O Instituto de Frankfurt: uma releitura contextual

Reporução de entrevista concedida pelo doutorando do LECC Marcello Gabbay ao Núcleo Piratininga de Comunicação em junho de 2009. Disponível em http://www.piratininga.org.br/novapagina/leitura.asp?id_noticia=4776&topico=Entrevistas

Entrevistas
Com Marcelo Gabbay, sobre a Escola de Frankfurt

Por Sheila Jacob
Publicada em 02.07.09

MarcelloGabbay_BNUm dos professores do Curso de Comunicação Comunitária promovido pelo NPC no Rio de Janeiro foi Marcello Gabbay, doutorando da UFRJ. Atualmente, ele é membro do Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC). Em entrevista ao BoletimNPC, Gabbay falou sobre a atualidade da teoria da Escola de Frankfurt. Ele abordou o tema da Indústria Cultural e alertou para a atual concepção de arte como mercadoria, que, ao invés de estimular o pensamento crítico, nos impede atualmente de questionar “verdades naturalizadas”. Gabbay também lembrou Gramsci, e destacou o papel do jornalismo comunitário e independente de desarticular o consenso e a verdade hegemônica. “O consenso cria uma sensação de ordem e anula as possibilidades de transformação”, afirma.

Leia a entrevista completa.

BoletimNPC: Você pode comentar um pouco sobre o grupo na UFRJ que você faz parte para rever a teoria da Escola de Frankfurt?
Na UFRJ, participo do Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária, o LECC. O grupo é coordenado pela professora Raquel Paiva e ela é a responsável por estarmos relendo a Escola de Frankfurt desde o ano passado. Quem quiser participar dos debates abertos do LECC, temos uma reunião de leituras chamada Leccturas, toda segunda-feira das 14h30 às 16h, na sala 124 da Escola de Comunicação da UFRJ (no campus da Praia Vermelha). Quem quiser pode aparecer, e é bem bacana.

Max HorkheimerBoletimNPC: Por que costuma-se dizer que estes teóricos estão ultrapassados?
Muitos pesquisadores da Comunicação afirmam que os frankfurtianos estão ultrapassados. Os motivos são basicamente três: elitismo, radicalismo e caráter datado dos textos. Porém, nosso objetivo é pensar qual é a filosofia básica e a mensagem da teoria crítica, excluindo seu caráter realmente datado, ou seja, o fato de ter sido pensada em meio ao clima pós-guerra, pós-crise financeira de 1929 e simultâneo ao primeiro aparecimento da indústria cultural norte-americana.

Pensando assim, conseguimos compreender alguns aspectos da escrita de Adorno e Horkheimer (foto). Podemos extrair daí pressupostos ainda muito atuais do pensamento crítico, como o “questionar o inquestionável” de que falei; a crítica como experiência coletiva; e a estandardização, ou seja, a padronização da cultura como processo engessante do pensamento crítico, e por aí vai.

BoletimNPC: O que permanece de atual na teoria de Adorno e Horkheimer, por exemplo, em relação à Indústria Cultural? E W. Benjamin, quando estudou a obra de arte e a reprodutibilidade técnica? Como aplicar essas idéias no nosso século XXI?
O que parece atual em relação à indústria cultural, pra mim, é seu potencial de desarticulação da crítica. Para Adorno, especialmente, a estandardização era um processo necessário para a formulação do “produto cultural”. Essa própria relação da cultura como um “produto” já esvaziava seus aspectos provocadores. A cultura industrializada gerava um “produto” simplificado e padronizado, cujo objetivo não era mais a reflexão sobre a realidade, mas o lucro e apenas isso. Por isso anulava toda capacidade crítica contida na arte, anulava uma “estética criadora”, capaz de negar a verdade dada e pensar uma transformação.

A indústria cultural cria seus “produtos” sempre iguais – seguindo a mesma estrutura e formatos, nas músicas de rádio, nos filmes de Hollywood (os da “Sessão da Tarde”, por exemplo) e ainda no jornalismo novelesco. Isso vai fazendo com que fiquemos acostumados com a repetição do mesmo e resistentes ao novo, a tudo que seja estranho, inovador e imprevisível. Mas é aí que está a transformação. Como vamos mudar a atual situação social, política e cultural se não aceitamos a mudança? Esse era o problema do Adorno, além do fato de a indústria fazer gerar lucros em tudo que era cultural.

Walter BenjaminA reprodutibilidade de que falava o Benjamin (foto) tinha o lado complicado por causa da técnica (as tecnologias de cópia e reprodução da arte) que faziam desaparecer a experiência, a chamada “aura” da arte, confundindo o original e a cópia. Havia na verdade uma mudança no tipo de relação com a arte a partir daí.

