Art Déco e forró no Sertão Paraibano – Alexandre Barbalho

por Alexandre Barbalho*

No sertão paraibano, uma cidade se destaca por seu precioso conjunto arquitetônico Art Déco com suas linhas geométricas que no Nordeste ganhou cores fortes: Campina Grande. Não é algo específico de lá, mas de certa forma é um estilo, que sendo internacional, encontrou adeptos sertão adentro. Tanto que a pesquisadora Lia Monica Rossi cunhou o termo “Art Déco Sertanejo”.

Em Capina Grande, o estilo se impôs quase que como política pública. Em 1936, o então prefeito Vergniaud Wanderly, como tantos outros alcaides de sua época Brasil afora, queria modernizar sua cidade, então com cem mil habitantes. Para isso, entre várias medidas, botou abaixo o conjunto arquitetônico representante dos tempos coloniais e também os sobrados mais recentes, de fins do século XIX, em estilo eclético. Afinal, tudo isso era passado pré-moderno.

No lugar, mandou fazer o rearranjo do traçado urbanístico e construir os prédios no novo estilo, o Art Déco, antenado com a última moda civilizada e civilizadora. Procurou, assim, enterrar as origens agrárias da cidade (na realidade um antigo aldeamento de índios Cariri elevado à vila em 1864). Mas sua economia sempre foi agro-pastoril: criatório do gado, ciclo do algodão. E com menos importância econômica, mas não cultural e social, a agricultura de subsistência do milho, do feijão e da mandioca.

Não adiantou muito. Mais de setenta anos depois, Campina Grande é conhecida nacionalmente por seu São João, considerado o maior do mundo. Uma festa ligada aos tempos da colheita, em especial do milho. E ao catolicismo popular! Época boa para se dançar o forró e comer os produtos derivados do milho, a carne-de-sol, a macaxeira cozida, o pirão de leite.

Para comportar esse grande evento midiático, o poder público municipal mais uma vez interfere no espaço da cidade e constrói o Parque do Povo. Uma cidade efêmera que dura o mês das festas (junho) e tenta reproduzir uma comunidade interiorana. Talvez como Campina Grande, antes do bota-abaixo do prefeito Vergniaud. São 42 mil metros quadrados preparados para receber 1.500 mil pessoas e centenas de atrações musicais que tocam cerca de 500 horas de forró, xaxado, baião e outros ritmos de acordo com o sucesso da época.

Por exemplo, esse ano teve o rebolation com sua letra rica em rimas e imagens: “Bota a mão na cabeça que vai começar/O Rebolation, tion o rebolation, o rebolation, tion, rebolation/O Rebolation, tion o rebolation, o rebolation, tion, rebolation/Rebolation é bom, bom/Rebolation é bom, bom, bom/Alô minha galera preste atenção/Rebolation é a nova sensação/Menino e menina não fiquem de fora que vai começar o pancadão/O suingue é bom gostoso de mais Mulheres na frente os homens atrás…”.

Do mesmo modo que o Art Déco vem para marcar Campina Grande com seu poder simbólico ao representar os anseios modernizadores de suas elites, também a cidade cenográfica do São João carrega suas demarcações sociais e simbólicas. Há ali, visivelmente, o espaço priorizado pelas classes médias e altas e aquele freqüentado majoritariamente pelas classes populares.

Não que esses estratos não se misturem. A entrada é gratuita e o trânsito livre (menos nos camarotes). E, de fato, todo mundo anda de um lado para o outro. Mas quem entra pela rua Sebastião Donato para logo à frente pegar a rua da Imprensa, seguindo até o beco dos Bebos, ali dobrando à direita em direção à rua dos Paus Grandes e dali dirigindo-se ao Bico do Açúcar para depois chegar na rua da Imprensa, certamente vai encontrar os representantes da média e alta sociedade local e os turistas.

Ali estão os melhores restaurantes, as lojas de souvenir, as áreas para dançar um bom forró pé-de-serra, com trio de sanfona, triângulo e zabumba. Do outro lado dessa área, ficam as barraquinhas mais simples, os carrinhos dos ambulantes, os garotos vendendo pau-do-índio e a gigantesca estrutura para os shows. Ali se apresentam desde Elba Ramalho e Eliane, até as bandas em série de forró eletrônico – vale dizer que neste ano de 2010 prevalecem as últimas! Ali se encontram os estratos sociais da cidade com menos capital (cultural, político, econômico, social).

Seja pelo Art Déco, seja pelo forró, o espaço de Campina Grande, como qualquer outro espaço social, baseia-se em princípios de diferenciação. É um local de representação e de disputa de poderes simbólicos e materiais. O desafio é como estabelecer essas relações de forma democrática, sem que sejam imposições dos alcaides vigentes em seus esforços de inserir a cidade, seja na lógica da modernidade, seja na da mundialização.

Indicações de leitura:

Art Déco Sertanejo
Bourdieu, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989.

*Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA e professor dos PPgs em Políticas Públicas da UECE e em Comunicação da UFC onde pesquisa sobre políticas culturais e de comunicação e sobre cultura das minorias. Autor e organizador de inúmeros livros entre os quais: Relações entre Estado e cultura no Brasil (1998); Comunicação e cultura das minorias (organizado junto com Raquel Paiva – 2005); Políticas culturais no Brasil (organizado junto com Albino Rubim – 2007) e Brasil, brasis: identidades cultura e mídia (2008).

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