Muniz Sodré: Candomblé e Espiritualidade (2003)

Veja entrevista com Muniz Sodré, publicada no site do Centro de Mídia Independente, CMI Brasil, em 14/11/2003.

Entrevista com Muniz Sodré, um baiano de Feira de Santana com uma trajetória que o levou de sua cidade pequena, no interior da Bahia, a uma pós graduação em Paris e a um trabalho infatigável, com grande repercussão, como escritor e professor. Nesta entrevista ele fala principalmente sobre Camdomblé e espiritualidade.

MUNIZ SODRÉ

ESOTÉRICO, ECUMÊNICO

SC – Quantos livros você já escreveu e quais são os que considera os mais importantes?

MUNIZ SODRÉ – Escrevi 25 livros, cinco dos quais são obras de ficção. Os outros versam sobre teoria da comunicação, cultura nacional, cultura afro-brasileira e texto jornalístico.

Alguns estão traduzidos no exterior: Espanha, Itália, Cuba, Argentina.

Como teoricamente mais relevantes (pelo menos, para mim), cito: O Terreiro e a Cidade: a forma social negro-brasileira, A Verdade Seduzida: por um conceito de cultura no Brasil, Antropológica do Espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede e A Máquina de Narciso.

Meu mais recente livro de ficção é A Lei do Santo (contos), que tem o universo do candomblé como pano de fundo das histórias.

SC – Qual é sua ligação com o candomblé da Bahia?

MUNIZ SODRÉ – Pertenço ao candomblé, mais especificamente ao culto nagô-ketu: sou Oba Aressá no Axé Opô Afonjá, um do três terreiros fundadores do culto na Bahia.

Oba é título outorgado, depois de confirmação ritualística, a filhos de Xangô que tenham alguma relevância para a comunidade litúrgica.

Tenho muito orgulho de ser um dos primeiros obás de Mãe Stella de Oxossi, uma grande ialorixá.

No Rio de Janeiro, sou bastante ligado ao professor Agenor Miranda Rocha, o grande babalaô do culto, assim como me vinculo a outras instituições que dizem respeito ao candomblé.

Sou igualmente aficcionado do iorubá, uma língua lindíssima, em que os tons têm valor semântico.

Iaô de Exu (esquerda) e Iemanjá manifestada (direita)

SC – Vejo você como uma pessoa ecumênica, porque além do candomblé está envolvido com parapsicologia, com aura, com chacras indianos. Confirma isso?

MUNIZ SODRÉ – Ecumênico? Eu apenas tento VER mais do que pensar. E tenho olhos abertos o suficiente para responder com a experiência do sábio Svâmi Prajnanpad, um de meus mestres (embora jamais o tenha conhecido pessoalmente):

O único objetivo da vida humana é amar de maneira tão total que se chegue a ver todos como um.

Prajnanpad nunca escreveu livro nenhum, mas a sua fala me chega por via de outros discípulos.

Nós nascemos nus e sós. Ao morrermos, partiremos sós e nus.

Todos os filhos do homem nascem da mesma maneira. Nada os distingue no nascimento. Só no meio é que aparecem as distinções: o sentido do que é MEU, do que me é ESTRANHO, as diferenças de sorte, de saber, etc…

E, assim, o sentido do que é alto e baixo, inferior e superior. Só separação, nada mais que separação.

Todo saber que não reuna o homem ao homem, que tente mantê-lo separado, é falso. É o saber que arrasta pouco a pouco para o abismo, onde gente deixa de ser gente, inferior até aos animais.

Os homens são diferentes, mas não desiguais, nem separados: são como os dedos da mão. Iká ko dogbá, os dedos não são iguais, diz um aforismo nagô.

Ter os olhos abertos é derrubar as paredes divisórias das ditas raças, classes, crenças e conceitos. Apertar o Outro contra o coração como se fosse um membro de sua própria família é coisa digna só de gente.

SC – A que você atribui seu interesse por temas que se costuma chamar de esotéricos?

MUNIZ SODRÉ – Interesso-me pelo esotérico, pelo OCULTO, sim.

É que, em tudo que desabrocha e se mostra (isto é physis, natureza), algo se retrai, se cala, se oculta: isto é mysis, de onde deriva mística.

