Estudantes do Alemão escrevem jornal O Almirante

Por: Camilla Lopes / JB

O leitor provavelmente não conhece o jornal O Almirante. A publicação, assinada por alunos da Escola Municipal Henrique Foréis, no Complexo do Alemão (Zona Norte), faz parte de uma atividade complementar fomentada pela Secretaria Municipal de Educação no projeto Bairro Educador, que terça-feira chegou a cinco escolas do Complexo, com o aval da secretária Cláudia Costin. O objetivo é transformar a comunidade em extensão do espaço escolar. Para atingir a meta, talentos nascidos e criados no entorno das escolas da região foram convocados a repassar seus conhecimentos e recebem até R$ 300 por mês para levar a iniciativa adiante.

– Essas pessoas vão substituir os traficantes na imaginação dessas crianças. Mostrar que há outros exemplos a seguir – diz a secretária de Educação.

No jornal O Almirante, por exemplo, alunos capitaneados pela estudante de biologia da UFRJ Natália Neves, de apenas 18 anos, falam sobre o cotidiano dentro e fora das salas de aula. Natália, que começou a fazer jornais estudantis na adolescência, reconhece que a tarefa é difícil, mas gratificante:

– No início, eles não gostavam de escrever. Mas, quando viram suas opiniões no jornal, se animaram – conta a editora, que ministra oficinas de jornal comunitário para crianças de 8 a 12 anos.

Na Escola Municipal Afonso Várzea, aulas de matemática foram parar na cozinha. Os alunos aprenderam fração cortando um bolo durante a oficina de culinária.

– Também temos oficinas de xadrez, que é bem interessante. Mas o que destaco mesmo é a presença dos oficineiros em diferentes escolas da comunidade. Eles permitem uma troca de experiência que vai dos alunos aos professores – defende a diretora, Eliane Saback.

Alunos em período integral

Para garantir que as escolas sejam um porto seguro para os estudantes, as oficinas extracurriculares são realizadas no contraturno das aulas. A ideia é manter a criança na escola em período integral. Para isso, as possibilidades são múltiplas: aulas de balé, teatro, culinária e o próprio reforço escolar.

– Se uma criança estuda de manhã, ela não vai pra casa após a aula. Ela almoça na escola, faz os deveres e depois participa das oficinas. Os alunos da tarde cumprem a mesma dinâmica, só que pela manhã – explica a diretora.

Todos os educadores que fazem parte do projeto têm vínculos com as comunidades em que atuam. Conhecem a realidade dos alunos e falam a língua das crianças. Para especialistas, isso pode ajudar a subverter a violência e apresentar novos modelos a serem seguidos pelos estudantes.

– A violência vem da desesperança, queremos reverter esse quadro. O legado que esse projeto vai deixar é pedagógico. Cada comunidade vai respeitar suas características e aproveitar melhor seu potencial – aposta Cláudia Costin.

A meta da Secretaria de Educação é implementar o Bairro Educador nas 150 escolas localizadas nas áreas mais violentas da cidade. Até agora, sete já têm, duas delas na Cidade de Deus que conta com a presença das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Ainda não há prazo para que o projeto alcance toda a rede das chamadas Escolas do Amanhã. De acordo com Costin, as adesões ao Bairro Educador serão progressivas, de acordo com o interesse dos voluntários.

A remuneração dos oficineiros é garantida por uma parceria entre a prefeitura, a iniciativa privada e Organizações Não-Governamental (ONGs). Os valores variam de R$ 60 a R$ 300, de acordo com o número de aulas aplicadas.

Projeto nasceu em organização paulista

O projeto Bairro Educador é uma iniciativa que, apesar das diferenças sociais com o Rio, surgiu em São Paulo. Foi desenvolvida pela Cidade Escola Aprendiz, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), e trazida para os cariocas pela secretária Claudia Costin.

– A Secretaria de Educação do Rio manifestou interesse pela nossa colaboração. Para desenvolver o trabalho, nós contamos com apoio financeiro da iniciativa privada. Isso ajuda a viabilizar a proposta – explica Lilian Kelian, coordenadora da Cidade Escola Aprendiz.

Começo na Vila Madalena

Os projetos de integração das escolas com a comunidade começaram em 1997, nas favelas da Vila Madalena, Zona Oeste da capital paulista. No estado do Rio, foi primeiramente implementado pela Prefeitura de Nova Iguaçu, no projeto Bairro-Escola, em 2004. Por apresentar características distintas, cada lugar recebe um programa diferenciado.

– Os projetos já foram implementados em diferentes cidades do Brasil, abrangendo, inclusive, algumas comunidades onde a violência é um dado importante. Mas sabemos que cada localidade é única e exige estratégias específicas – explica Lilian.

A educadora ressalta a importância de o projeto contar com voluntários das próprias comunidades onde são implementados, para atrair o interesse dos estudantes.

– Quando a escola passa a valorizar a cultura desses jovens, desperta o interesse deles. Com isso, os alunos passam a utilizar os conhecimentos repassados nas oficinas em seu dia a dia e, certamente, transformam a realidade local.

Educadores fascinam as crianças com novidades

Os “oficineiros” do projeto Bairro Educador já são chamados de heróis do amanhã. Esses educadores são moradores, muitas vezes tímidos, do Complexo do Alemão que, assim como os alunos das oficinas que ministram, cresceram em meio à violência. Em comum, todos driblaram essa realidade e construíram uma história que hoje tentam passar à nova geração.

Por onde caminha, o professor de hip-hop Rafael Duarte, de 23 anos, faz sucesso. Nascido e criado na favela da Caixa D’água, ele ensina o domínio das rimas que envolvem ritmo e poesia em quatro escolas do Complexo do Alemão.

– Eles me veem como o Michael Jackson – brinca Rafael, enquanto é bombardeado de perguntas relacionadas às atividades das aulas.

Rafael está no hip-hop há dez anos e defende que dança e música são fundamentais para estimular as crianças.

– Eles querem aprender os movimentos, se interessam. Para mim, essa experiência também tem sido muito boa – diz o rapaz, que ao todo atende a 450 crianças.

Ondas do rádio

Das inúmeras rádios comunitárias presentes no Complexo do Alemão, nasceu a oficina de rádio da Escola Municipal Rubens Berardo. Os trabalhos são coordenados pelo radialista Rosival Araújo, 30, morador da Favela da Fazendinha.

– Pra mim, trabalhar com crianças sempre foi uma prioridade. Eu acho que elas querem se espelhar e quando a gente desenvolve um trabalho de integração, eles correm atrás – define o radialista.

Nas aulas de rádio, os alunos de Rosival elaboram programas voltados para a comunidade, recebem aulas de locução e escolhem as músicas que vão entrar na programação. As aulas reúnem crianças com idade entre nove e 12 anos.

A locomoção dos alunos entre as atividades extracurriculares fica a cargo da recreadora Márcia Paula, 31. Ela também é moradora da região e está orgulhosa do trabalho que os voluntários realizam.

– Meu trabalho é organizar as crianças e acompanhar as oficinas para que elas se comportem. Em geral, são muito agitadas e dão uma trabalheira danada. Mas não reclamo, está valendo muito a pena todo esse esforço – confessa.

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