Agatha Christie, Mangá, e Maffesoli

Salão do Livro de Paris reúne diversidade da produção editorial contemporânea.

Por Marcello Gabbay, músico e doutorando do LECC.

De 18 a 21 de março, o tradicional Salão do Livro de Paris reuniu nos galpões da fronteira da cidade com Versailles, mais de mil expositores entre editoras de grande porte, independentes, especializadas, artistas, selos fonográficos, e até um estande inusitado que vendia Cds “piratas” contendo transmissões de rádio de Berthold Brecht, Antonin Artaud, Karl Marx, entre outros.

Entre os destaques do ano, uma cidade latino-americana. Buanos Aires é a capital mundial do livro em 2011. Editores e escritores argentinos puderam apresentar sua produção no amplo estande central e nas diversas mesas de debate abertas ao público no meio do grande salão. Este é também o ano dos países Além-Mar, que reúne a vasta produção dos pequenos e férteis países francofonos da África e das Américas. Estandes da Guiana, Marrocos, Polinésia, Martinica, Guadalupe, La Réunion, e Nouvelle-Calédonie exibiam livros em francês, árabe, e em diversos dialetos locais. O tímido reconhecimento da influência negra na literatura de língua francesa ocupava espaço na feira em debates sobre a diáspora africana, leitura de poesias e apresentações musicais.

Carta de Jean Paul Sartre à Simone de Beauvoir, em 1937, escrita em papel timbrado do café do Hotel de Paris.

A editora Gallimard, que comemora cem anos em 2011, recebeu espaço especial para divulgação de uma exposição comemorativa que abre nesta semana na Biblioteca Nacional da França. A vasta coleção de obras da Gallimard reúne valiosos textos de Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Antonin Artaud, Jean Genet, Eugene Ionesco, e Charles Baudelaire. O aperitivo para a mostra que vai ser inaugurada dia 22 de março era uma carta manuscrita de Sartre para Beauvoir, datada de 1937.

Apesar disso, a pegada jovem era bastante visível nas editores de porte mais massivo. O mangá foi o grande destaque e o grande chamariz de atenção do público. Na suposta crise do livro – mesmo em um país de tradição editorial muito forte – o público colecionador jovem parece ser um grande filão. Um concurso de cosplay – fantasias de personagens de Histórias em Quadrinhos e mangás – teve lugar junto à praça de alimentação da feira. Entre diversos personagens contemporâneos da vasta coleção japonesa, um tímido Luigi – o parceiro do personagem de videogame Mario Bros – circulava à espera do resultado do concurso.

Exposição sobre as versões de Agatha Christie em HQ

Bem ao lado dos personagens caracterizados, um estande homenageava a grande autora de suspenses de bolso, a britânica Agatha Christie, mas desta vez com foco especial no formato HQ. Uma releitura das principais personagens, como o detetive Hercule Poirot, em recriações lúdicas de histórias clássicas, como Morte no Nilo (1937), E Não Sobrou Nenhum (1939), ou Os Cinco Porquinhos (1943) fazia o encontro entre dois segmentos bastante populares do mercado editorial, o suspense e os quadrinhos. Uma das seções especiais da feira homenageava exatamente os livros de policial e thriller. Mas ainda na seção de Hqs, o desenhista polonês Grzegorz Rosinski ganhou uma retrospectiva com destaque especial para a série “Thorgal”, assinada em parceria com Jean Van Hamme.

O sociólogo do cotidiano Michel Maffesoli

E no meio de todo esta orgia literária, no estande da editora francesa CNRS, encontrava-se o sociólogo do cotidiano, Michel Maffesoli, cuja ligação com o Brasil é cada vez mais estreita, seja nas amizades, relações acadêmicas ou no olhar atento sobre a cultura do nosso país como um dos bons exemplos de sua teoria. Entre os vários brasileiros que foram pupilos de Maffesoli, o professor e poeta paraense João de Jesus Paes Loureiro elaborou desse encontro um interessante ensaio sobre a poética amazônica. O teórico da pós-modernidade e das novas potências comunitárias autografou duas novas publicações, sendo uma delas, a reedição de uma coleção de artigos escritos por pesquisadores de vários países sobre a sua obra, entre eles, o brasileiro Muniz Sodré, professor da Escola de Comunicação da UFRJ.

FOTO 4 (Michel_Maffesoli): O sociólogo do cotidiano Michel Maffesoli.

O Salão do Livro de Paris deste ano conseguiu mesclar o que poderá ser uma tendência pós-ipad e kindle, e que não é nenhuma novidade em termos de mercado editorial: uma forma de associação de valores entre o produto tangível e a experiência coletiva, cujo caso mais marcante é mesmo o do público juvenil que se caracteriza, corpo e alma, à imagem de seus heróis, e que ainda goza do velho prazer de colecionar na estante seus exemplares, mesmo que acabe os colocando à venda não muito tempo depois, em busca de novas aquisições. Afinal, não era essa a função dos antigos sebos de livros? Se a internet ameaça enterrar o livro impresso, por outro lado, o Brasil assiste ao surgimento dos sebos virtuais, dos Lps e livros raros, enquanto o site Estante Virtual, criado no Rio de Janeiro em 2005, comemora a marca de 10 milhões de livros usados vendidos on line.

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