O profeta da comunicação

Rachel Bertol, para o Valor, do Rio , em 25/03/2011

 

“O modo como os adolescentes falam entre si e a necessidade que sentem de se manter em contato via celular é feito desse tipo específico de meio”

“Nunca paramos de interferir drasticamente sobre nós mesmos por meio de toda tecnologia a que nos agarramos. Estamos sempre desorganizando absolutamente a nossa vida.”

“Os sistemas de obtenção de dados processados eletronicamente nos possibilitam reunir tudo de forma instantânea. Esse tipo de memória total permite-nos (…) colocar todos os livros do mundo num computador.”

“O público hoje assumiu um novo papel. Devido à própria simultaneidade da informação e da programação eletrônica, já não existem propriamente espectadores. Todo mundo faz parte do elenco.”

Parecem lugares-comuns? Sim, mas são frases que datam de quase 50 anos, ditas nos anos 1960 por um professor célebre e polêmico: Herbert Marshall McLuhan, cujo centenário de nascimento, neste ano, está sendo celebrado no mundo todo. O autor do famoso aforismo “o meio é a mensagem”, o primeiro a falar em “aldeia global” muito antes da invenção da internet e da banalização da globalização, não conseguiu obter em vida – ele morreu em 1980 – o reconhecimento dos seus pares na academia. “Meu pai viu seus escritos serem deplorados”, diz Eric McLuhan, filho de Marshall, em entrevista publicada na página 6. Este centenário, porém, representa uma virada. Uma extensa agenda de seminários em diferentes países – entre eles o Brasil – resgata o pensador canadense como um intelectual de prestígio, além da capa de “profeta da comunicação”.

“As asserções de McLuhan são muito contemporâneas, mas da nossa atualidade, não do tempo dele”, afirma Derrick de Kerckhove, autor de “A Pele da Cultura” (Ed. Annablume) e um dos principais discípulos do pensador, de quem foi aluno e assistente. De Kerckhove abrirá no dia 2 de maio, na Universidade de São Paulo (USP), o seminário “O Século McLuhan”, primeiro evento do centenário no Brasil. Sua agenda, em 2011, será frenética. Depois de São Paulo (e possivelmente Rio), irá a Barcelona e Berlim, onde haverá mais dois seminários sobre McLuhan (entre os dias 23 e 29). Outros ocorrem ao longo do ano em cidades como Toronto, Bari, Bruxelas, Katowice, Magdebourg…

Best-seller nos anos 1960, quando publicou marcos como “A Galáxia de Gutenberg: A Criação do Homem Tipográfico” (1962) e sobretudo “Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem – Understanding Media” (1964), McLuhan, que era professor de literatura e profundamente católico, costumava ser requisitado nessa época em programas de TV e em conferências. Foi um pioneiro na era dos intelectuais midiáticos, mas em suas intervenções parecia combater uma incompreensão que acabou por ofuscar o brilho dos seus escritos por décadas. Numa ocasião, ironizou o fato de causar tanta controvérsia, ao dizer que isso acontecia porque ele usava o hemisfério direito do cérebro, enquanto “elas [as pessoas] tentam usar o esquerdo. É simples”.

Para Philip Marchand, responsável pela catalogação dos escritos de McLuhan para os Arquivos Nacionais do Canadá, a frase “o meio é a mensagem”, que se tornou quase um mantra, está mais atual do que nunca. “De certo ponto de vista, o celular apenas permite que duas pessoas conversem como se estivessem usando telefones comuns. Mas o modo como os adolescentes falam entre si e a necessidade que sentem de se manter em contato via celular é um efeito desse tipo específico de meio.”

