Arthur William: Comunicação e Movimentos Sociais

Por: Gizele Martins / Núcleo Piratininga de Comunicação


Entrevista com Arthur William
O jornalista Arthur William, 26 anos, além comunicador, é técnico em eletrônica, radialista e faz pós-graduação em TV Digital. Nesta entrevista, nos ajuda a entender o que é a nova sociedade da informação. Aponta o que a primeira Conferência de Comunicação deixou de bom depois de meses de sua realização. Aqui, ele nos conta um pouco da sua experiência nos movimentos sociais e estudantis, mostra a importância de participar de cada um deles e fala, também, sobre a precarização do trabalho do jornalista.


BoletimNPC – Quando você começou a participar dos movimentos estudantis, e o que lhe fez entrar neste movimento ainda no curso médio?
Arthur William – Durante o ensino fundamental, estudei em escola particular. Nela, eu não sentia necessidade de participar de organizações que representassem os estudantes. Era uma escola particular boa, e que não tinha nenhum problema. O máximo que o grêmio estudantil fazia era promover festas. Mas no ensino médio fui estudar no Cefet, que e uma escola de excelência e pública.

A vontade de participar dos movimentos surgiu naturalmente porque a realidade daquela instituição fazia com que lutássemos todos os dias para que mantivéssemos o direito aquele tipo de educação. Durante uma greve que durou quatro meses, a minha participação política aumentou.

No início do meu curso superior, eu não queria fazer parte do movimento estudantil. Eu queria participar apenas de movimento comunitário, trabalhar com rádio comunitária etc. Mas, na PUC-Rio, onde estudei, havia muitos estudantes bolsistas e estes sofriam algum tipo de segregação. Isso se dava, principalmente, no curso de Comunicação Social. Daí, resolvi entrar para o Centro Acadêmico para que as oportunidades que a universidade dava, viagens acadêmicas para congressos, dentre outros eventos, fossem definidas com base em critérios democráticos.

BoletimNPC – Como foi juntar estes dois tipos de movimento: o estudantil e os sociais, e qual a importância de participar deles?
Arthur – Eu sentia um abismo entre o movimento estudantil e os movimentos populares. O estudante nas universidade estava totalmente por fora do que estava acontecendo com os movimentos sociais. O próprio movimento indígena, que teve um momento de ocupação no Maracanã, da qual eu também participei, foi prova disso. As pessoas viam isso como algo distante deles.

Na Executiva Nacional de Comunicação (Enecos), começou a ter um movimento de estudantes do Brasil inteiro. Antes as pautas dos encontros eram unicamente voltadas para a educação: reforma universitária, políticas educacionais etc. Depois, os encontros passaram a ter espaços de vivência junto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), junto com os movimentos populares. Em todo o Brasil íamos visitar ocupações, assentamentos. Sempre tive noção de que o movimento estudantil é algo transitório. Você, hoje, é estudante; um dia vai deixar de ser estudante; mas não pode deixar de ser militante social, de ser ativista social. Sempre soube que minha atuação estudantil ia passar, mas que a minha militante não podia passar.

O movimento dos Tamoios, no Rio de Janeiro, foi uma experiência muito importante. Aprendi ali o que é a lutar por uma necessidade imediata e não um sonho distante. Lutar por um direito mínimo, que é o direito à moradia. Isso me fez refletir muito sobre a realidade.

BoletimNPC – O que você tem a dizer sobre o movimento pela democratização da comunicação, qual a importância dele, quais as principais bandeiras de luta?

Arthur – O ser humano é um ser comunicativo por natureza. A gente se comunica através da fala, dos gestos, da escrita. Tem uma série de formas de se comunicar, só que para a grande maioria da população esse direito é vetado. Existe um movimento de comunicação bem forte, porém, este movimento durante muito tempo não teve o acúmulo suficiente para tratar de certas questões. Muitas coisas relacionadas à limitação da comunicação, às leis, a maior parte do movimento não tinha a noção do que eram.

O que o movimento fazia era negar uma comunicação que a gente não queria, ou seja, focava nas mídias empresariais. Muita gente dizia, “Eu sou contra a Globo e sou militante pela democratização da comunicação”. Não basta porque enquanto isso, as emissoras comerciais continuavam a fazer o que sempre fizeram, e as comunitárias sempre prejudicadas, sendo fechadas sem apoio financeiro.

BoletimNPC – O que avançou nessa discussão pela democratização da comunicação e o que ainda pode avançar?
Arthur – A Conferência de Comunicação foi feita em um momento ruim, em dezembro do ano passado, em véspera de eleição, depois de várias vezes adiada. Isso prejudicou muito a aplicação do que foi aprovado já que o Congresso nessa época não funciona, o Poder Executivo também fica paralisado.

