Imprensa reconhece discriminação racial, mas diz não as cotas

Por Fernanda Oliveira

Uma simulação de coletiva aconteceu no último dia 13 de maio com a doutoranda da ECO/UFRJ, Zilda Martins, durante a aula do Laboratório de Comunicação Crítica, na UFRJ. O tema foi a sua dissertação de mestrado “Ações afirmativas e cotas na mídia: a construção de fronteiras simbólicas.” Ao longo da apresentação, a pesquisadora falou sobre a maneira como as cotas raciais são abordadas na sociedade e na mídia impressa. A investigação teve como base três jornais: O Globo, Folha de São Paulo e O Dia.

O ano de 2008 foi o escolhido pela doutoranda para o desenvolvimento de seu trabalho, por ser um ano de fatos marcantes, como a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, os 20 anos da Constituição Cidadã e os cinco anos de cotas na primeira universidade pública do Brasil, a UERJ. O resultado da pesquisa constatou a pouca influência desses acontecimentos na divulgação das ações afirmativas. Os três jornais analisados pouco ressaltaram em suas matérias a ligação entre esses episódios.

De acordo com a pesquisa, a imprensa afirmou, durante muito tempo, que não havia debate suficiente para a implantação de cotas. O discurso, na opinião dos jornais, é que as cotas dividiriam o país em dois. Para a doutoranda, esse não é um retrato da sociedade, mas da grande mídia impressa. Segundo Martins, a mídia trabalha com o “desejo de verdade”, imposto pela negação, pelo esquecimento, pelo silêncio e por técnicas jornalísticas de objetividade.

A doutoranda ressaltou que os afrodescendentes são estereotipados pela mídia. Citou teóricos como Denise Jodelet e Milton Santos que falam da comunicação corporal. Nos textos analisados, a pesquisadora disse há um reconhecimento da injustiça social com a população negra desde a pós-abolição, mas que a mídia impressa nega as dificuldades pela cor da pele e defende políticas universais. “A criança negra desde pequena não tem espelho nos meios de comunicação e na sociedade, e isso reflete no seu imaginário, provoca menos valia”, observou.

Martins lembrou, ainda, que apesar da relação social com o cidadão negro e pobre ainda ser perversa, a história está começando a mudar fora da esfera midiática por conta dos movimentos sociais. Ressaltou que a cada dia aumenta o número de universidades que adotam algum tipo de ação afirmativa.  A pesquisadora afirmou que as cotas estão mudando o cenário da educação superior no Brasil.

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Um pensamento sobre “Imprensa reconhece discriminação racial, mas diz não as cotas

  1. Adorei a matéria e gostaria de ter acesso à pesquisa.

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