Compreender o impacto de seu pensamento é fundamental na era digital. “McLuhan estava mais certo que a maioria de nós. O meio é de fato a mensagem e precisamos saber desenvolver o conteúdo de acordo com o meio. Quem não está conseguindo realizar isso está fracassando. Veja o que acontece no Oriente Médio: o governo falhou ao contar sua história, ao expor sua narrativa”, afirmou o CEO da Starlight Runner Entertainment, Jeff Gomez, que esteve no Rio na semana passada para um seminário com produtores de conteúdo de televisão. “Até o momento, a internet vem sendo utilizada como se fosse televisão. Milhões de dólares têm sido desperdiçados. Precisamos entender a linguagem da internet”, afirma Gomez, cuja empresa, com sede em Nova York, é especializada na criação de narrativas chamadas transmidiáticas para grandes produções, como “Piratas do Caribe” e “Avatar”. “Por enquanto, a transmídia é a melhor resposta para quem quer falar em diferentes mídias sem repetir o conteúdo”, diz Gomez.

Na opinião da professora canadense Sara Diamond, McLuhan falava de maneira muito adequada da materialidade da tecnologia e sobre como uma nova tecnologia midiática carrega, em si, todas as outras mídias que a antecederam, “como acontece hoje com a internet”. Sara preside a Ontario College of Art & Design (Ocad), universidade existente desde o século XIX, voltada para a formação de profissionais no campo da inovação e da cultura digital. Em visita ao Rio para participar do mesmo evento, ela contou que no início deste ano participou da organização de um concurso em que artistas foram convidados a apresentar trabalhos para explicitar a influência de McLuhan em suas criações. As obras devem ser apresentadas na “Nuit Blanche”, evento cultural que costuma reunir mais de um milhão de pessoas nas ruas de Toronto e onde se planeja, este ano, uma homenagem a McLuhan.

A compreensão da lógica da comunicação eletrônica permitiu a McLuhan falar de perspectivas em áreas diversas, da economia à artes. Para entender o presente, voltou-se ao passado longíquo. Analisou como a invenção da escrita, em sociedades antigas, moldou formas de percepção, notadamente visuais, que teriam propiciado especializações do olhar que levaram à invenção, por exemplo, da arquitetura. Séculos depois, os tipos móveis de Gutenberg também tiveram impacto na percepção, que passou a reforçar aspectos de linearidade e racionalidade.

A difusão de obras impressas permitiu o surgimento do público e, portanto, das nacionalidades. Já com a substituição da era mecânica pela da comunicação eletrônica, McLuhan via a passagem “do mundo da roda para o mundo do circuito”. Seria um processo “ambiental de integração”, não fragmentador. No lugar de padrões preponderantemente visuais de percepção, estaria se adotando “padrões auditivos, integrais”, não baseados num ponto de vista. Em 1964, na conferência Cibernética e Cultura Humana, afirmou: “Estamos passando da era da especialização para a era do envolvimento abrangente”. Reconhecia que se tratava de “uma inversão muito intrigante e aterradora dos negócios humanos”.

Passado o efeito bombástico dos aforismos de McLuhan, o professor de comunicação Muniz Sodré, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observa que chegou o momento de ler sua obra em profundidade e revisitar seus conceitos. “McLuhan teve grande sucesso nos anos 1960 e 1970, mas não ficou para a academia como um filósofo sério e sim como um figura ambígua, entre o marqueteiro e o profeta. Ele tinha um tom profético, de fato, mas isso não é mau”, afirma Sodré, que se inspira em ideias mcluhianas para desenvolver conceitos importantes em sua obra, como no livro “As Estratégias do Sensível”.

“O que importa para McLuhan não é o conteúdo, mas a forma”, diz Sodré. “A jogada da TV não é seu conteúdo, mas a forma como ela o apresenta. A mensagem é a forma, o que importa não é tanto o que nos diz, mas como nos diz algo tecnologicamente. É algo da lógica do sensível, diferente da lógica argumentativa da cultura clássica. Eu interpreto a forma macluhiana como a profecia da era do sensível.”

Um dos mais jovens estudiosos de McLuhan no Brasil, o professor Vinícius Andrade Pereira, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), escreve com Fausto Fawcett a peça “Extensões de McLuhan”, a ser encenada em seminário na PUC de Porto Alegre, em novembro, também sobre McLuhan. “A discussão contemporânea não permite mais rígidas oposições de antinomia, como as que opunham meio e conteúdo. McLuhan gostava de dizer que o conteúdo é como um pedaço de carne suculenta levado pelo ladrão para distrair o cão de guarda da mente”, diz Pereira, também diretor do Media Lab da Escola Superior de Propaganda e Marketing. “Suas ideias nos dão base para entender as novas sensorialidades. Nunca antes o homem utilizou-se do atual cultivo tátil que vemos, por exemplo, na manipulação de celulares. Entram em cena novas habilidades motoras, cognitivas, sensitivas.”

