raças”, “racialistas de plantão”. O discurso é impregnado de palavras negativas, principalmente quanto às cotas raciais.

O que se nota é uma opção dos jornais em evitar falar sobre o assunto, expondo interesse em silenciar a questão. Também empregam termos majoritariamente negativos, revelando posicionamento contrário ao tema e parcialidade no trato das matérias. Dessa forma, Martins conclui que os jornais tem empobrecido o debate sobre ações afirmativas, desfavorecendo seu potencial democrático, pluralista e reparador de antigas questões sociais.

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