São as águas de março fechando o verão…

Chuva assola o Rio de Janeiro. Regiões pobres são as mais afetadas, como sempre.

por Marcello Gabbay
Doutorando em Comunicação e Cultura do LECC/UFRJ.

Esta é maior chuva com alagamentos da cidade do Rio de Janeiro em, pelo menos, 15 anos. Foram 288 milímetros de chuva num período inferior a 24 horas. Seria o equivalente a 300 mil piscinas olímpicas só na região metropolitana do Rio. A chuva começou por volta das 18 horas de ontem e permaneceu forte durante toda a madrugada. Apesar da melhora, continua a chover consideravelmente em toda a cidade.

O Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE), em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), previram para o trimestre de abril, maio e junho a ocorrência acima da média de chuvas na região Centro-sul do país. O motivo é a chegada de uma frente fria no litoral da região Sudeste que passa por áreas de instabilidade e provoca fortes chuvas. Esse fenômeno é característico da mudança de estações na região. Apesar de o outono já ter começado oficialmente há mais de três semanas, o período de transição costuma se estender mais um pouco.

Até agora, foram computadas 79 mortos pela Secretaria de Saúde do Estado. O ponto alto dos alagamentos aconteceu durante a madrugada, mas a cidade amanheceu ainda sob chuva média e com várias ruas, avenidas, e pontos importantes do tráfego alagados. As regiões de Niterói, São Gonçalo, Petrópolis e Grande Rio foram as mais afetadas com deslizamentos de terra. Na Zona Sul, o grande problema foi o trânsito interrompido por ruas submersas. A Lagoa Rodrigo de Freiras transbordou e complicou o acesso à Zona Norte e ao Centro da cidade. O Rio Maracanã também avançou no asfalto engarrafando uma das principais avenidas do bairro da Tijuca. Na região portuária do Rio, as principais vias foram invadidas pela água. Próxima à Praça Mauá, uma rua adquiriu a aparência de córrego. Até as 14 horas a Prefeitura já tinha removido 53 veículos abandonados em pontos de alagamento, e, desde cedo, o Prefeito Eduardo Paes e o Governador Sérgio Cabral, foram à imprensa pedir que os moradoras não saíssem de casa, e que, aqueles que vivem em áreas propícias ao deslizamento, saiam e procurem abrigo com parentes, amigos ou em escolas, associações.

No início da manhã, a Defesa Civil – que vem atuando junto aos Bombeiros – solicitou que à população que ajudasse informando as áreas de alagamento pelo telefone 199. No entanto, por volta do meio dia, o sistema telefônico ficou congestionado, obrigando o órgão a pedir que cessassem as ligações.

No calor dos acontecimentos, diversos órgãos públicos cancelaram o expediente, assim como toda a rede de ensino municipal e estadual. As Universidades públicas também suspenderam as aulas em todos os seus campi. Com o caos no trânsito, muitos trabalhadores não puderam sair de casa, e o dia de hoje, foi informalmente decretado como um triste feriado.

Mas pior situação foi a do sistema de transporte público. Com o engarrafamento e a alteração súbita na rota de várias linhas de ônibus, e o cancelamento de alguns trajetos do trem – que é um dos principais meios de ligação entre o centro da cidade e bairros mais afastados – o metrô do Rio de Janeiro registrou o movimento recorde de passageiros no ano. A Companhia de Metrô da cidade informou que ontem o volume de passageiros foi 15% maior do que a média diária. Mesmo assim, um dos trens da linha que liga Ipanema à Zona Norte foi recolhido essa manhã por conta de problemas no sistema de ar comprimido.

A chuva provocou alterações também nos dois aeroportos comercias da cidade. O Santos Dumont, responsável pela ponte aérea Rio-São Paulo e outros trajetos próximos, amanheceu fechado e só voltou a funcionar definitivamente depois das 11 horas, mesmo assim, operando por instrumentos. O Aeroporto Internacional Tom Jobim operou normalmente, apesar do atraso de pousos e decolagens ocasionado pela situação no Santos Dumont.

Para os próximos dias, a previsão é de chuva e temperaturas menores. Só no próximo sábado é que o sol deve voltar a aparecer, ainda encoberto por nuvens e com clima propício à chuva durante todo o dia. As temperaturas, que atraíram turistas durante o último feriado, na marca dos 36 graus, devem cair até a mínima de 16 e máxima de 26 durante essa semana.

O Rio de Janeiro sofre com a enxurrada e teme pela reincidência de catástrofes como a de Angra dos Reis no final do ano passado. As populações pobres são, certamente, as mais afetadas. Com a falta de saneamento, a instabilidade física dos imóveis e uma carência geral de serviços públicos básicos, as regiões periféricas da “cidade maravilhosa” continuam a viver na incerteza de um cenário de guerra natural.

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