“A interpretação da mídia feita por McLuhan se revelou verdadeira”, completa o professor de comunicação da ECA Massimo Di Felice, organizador do seminário na USP. “Nem ele conseguiu prever a complexidade da comunicação digital, mas dizia que a mídia tinha um papel cognitivo e as ideias que desenvolveu são úteis para entender a atualidade. Ele vê a mídia como extensão dos nossos sentidos. O debate sobre McLuhan me parece ainda mais fundamental no Brasil”, afirma. No período de difusão de sua obra, o país vivia sob a ditadura, “quando havia preferência pela sociologia marxista, que se concentra no papel e nos sentidos da informação”. O debate aqui, avalia, ficou limitado. “Mas o Brasil é hoje um dos países mais importantes na difusão da cultura digital e devemos entender melhor o valor de McLuhan.” Di Felice negocia com a família do autor a publicação de textos inéditos dele preservados no acervo de Derrick de Kerckhove. O livro deve ser publicado pela editora Annablume.

Para McLuhan, não havia nada mais humano que a tecnologia desenvolvida pelo homem, apesar de seu potencial destrutivo. Seriam extensões tão criativas, que Darwin jamais teria como prevê-las na sua teoria da evolução. De acordo com Derrick de Kerckhove, uma boa metáfora da relação do homem com a tecnologia hoje pode ser vista em “Avatar”, filme dirigido por James Cameron: “Diferentemente de ‘Pinóquio’, que de certa forma é a máquina que encontra a humanidade, em ‘Avatar’ o homem desaparece na máquina, há o desejo de sumir nessa máquina para, além da numerização, reencontrar a humanidade”.

E o que diria McLuhan se ele pudesse retornar de repente, em meio aos protestos contra ditaduras no Oriente Médio? “No passado”, afirma De Kerckhove, “havia a exclusão das sociedades em diferentes zonas geográficas, separadas umas das outras pela língua. Por meio da língua, controlava-se uma comunidade. Ora, a eletricidade implodiu isso, ao tornar possível ver as pessoas em todo o mundo. Uma das consequências é a transparência e a constituição de uma opinião pública global, como exemplifica o Wikileaks”. McLuhan dizia que a luz elétrica representa a informação totalmente ambiental, presente em 360 graus. “Na internet, estamos banhados de luz. Nosso sistema de comunicação, com o celular e suas câmeras, são sistemas de transparência. O que vimos no Oriente Médio resulta dessa situação. O local, assim, sublinha o global, e vice-versa.” Nesta “aldeia global”, onde ocorre uma “retribalização”, não há necessariamente harmonia, observa De Kerckhove: “Não existe lugar onde as pessoas se detestem mais cordialmente que numa aldeia.”

Em tempos de rápidas transformações, De Kerckhove já sente certa nostalgia da TV: “É o único meio de comunicação de massa que nos resta. A internet não é um meio de massa. Enquanto a TV fala para todos, a internet é o meio em que todos falam. Mas é na TV que se cria certo sentimento de comunidade.” Hoje, afirma o professor, a TV tornou-se o conteúdo da internet: “O YouTube apresenta a TV transformada em arte. Quando uma mídia se torna o conteúdo de outra mais abrangente, como a internet agora, a mídia anterior se reconverte em arte, em algo que queremos programar. A escrita, por exemplo, transformou a palavra em conteúdo. Assim, o corpo passou a ter controle sobre a linguagem e fez dela uma forma de arte.”