Apesar de a conferência ter sido feita sem caráter deliberativo nas etapas municipais, estaduais e regionais, ela serviu para formarmos politicamente a militância de comunicação.

As pessoas conseguiram, através dela, saber o que é o direito à comunicação, conhecer as leis que temos que mudar, qual é o contexto da comunicação mundial, e quais são os interesses em jogo. Hoje, a militância da comunicação está muito mais preparada para influir nesse campo do que era anteriormente.

Mas tivemos alguns problemas, as políticas públicas locais não foram debatidas porque o governo tirou o caráter deliberativo das etapas municipais. Políticas públicas como a Educomunicação, que é a comunicação na escola, por exemplo, não aconteceu. O que é muito ruim porque não podemos pensar numa estrutura de cima para baixo como é a comunicação hoje, ela deve ser pensada de baixo para cima.

BoletimNPC. A internet tem potencial libertador? Hoje existem debates sobre a liberdade de expressão, principalmente, com a chegada da internet. O que você tem a dizer sobre isso? Essa liberdade existe?
Arthur – A internet tem um potencial libertador grande, tem um potencial de estabelecer novas relações de troca, de conteúdo. É a cultura da dádiva. Você troca a informação com a pessoa não querendo retorno financeiro. Na internet, você troca informações úteis, você fornece um conteúdo gratuitamente. Essa cultura da solidariedade é um novo tipo de relação. Só que a gente não pode perder de foco que, embora haja participação, a internet tem donos.

Na radiodifusão, numa rádio comercial, a empresa pode fazer um programa que tenha a participação das pessoas. Pelo telefone, a pessoa liga, pede uma música, faz um recado, uma reclamação. Isso já existe, e não é porque a população está se expressando em uma rádio, que ela vai ser comunitária, ou vai ser uma rádio da população.

Na internet é assim. Não é porque eu posso fazer um vídeo e publicar no youtube, que o youtube vai ser uma ferramenta do povo, ela é de uma empresa privada, é do Google. Boa parte da comunicação da internet está controlada por empresas estrangeiras privadas.

Os servidores estão todos nos Estados Unidos, temos várias ferramentas de graça, mas boa parte delas está nas mãos de grandes empresas privadas. De uma hora para a outra ela pode tirar do ar. A internet precisa ser regulamentada para garantir direitos ao usuário e não para criminalizar. O usuário precisa ter direitos ao uso da internet, assegurar o direito de qualidade. Cobrar a criação, por exemplo, de servidores e e-mails públicos.

BoletimNPC- E esta crise que está acontecendo nos jornais impressos em todo o mundo, inclusive, no Brasil, um dos exemplos o Jornal do Brasil que acaba de chegar ao fim… Você acha que os jornais impressos irão acabar…é o fim deles?
Arthur William – O futuro é da mídia pública. Esse atual modelo de negócios, que é a venda de anúncios, está fadado ao fracasso, porque hoje se tem acesso a informação por vários meios. Não é preciso mais comprar um jornal, ele vai te trazer notícias de ontem, não é um formato atualizável, as pessoas estão deixando de ler o jornal por conta disso.

A mídia eletrônica de massa, o rádio, ou a televisão, ela limita. Você tem poucos canais de televisão, a TV digital chegou e o modelo ficou o mesmo, com poucas televisões com altas definições e não vários atores aparecendo.

A mídia pública, ela não depende de verba publicitária. E, a partir dessa independência, seja jornal, TV ou qualquer outra mídia, ela tem verba o suficiente para poder fazer a informação com qualidade.

Atualmente o que os jornais e as TV’s fazem é reduzir as redações, e colocar uma pessoa multimídia, que grava, filma, escreve e posta no twitter ao mesmo tempo. Em geral, utilizando a mão de obra jovem para isso, pagando mal.

O resultado disso é a queda da qualidade na informação. Já a mídia publica não, ela pode garantir redações com um número de jornalistas o suficiente para fornecer uma informação de qualidade. E aí é que está o desafio, pois ela pode e deve ser a vanguarda. Este debate já está aparecendo no movimento pela democratização da comunicação.

Entendo as rádioscomunitárias e os jornais comunitários como mídia pública porque é a população aparecendo e tendo a sua voz ouvida. Todas as mídias também têm que estar inseridas no campo público, serem fiscalizadas, não ter fins lucrativos, contar com a participação efetiva e não ter uso religioso. Isso é difícil, mas a gente precisa trabalhar e insistir nesse sonho, que é o de construir uma comunicação efetivamente pública no país.

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