Meu interesse não é de fundo religioso, mas existencial, pois traduz uma vontade de experiência.

Quero dizer, uma vontade de lidar com a surpresa, com o indeterminado, com o inesperado. Isto é EXPERIÊNCIA, algo que se perdeu na modernidade oficial, mas que permanece como um fundo de reserva para quem sabe olhar e aguardar.

Não creio que daí advenha qualquer ESPIRITUALIDADE.

Nem daí, nem da freqüência a templos ou igrejas.

Espiritualidade é ter livre o espírito, portanto, é ser independente das amarras do ego.

O contato com os fenômenos arrolados sob rubrica do OCULTO não têm a ver com espiritualidade.

Mas têm a ver com experiência.

No entanto, eu tenho perfeita consciência de que o interesse pelo dito oculto pertence também ao misticismo paranóico, senão a um certo tipo de direita política (a elite nazista adorava os esoterismos).

Sei também que esse interesse atrai muxoxos da parte dos supostos donos da razão. A experiência comporta todos esses riscos.

SC – Assisti a um filme sobre cultura iorubá. A certa altura, aparece Pierre Verter e Gilberto Gil lhe pergunta se ele acredita em candomblé. E Verger, surpreendentemente, já que levou sua vida em terreiros e entre os negros, na África e na Bahia, respondeu que não acreditava, que era um racionalista. Como você explica essa resposta de Verger?

MUNIZ SODRÉ – Então, Verger disse que não acreditava em candomblé. É uma frase estranha, mas eu a conheço, porque era repetida por gente ligada ao culto.

Jorge Amado, por exemplo, que se afirmava materialista.

Acho que esse tipo afirmação procede de uma época em que era importante para o intelectual proclamar a sua distância de qualquer sentimento religioso.

Vamos examiná-la, porém. Acreditar tem mais de um sentido: DAR CRÉDITO a alguma coisa ou a alguém; CRER, na acepção de ter fé; ACEITAR; ou então CONFIAR; ou ainda, admitir a veracidade de algo, e assim por diante.

Parece-me que Verger aceitava, confiava e dava crédito ao candomblé, já que acrescentou a seu próprio nome a expressão Fatumbi (renascido por Ifá): Pierre Fatumbi Verger.

Além disso, intitulava-se babalaô, isto é, sacerdote de Ifá, olhador dos destinos. Em que ele não acreditava? Na existência das divindades, talvez? Mas o próprio culto nagô diz num aforismo que BI O SI ENIA, IMALE O SI,, ou seja, os deuses existem porque existem os homens.

Os números, idealidades a que damos crédito, existem?

Talvez Verger não acreditasse mesmo, sabe-se lá em quê, francês é francês. Mas eu estava presente a seu axexê (cerimônia funerária) de um ano no Axé Opô Afonjá, sentado ao lado de Caribe, que também já se foi. Chovia muito naquela noite, parecia que as águas iam cobrir Salvador, o vento não deixava as iaôs acenderem a vela da cerimônia. Mãe Stella disse: Deixem que eu acendo, e a vela ficou acesa.

Verger, de algum modo, foi acreditado.

SC – Gostaria que você traçasse sucintamente sua trajetória pessoal e intelectual. É longo e variado, mas será que pode tentar?

MUNIZ SODRÉ – Trajetória pessoal e intelectual? Pessoal, bem, evoco Zé Limeira, o célebre repentista paraibano, que se proclamou u cantadô malhó qui a Paraíba criô-lo. Me defino como ele: Sou um negro moderno. Foi, não foi, estou pensando.

Intelectual, bem, descendo de nagô e tupinambá (ramo abatirá) e, como eles, quando quero conhecer um objeto, procuro cercá-lo de todos os lados.

Uma questão social, por exemplo, gosto de cercá-la pelos lados da economia, da política, da história, da ideologia. Arrisco-me a ser tachado de HORIZONTAL, como uma vez boquejou, à socapa, um intelectual paulistano, amante fervoroso do corte epistemológico.

Ele queria dizer mesmo SUPERFICIAL… Não errou de todo. Tenho afinidade com superfície, com pele, com horizonte.

As posições horizontais são democráticas e gozosas, a pele tem suas camadas mais profundas. E depois, como canta Billy Blanco, Tudo termina/ com terra por cima/ e na horizontal…

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