A chacina e o pânico da mídia

Por Raquel Paiva e Muniz Sodré, em 13/4/2011, no Observatório da Imprensa

Em seguida à tragédia da escola em Realengo, o advérbio “talvez” tornou-se o protagonista das narrativas jornalísticas sobre o acontecimento. Como na realidade são muito obscuras as causas reais do que se passou, a mídia tenta aplacar a angústia da motivação vazia com um sem-número de explicações oriundas dos discursos competentes (psiquiatras, psicanalistas, sociólogos, articulistas etc.) que, apesar de razoáveis construções argumentativas, redundam inevitavelmente no “talvez”. Acreditamos que não poderia ser de outra maneira: a passagem ao ato do serial killer – já muito pesquisado em seu original, o modelo norte-americano – é aquilo que os lógico-matemáticos chamam de “indecidível” quando se deparam com determinados problemas de computabilidade sem saída.

A partir desse vazio, a mídia resvala inadvertida ou deliberadamente para a instilação do pânico social. Na tentativa de exaurir o assunto antes que se esgote o ciclo (geralmente curto) de atenção pública inerente a um noticiário, os jornais esmiúçam detalhes, entrevistam vizinhos e autoridades, reconstroem topograficamente o itinerário da chacina. As revistas semanais carregam nas tintas retóricas do texto, à beira da sub-“literatura” cinematográfica. Na capa da Veja, o título “O monstro mora ao lado” é o pastiche aterrorizante de alguns blockbusters à disposição dos consumidores nas locadoras de devedês.

Pânico – e não medo – é o termo correto para o fenômeno. Embora seja preferencialmente utilizado nas situações descritas como “catastróficas” (terremotos, inundações, incêndios etc.) ou no “estouro da boiada humana” dentro de espaços fechados, ele se espraia, entretanto, por modalidades diversas caracterizadas por intenso terror subjetivo e por temor contagiante de perigo. Não se define, pois, por um estado emocional específico, e sim por uma desestruturação de conduta, que tanto pode ser irruptiva (como quando se tenta escapar de um prédio que desaba) ou latente.

Resposta de marketing

O medo é outra coisa: desde O Leviatã (de Thomas Hobbes), é aquilo que mantém o vínculo pacífico e virtuoso dos homens, de tal maneira que o governante “deve dispor das forças necessárias para suscitar o terror que leve a vontade dos indivíduos à conformidade e à concórdia”. Esse é o ponto de partida para a construção do Estado em Hobbes, como nos faz ver o politólogo Carl Schmitt, já no século 20: “O terror do estado de natureza empurra os indivíduos, cheios de medo a juntar-se”. Estaria, portanto, como força agregadora, no próprio vínculo comunitário: “Longe de ser sem objeto, esse medo é o próprio objeto do desejo que funda o grupo e o confunde” (Daniel Sibony, psicanalista francês).

A ruptura do vínculo, por outro lado, é ocasionada pelo pânico, especialmente nos instantes ou nos pontos muito sensíveis do corpo social ou quaisquer outras metáforas que liguem o socius a uma idéia de organicidade. Nesses momentos ou nesses lugares, os comportamentos mais bem organizados podem dar lugar à catástrofe do afeto ou a atos sem qualquer sentido coesivo.

Estranhamente, um desses lugares preferenciais para a chacina perpetrada por matadores ensandecidos é a escola. Não como regra absoluta, já que a crônica conhecida do fenômeno lista casos em que o atirador mirou a multidão na rua ou mesmo num cinema, como já aconteceu em São Paulo. Mas o recinto escolar se sobressai tanto em número quanto em narrativas muito conhecidas, a exemplo do filme de Michael Moore sobre o massacre em Columbine (EUA).

Por que a escola? Pode-se inicialmente pensar em jovens vítimas indefesas congregadas num espaço circunscrito. São muitos, porém, outros espaços dessa natureza que, embora repletos de adultos, não os isenta da condição de sujeitos indefesos frente a um homicida que empunha modernas armas automáticas.