Acho que no nosso contexto atual isso deve ser reapropriado pra pensar onde estão as possibilidades de negação da cultura? Há uma tendência crescente nas artes e no jornalismo de se encaixarem em uma fórmula e numa postura afirmativa da ordem, ou seja, que não abre questionamentos profundos sobre as situações em que estamos inseridos. Mas também existem, hoje, formas de realização cultural alternativas, que poderíamos pensar como transformadoras. Aí estão os veículos comunitários e independentes, algumas manifestações artísticas realmente inovadoras e críticas que, ao contrário do que pensava Adorno, estão mesmo no campo do popular (diferente de massivo e diferente do conceito de “pop”, esse sim ligado à indústria).

Resumindo, temos que buscar questionamentos, processos de “negação” e transformação na cultura, essa é a mensagem que fica.

BoletimNPC: Que práticas do jornalismo atual precisariam ser revistas, de acordo com esses teóricos? Você comentou, por exemplo, na aula, sobre a falta de contextualização histórica…
No campo do jornalismo, acredito que as práticas mais carentes de reflexão são a ficcionalização da notícia. Esse processo de transformar em novela os acontecimentos sociais, políticos, culturais e econômicos é uma tendência do modelo norte-americano, que vem se aliando à recente aceleração do tempo jornalístico (essa produção gigantesca de informações rápidas que veio junto com as novas tecnologias e com a globalização). Tudo isso gera uma consequência grave: a planificação da notícia, ou seja, a falta de aprofundamento crítico, a falta de contextualização. Não há tempo nem espaço para esse tipo de investigação jornalística, e a produção de conteúdo é muito acelerada.

Veja a cobertura da morte do Michael Jackson, por exemplo: no afã de gerar conteúdo rapidamente, os jornais adiantaram a confirmação da morte do cantor, e ficam repetindo as imagens e inserindo plantões “direto de Los Angeles” sem novidade alguma, apenas para alimentar a “novela” que se fez sobre a morte do artista.

Há ainda a substituição da esfera pública pela esfera privada; isso significa dizer que o interesse público da notícia dá lugar ao interesse particular, num modelo de despolitização da informação. Por exemplo: a cobertura de um buraco numa rua da periferia tem poucos minutos para ir ao ar, e é focada somente no que sentem os moradores, no aspecto particular, nos sentimentos individuais, e não no que seria de interesse público da questão: por que há um buraco desse tamanho naquela rua há tanto tempo e não no Leblon?

Tem também a questão da dengue no ano passado: nenhum jornal enveredou sobre o aspecto classista da epidemia, ou seja, a relação com as condições sanitárias e de infra-estrutura dos bairros pobres. Tem outro exemplo citado pela Marilena Chauí no livro Simulacro e poder (2006): num ataque terrorista à casa do presidente da Líbia, os repórteres conseguiram uma entrevista com a vítima – algo muito difícil por se tratar de um presidente – e todos perguntaram o mesmo: “como se sente?”, “como é ver sua casa assim?” etc. Ou seja, os aspectos privados do desastre não deram espaço também aos aspectos de interesse público, como: por que houve o ataque à casa de um presidente do Oriente Médio? Que interesses políticos e econômicos estão envolvidos aí? etc.

BoletimNPC: Para finalizar, você citou o Gramsci, e o papel da cultura na construção de hegemonia. De que maneira a chamada grande mídia, hoje, trabalha nisso? A mídia alternativa teria um papel importante de contraposição a isso?
Antonio GramsciPara Gramsci (foto), a cultura tem o importante papel de articular ou desarticular o consenso, que nada mais é do que a verdade dominante, hegemônica, aquela mesma que Horkheimer criticou em seu texto “Sobre a questão da verdade”, de 1935. O consenso cria uma sensação de ordem e anula as possibilidades de transformação.

A organização da cultura pode ajudar a questionar esse consenso e inverter a ordem hegemônica. Segundo Gramsci, o jornal poderia ser o grande meio de desarticulação do consenso e de reorganização da cultura revolucionária. Porém, autores como Octávio Ianni, que releram Gramsci com os olhos de hoje, apontam a grande mídia como o “intelectual orgânico” das classes dominantes. É comum dizerem que o William Bonner é o “intelectual orgânico” das elites, por quê? Porque ele representa um ponto de vista daquela classe, suas opiniões e verdades, que são apresentadas por ele no jornal como únicas.

Os meios de comunicação alternativos têm certamente um papel fundamental nesse processo de contraposição à verdade dominante. Retomando a visão original de Gramsci, é o jornalismo alternativo, comunitário, independente, coletivo, orgânico, que pode organizar as classes (ou comunidades) rumo à mudança das verdades. Através da produção de informação alternativa seria possível fazer frente a todo um processo de construção de estereótipos e preconceitos vigentes na grande mídia. É, está nas nossas mãos…

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Núcleo Piratininga de Comunicação

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