Num século em que potencialmente, e cada vez mais, todos são artistas, tendo à disposição “ferramentas cada vez mais extraordinárias de criação”, e no qual o próprio mundo se reconverte em arte, De Kerckhove acredita que somente a constituição de um pensamento místico poderá dar conta de tantas e tão amplas transformações. “McLuhan já previa a emergência desse século místico.” (Colaborou Marcos Flamínio Peres)


O filho é a mensagem

Eric McLuhan, filho de Marshall McLuhan, foi seu colaborador por cerca de 15 anos. O pai deixou-lhe uma série de projetos a finalizar, que ainda vão consumir muitos dos seus anos, como contou nesta entrevista, pouco antes de arrumar as malas para participar na Itália de um seminário para celebrar o centenário. Neste ano ainda, Eric lança dois livros que nasceram de antigos projetos com o pai: “Mídia e Causa Formal” e “Teorias da Comunicação”.

Valor: Por que os textos de McLuhan continuam a ser incompreendidos?

Eric McLuhan: Os escritos do meu pai são de apreensão difícil. O problema se complica mais pelo fato de as pessoas se tornarem cada vez mais incapazes de ler. O alfabeto não é mais a principal referência nas culturas ocidentais. Enquanto as crianças têm ligação mais fraca com a leitura e a escrita, por causa da influência maciça da nova mídia em suas sensibilidades, as gerações mais antigas, sob a mesma influência, também estão menos ligadas à atividade da leitura. Além disso, qualquer pessoa que se aproxime dos escritos de meu pai possui herança de incompreensão a superar. Mas acho que, se alguém for ler os livros dele sem consultar interpretações de terceiros, poderá se sair bem. A compreensão de um simples paradoxo como “o meio é a mensagem” depende do fato de a pessoa ter entendido que “meio” significa “ambiente”. McLuhan esforça-se para tornar clara a questão em “Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem”. O novo meio social e cultural é a “mensagem” de toda tecnologia.

Valor: O que seu pai diria sobre as manifestações no mundo árabe, como no Egito, onde o uso das tecnologias de informação se mostrou fundamental para a vitória das pessoas na rua?

McLuhan: Por volta de 1969, escrevemos juntos um livro chamado “War and Peace in the Global Village” [Guerra e paz na aldeia global]. Um dos principais temas da obra é o fato de que a violência, assim como esta que vimos no Oriente Médio, é sempre uma resposta à perda da identidade. Quando uma identidade precisa ser reafirmada, forjada ou restaurada, a violência é um meio infalível para fazer isso rapidamente. As culturas do Oriente Médio estão sob pressão de mudanças significativas por causa da influência de uma gama de poderosas novas tecnologias. Suas culturas estão passando por mudanças que ocorrem rapidamente e necessitam de novas identidades, o que ocasiona violência. Apesar do se imagina, a aldeia global não é uma utopia pacífica. É bem o contrário.

Valor: Quais são os principais desafios para continuar a dialogar com a obra de McLuhan?

McLuhan: Ele foi um pioneiro. Abriu um campo com o qual ninguém antes havia trabalhado. Desenvolveu vasta gama de ferramentas que considerava úteis. Seus livros foram de natureza a fazer progredir o debate em suas pesquisas, e escreveu a maior parte deles visando a tornar esse material acessível, não apenas para os acadêmicos. A maior parte dos acadêmicos, porém, deplorou e ignorou seu trabalho enquanto meu pai estava vivo. O que precisamos fazer agora é nos aproximar desses escritos com um frescor no olhar – sem a incompreensão da geração passada – e buscar desvendar como ele utilizou essas ferramentas para examinar nosso mundo atual. E, pelo que tenho ouvido, já se está trabalhando muito bem nesse sentido!

Valor: Num lado mais pessoal, qual teria sido o principal legado dos escritos do seu pai? Sua irmã (Stephanie) é produtora de televisão…

McLuhan: Posso falar por mim, já que trabalhei ao lado do meu pai por cerca de 15 anos e escrevemos livros juntos. Ele deixou uma grande quantidade de projetos para eu terminar, os quais vão me ocupar por muitos anos. Uma irmã minha obteve doutorado em estudos sobre Idade Média e meu irmão mais novo é fotógrafo profissional. (RB)

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