Não há, assim, como deixar de pensar na idéia de “santuarização” dos estabelecimentos escolares – em que se priorizam medidas de segurança física – presente em alguns países do dito Primeiro Mundo, a exemplo da França. Em maio de 2009, durante uma reunião com “os principais atores da segurança pública, da Justiça e da Educação nacional”, o presidente Sarkozy propôs uma série de providências no sentido de que os estabelecimentos mais “sensíveis” fossem objeto de um “diagnóstico de segurança, a partir do qual serão adotadas todas as medidas necessárias”, desde a instalação de portões até dispositivos de videovigilância. Não é apenas isso: as medidas se diversificam ao ponto de habilitar o professor a abrir pastas e mochilas para impedir a entrada de armas, a formar “equipes móveis de guardas”, a ter ligação direta com a delegacia de polícia.

Tratando-se de Sarkozy, essa transformação da escola num “santuário” militar é uma resposta de marketing (segundo ele mesmo, uma reação de “bom senso”) ao que a mídia francesa chama de “deterioração” do clima nos estabelecimentos de ensino. Mas é um fato – que vem recrudescendo desde meados do século 20 e que suscitou alguns filmes norte-americanos sobre o assunto – que a violência na escola se tornou um problema social em ascensão.

Opção dos editores

O bullying, tema agora recorrente na mídia brasileira, é fenômeno muito antigo, que aumenta na razão inversa do decréscimo de autoridade dos professores. Autoridade não é poder coercitivo, mas o crédito disciplinar advindo de um reconhecimento que Estado e sociedade atribuem à docência. A crise dessa autoridade equivale à crise da educação enquanto processo de socialização dos jovens na direção de uma cidadania reflexiva e criativa. Na escola que apenas “informa” – tendência crescente na privatização do ensino, onde estudante é redefinido como “cliente” – a educação cede o lugar a uma ambígua “instrução”, sem qualquer ideal republicano.

Como essa instrução é efetiva junto aos filhos das classes abastadas e tende a “guetificar-se” em face de um mundo externo potencialmente “duro”, não se pergunta sobre crise de autoridade ou sobre violência latente. A violência se torna de fato irruptiva e endêmica, segundo algumas pesquisas de caráter científico, nas escolas situadas em zonas “desfavorecidas”, onde é grande a amplitude das desigualdades sociais. A violência escolar é, assim, também um fenômeno da exclusão social. Nos países de Primeiro Mundo, isso ocorre principalmente em bairros muito pobres ou em guetos de imigrantes.

Num país como o Brasil, a periferia urbana pode ser um lugar no mínimo angustiante tanto para o professor quanto para o próprio aluno, entregues que estão à ausência de verdadeiros projetos político-pedagógicos e à presença dos números de universalização do acesso à escola, no fundo, slogans para “inglês” (OCDE, Banco Mundial et caterva) ver.

No nível singularizado do fato, a chacina de Realengo tem certamente algo de viral, enquanto modalidade de um contágio mental (ao mesmo tempo patológico e informativo, já que o modelo midiático do terrorista e do serial killer americano colou-se à doença individualizada de um miserável psíquico), mas por isso mesmo é sem objeto e sem causa, no sentido de previsibilidade social dos fenômenos.

Apenas repercutir midiaticamente a superfície narrativa da tragédia é entregar-se à atração do pânico latente e perder a ocasião de refletir sobre o porquê desse excesso de violência ou de crueldade contra o lugar, a escola, sobre a qual os antigos ideais educativos depositaram esperanças enquanto comunidade-máter da socialização republicana. Agarrar-se às metáforas da pura monstruosidade do assassino é a hipocrisia neoliberal dos editores.

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2 pensamentos sobre “A chacina e o pânico da mídia

  1. Michel disse:

    Muito bom! O site está ótimo

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